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Carneirada

por henrique pereira dos santos, em 04.04.20

Lembram-se da justificação para as medidas radicais de contenção?

A questão central era que era fundamental garantir que o pico da epidemia não ultrapassava a capacidade de encaixe dos serviços de saúde.

Independentemente da discussão sobre os modelos que deram origem a números completamente irrealistas de mortos se não aceitássemos todos o suicídio económico que nos garantiam ser a única solução, já na altura houve quem (eu, por exemplo, mas evidentemente sustentado em quem sabia mais que eu) questionasse o pressuposto de que a capacidade de encaixe dos serviços de saúde era uma grandeza fixa.

Fascinados com as maravilhas de eficácia da ditadura chinesa, achámos que só os chineses conseguiam fazer hospitais em quinze dias, portanto não valia a pena pensar na hipótese de aumentar a capacidade de encaixe dos serviços de saúde, uma operação com custos económicos muito modestos, face ao custo económico estratosférico das medidas que nos venderam como as únicas disponíveis para obter o mesmo efeito.

Mesmo países como Portugal, com as finanças nas lonas e um serviço de saúde no osso em consequência das maravilhosas políticas públicas dos últimos sete anos de vacas gordas, rapidamente duplicaram, triplicaram, quadriplicaram a capacidade de encaixe dos seus serviços de saúde (nota lateral: boa parte deste resultado foi obtido à custa do esforço real dos profissionais de saúde, não foi só o Estado, foram também as pessoas comuns, as empresas e, sobretudo, os profissionais de saúde, que foram capazes de chegar ao ponto muito mais confortável em que estamos).

O exército espanhol, por exemplo, montou um hospital de campanha em 48 horas.

E, em quinze dias, o Reino Unido criou a maior unidade de cuidados intensivos do mundo, com quinhentas camas imediatas, que podem aumentar até quatro ou cinco mil.

A covid, pelas suas características clínicas, cria pressões adicionais sobre os serviços de saúde, e as opções administrativas e de gestão da doença e morte associadas criam ainda mais pressões.

Só que problemas de gestão de serviços de saúde resolvem-se gerindo adequadamente serviços de saúde, não se resolvem criando contextos económicos que, durante bastante tempo, vão estrangular toda a economia e, consequentemente, estrangular também o investimento futuro nos serviços de saúde.

Os modelos matemáticos que foram usados para criar o medo na opinião pública, que foram usados para esmagar moralmente as dúvidas que legitimamente se colocavam aos cenários catastróficos desenhados, obrigaram os governos a tomar decisões irracionais e estão, provavelmente, intrinsecamente errados.

Em cima disso, basearam-se na descrença na capacidade das democracias ocidentais serem tão eficazes como a ditadura chinesa na adaptação imediata dos seus serviços de saúde às novas circunstâncias.

Que isso nos sirva de lição para a epidemia seguinte, e que nos sirva para, o mais rapidamente possível, refazer os modelos, introduzindo as novas capacidades dos serviços de saúde na equação, de modo a permitir-nos sair rapidamente do atoleiro em que nos metemos voluntariamente, é o que espero.



34 comentários

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De henrique pereira dos santos a 04.04.2020 às 22:11

Está a confundir médias com picos, a gripe em 2017, na Itália, resultou num excedente de mortalidade bem acima das vinte mil mortes.
O argumento de que foram as medidas que deram o resultado que se verifica tem um problema: não se consegue ver nas curvas qualquer sinal de antes e depois das medidas.
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De Eremita a 05.04.2020 às 00:56

Não estou a confundir coisa nenhuma, como poderá verificar se consultar a tabela 6 do apêndice do artigo da Lancet que citei. Eu usei valores médios de vários anos e o limite superior do intervalo de confiança para não me favorecer. O Henrique fez cherry picking  e já deve saber que 2016/2017 foi um ano com valores anormalmente altos mas esqueceu-se de o referir. São estilos. Em suma, atribui-me uma confusão que não fiz e está a manipular a informação. Mas mesmo com essa manipulação e mesmo com os números de mortes por COVID-19 na Itália subestimados (se quiser posso explicar), quer apostar que até ao fim de Abril as mortes por COVID-19 na Itália ultrapassarão as da gripe em 2017?


