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Céline: escritor maldito

por Daniel Santos Sousa, em 27.05.23

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Hoje passa mais um aniversário de Ferdinand Céline.

Se precisasse de traçar o protótipo do "escrito maldito" com todo o romantismo necessário para edificar a grandeza poética dos amaldiçoados então Céline estaria no Panteão dos grandes. Não sei descrever a influência que dele recebi quando o descobri na tradução do "Viagem ao Fim da Noite". Lê-lo é mergulhar no mais obscuro da nossa identidade. Céline e Proust são a face oposta da mesma França, e diria da mesma Europa. Se Proust vagueou nos salões da aristocracia e edificou uma prosa sustentada nos prazeres mundanos, recheando cada imagem de brilhantes ritmos de poesia luminosa, Céline conduziu-nos ao mais recôndito dos becos, às ruas da classe operária, ao decadentismo do século que amargurava entre guerras, à mordaça da insatisfação que devora as almas corrompidas pelo sacrilégio do descontentamento.

Céline foi esse poeta que não cantou heróis magnânimos, nem romantizou as paixões burguesas, nem perdeu tempo com floreados para encantar as massas, mas antes o desconforto, a miséria, os vícios, a pobreza, o desalento. Não há outra tragédia que não seja errar por um mundo que parece ter perdido todo o sentido, qual promeneur solitaire arrancado de todas as grandiloquências do passado para a modorra do mundo moderno onde é reduzido a insecto, esmagado por uma civilização inconsequente.

A passagem política de Céline foi derradeira. Do lado errado da história, dirão muitos, no sentido que se posicionou do lado das forças derrotadas, como grande para da inteligência, Maurras, Brasillach, Rebatet, Drieu de la Rochelle. Tantos e tantos. A vida de Céline foi como o século XX - viveu perigosamente e radicalmente. Dançou com as forças que gravitavam na alvorada do novo mundo, protagonizando a superação da civilização burguesa, fosse o comunismo, o fascismo ou nacional-socialismo. Como o século, viveu e sucumbiu nas intempéries que devastaram o velho mundo.

Infelizmente, para muitos, Céline continuou ( e continua) vivo. Uma silhueta que assombra os arautos do politicamente correcto dos nossos dias, daqueles que pretendem, uma linguagem lavada e polida, as novilínguas dos académicos das teorias críticas e outros dislates intelectuais. Face aos novos tiranos Céline, mesmo que não se concorde completamente com todas as suas posições políticas, continua mais livre, mais vibrante, mais irreverente do que nunca. E, se passadas décadas, ele ainda continua a assombrar, a chocar, a intimidar, é porque foi sem dúvida o maior dos escritores do século XX.

 


10 comentários

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De César a 27.05.2023 às 22:14

"O maior dos escritores do Séc XX(muito discutível para ser simpático) e o mais pequeno dos homens. 
Tão bom na escrita como execrável como pessoa. 
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De Anónimo a 29.05.2023 às 09:44

«execrável como pessoa»... o que em nada diminui a obra.
A  Arte é Arte apenas, independentemente do seu "criador"/autor. 
Temos o caso da "mais ilustre desconhecida" escritora que preferiu manter o anonimato sob o pseudónimo de "Elena Ferrante" sem nunca ter revelado a sua identidade. No entanto, esse "detalhe" não interferiu absolutamente nada no prazer de ler sofregamente, compulsivamente os 4 volumes dessa obra-prima "A Amiga Genial".
Quando o leitor ou o crítico de Literartura (ou de outras manifestações artísticas como a Pintura, Escultura, etc...) se debruça sobre uma obra, deve frui-la, contemplá-la e olhar somente a obra em si, pois esta é o  "objecto" da sua análise//observação (tanto estética como técnica).  Logo, a biografia  do Autor não deve ter interferência nem influenciar a apreciação da obra e deve ser relegado para segundo plano.
Extasiamo-nos ao contemplar o Belo, mesmo que ignoremos quem foi//é o seu criador, como acontece diante dos vasos gregos maravilhosamente decorados, ou dos frescos das casas de Pompeia...

M.F.
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De anónimo a 29.05.2023 às 20:09

"Extasiamo-nos ao contemplar o Belo, mesmo que ignoremos quem foi//é o seu criador".

V. está bom para se extasiar com os 5 volumes de O Amigo Genial escritos pelo ChatGPT.
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De Anónimo a 30.05.2023 às 19:53

De facto, deu um bom exemplo, a  I.A. pode dar origem a imensas fraudes, sem dúvida. 
Mas mesmo sem um ChatGPT,  é bem conhecida a fraude de um falso escritor que recebeu os créditos por um livro que publicou e não o escreveu, servindo-se de um "amigo genial", um ghost writer (escritor-fantasma) com quem tinha feito um contrato.
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De Anónimo a 29.05.2023 às 09:47

A importância da autoria é apenas nos casos em que ela seja um auxílio imprescindível para se  contextualizar o «objecto» e situá-lo numa determinada época com a qual está em sintonia, a fim de lhe dar um enquadramento mais preciso, para que se possa analisar com mais rigor a génese do "objecto criado" e compreendê-lo à luz das circunstâncias históricas/políticas/filosóficas que motivaram o seu "criador". 
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De Zé raiano a 28.05.2023 às 10:25


viveu no castelo da família da rainha D. Estefânia
não foi fuzilado, mas não perdooudava consultas gratuitas, mas recusou ir de noite visitar um português ao alegar «não posso deixar o meu cão só »
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De Anónimo a 28.05.2023 às 15:07

Parece-me que alguém se "esqueceu" de Camus....
JSP
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De lucklucky a 29.05.2023 às 16:38

Mais um anti-ocidental.
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De Anónimo a 30.05.2023 às 06:36

Grande escritor? Pois olha-se para a sua fisionomia, que quase sempre nos diz quem ali vai, e vê-se um cara de escroque esventrador de mau augúrio ... é fugir!
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De Albino Manuel a 03.06.2023 às 14:09

Ena ena, um blog todo beato, todo bons costumes, viva el rei, a fazer o elogio de Céline, como escritor e como interveniente político. Do primeiro, compreendo, é de facto um grande escritor...já do segundo...


Dirão muitos?...estou entre esses muitos, não com o Daniel (nome de judeu, que deixaria Céline a espumar, aquela coisa de bagatelle pour un massacre...).


Como Maurras, preso e condenado? como os outros colaboracionistas, um pelo menos passado - e bem - pelas armas?


Sim, Céline é um grande escritor, já como traidor à França, só digo: viva de Gaulle!

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