Quanto à alegada ausência de efeito das medidas nas curvas, é o seu argumento que tem não um mas três problemas: 1) na Itália as medidas foram graduais, sendo difícil definir um antes e um depois; 2) considerando vários países europeus que praticaram o confinamento social soft e gradual e países como a China e a Coreia, que foram muito mais agressivos nas medidas de confinamento e/ou nos testes, há uma correlação clara entre a intensidade das medidas e o aplanar rápido da curva (https://www.statista.com/chart/21112/covid-19-growth-curve-selected-countries/); 3) na ausência de confinamento social ou outras medidas activas contra a propagação da doença (e.g., a vacinação), a propagação sustentada na população de uma doença infecciosa com um R0 de 2 como a COVID-19 só acaba quando >=50% (1-1/R0) dos indivíduos ganharem imunidade por terem sobrevivido a uma exposição ao agente patogénico. É também por causa desta dinâmica que podemos deduzir que os vampiros não podem existir, pois se existissem já seríamos todos vampiros, mas o Henrique tem um entendimento tão peculiar da epidemiologia que talvez acredite vampiros. Resumindo e pondo a cabeça no cepo dos testes empíricos: a menos que a serologia demonstre uma percentagem de indivíduos imunizados surpreendentemente elevada, a sua posição é insustentável. Em bom rigor, lembro que um estudo britânico de teóricos sugeriu esse cenário, mas foi um trabalho muito criticado pela comunidade científica (isto para si deve ser logo uma virtude, claro). Lamento, mas o que o Henrique escreveu é - provisoriamente - um profundo disparate. Creio mesmo que devia ler mais depois de pousar os óculos da ideologia e escrever menos sobre este assunto. É que eu até considerava as suas opinões sobre a gestão da floresta e o eucalipto, mas começo a reparar que só concordo consigo nos assuntos que não domino. Já alguém disse o mesmo sobre o Marcelo. 
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De henrique pereira dos santos a 05.04.2020 às 08:57

Agradeço-lhe que tenha confirmado que para comparar um pico de uma doença, escolheu uma média que disfarça os picos de outras doenças.
Se se quiser mesmo informar, veja os dados de mortalidade diária na europa aqui:

http://www.euromomo.eu/
Verá que na Europa toda a mortalidade desta época com covid está abaixo dos picos das gripes de 2019, 2018 e 2017 na população acima dos 65 anos.
Se andar mais para baixo, vê por países (mortalidade total) e verá que apesar da forte subida na Itália, o país mais atingido até aquele momento, o pico continua ao nível do pico de 2017.
Como ainda são dados da semana 13 do ano (ou seja, da semana passada) Espanha ainda subirá a mortalidade um bocado, e aproximar-se-á da mortalidade no pico da gripe de 2017.
No  resto dos países nem vale a pena falar, de tal maneira os picos de mortalidade pela covid estão longe dos picos da gripe de 2017 (e dos picos das gripes dos outros anos).
Dizer que a mortalidade por covid está subestimada só se pode dever a não saber quais são os critérios da OMS para esse registo: qualquer pessoa que morra, seja por que razão for, que tenha sido testada como positiva para a covid, é registada como  covid, portanto há uma percentagem altíssima de pessoas que tendo morrido com covid, não morreram tendo a covid como causa da morte (a avaliação feita pelos peritos científicos italianos que aconselham o governo nesta matéria falaram em 12,5% das mortes aquelas a que se pode inequivocamente atribuir a causa à covid).
Aquilo que chama um entendimento peculiar do que é uma epidemia é o que me faz lembrar-lhe que o R0 da covid tem vindo sucessivamente a ser revisto em baixa e está hoje longe do 2. Veremos, quando os testes serológicos permitirem ter uma ideia clara de qual a percentagem da população que teve realmente contacto com o vírus (o que hoje não sabemos), com que valor fica no fim.
Não vou discutir links com países escolhidos para análise e que partem do princípio de que a informação fornecida pela ditadura chinesa merece algum crédito, tanto mais que tem um erro de base: a China e a Coreia tiveram abordagens diametralmente opostos ao surto, e as curvas epidemiológicas parecem ser muito semelhantes, portanto nem mesmo considerando a informação da ditadura chinesa como boa o seu argumento tem qualquer base factual (não entro numa demagogia semelhante que seria dizer que os três países mais atingidos na Europa, Itália, Espanha e França, são os que adoptaram medidas mais duras e radicais, porque sei que, a haver alguma relação de causa efeito, ela seria a inversa: as medidas são tomadas para sossegar eleitorados, e portanto são tanto mais radicais quanto mais assustados estão os eleitorados).
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De Eremita a 05.04.2020 às 11:54

Fez um cherry picking descarado e ainda mantém essa pose? Francamente...

 

Não vou perder tempo a explicar por que motivo os dados estão subestimados, porque não é uma correcção importante.

 

Se o R0 é muito inferior a 2, mostre as suas fontes. É assim que se discute. Ou então aplique o seu R0 preferido à equação e veja se consegue calcular a percentagem de imunizados necessária para atenuar a transmissão da doença. Se essa percentagem for muito superior à actual percentagem de imunizados, só podemos concluir que anda a escrever disparates atrás de disparates. Se vier a confirmar-se que por alturas da reversão da tendência a percentagem de imunizados bate certo com a equação, o Henrique terá razão. Tudo o resto é delírio seu já com contornos conspiracionistas (a China conseguiria esconder tantas mortes? E a Coreia do Sul, também escondeu?) Já agora, deixe a demagogia de lado. O que são abordagens “diametralmente opostas” se ambas, embora diferentes, foram desenhadas para atingir o mesmo objectivo? O Henrique sabe o significado de “diametralmente oposto” ou tem uma atracção irreprimível por advérbios? A sua escrita está infectada por ideologia e soberba. Espere pelo resultados dos testes serológicos em massa e retrate-se em letras garrafais se for o caso. Eu também admitirei os meus erros, se for o caso. Prolongar esta discussão é perda de tempo.

 

 

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De henrique pereira dos santos a 05.04.2020 às 12:04


Mas qual cherry picking?
Um pico compara-se com outro pico, não com uma média.
A China não esconde mortes, mas a mortalidade associada à covid não é diferente de um pico de gripe, portanto não há mortes para esconder.
Diametralmente opostas, no caso, é simples de descrever: num caso a abordagem foi pôr toda a gente em casa, e na outra foi não pôr ninguém em casa a não ser os testados positivamente para o coronavírus.
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De zazie a 05.04.2020 às 12:27

Como é que compara um pico do que acabou e sem a morbidade deste, com um pico exponencial que está a decorrer?


Só partindo da sua leitura dos gráficos onde consegue garantir que todos já ultrapassaram o pico e estão a decrescer "naturalmente". 
Naturalmente é a expressão que me ocorre quando à falta dessa ideia de vida do vírus como vida animal, não tem mais dados na mão.
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De zazie a 05.04.2020 às 12:34

O seu RO foi o que comentei num post anterior onde faz esta afirmação:

«Como se pode verificar (escolham a base de dados que quiserem e olhem para os gráficos de casos confirmados, cuidados intensivos, mortalidade, o que quiserem), a generalidade dos países europeus estão já para lá do seu pico, em pleno planalto ou a começar a descida, independentemente da forma como lidam com a epidemia.

E no fim de Abril/ princípios de Maio, estará tudo tranquilo, quer na Europa, quer nos Estados Unidos.»

Perguntei-lhe em quais gráficos é que leu isso e em que base faz o prognóstico.

Base científica, claro. Dados para se aferir, não é whistful thinking.

Eu não encontrei. Não encontro e o período que se pode analisar é muito curto, não terminou como os da gripe sazonal de 2018 (e mesmo aí onde é que houve morbidade à escala planetária e crescimento exponencial como este?

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De zazie a 05.04.2020 às 14:45

"Um pico compara-se com outro pico"; "toda a mortalidade de agora está abaixo de 2018".


Falta acrescentar um detalhe que se aprendia logo no "liceu". Comparam-se dados em situações identicas.


Pergunta: qual foi o lockdown mundial que aconteceu num mês, em 2018, que não deu nos media?
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De Eremita a 05.04.2020 às 18:11

Só escreve disparates, Henrique. Está tudo bem consigo? É da quarentena? Se quer avaliar este pico da COVID-19, compare-o com uma média de picos, evidentemente. Caso contrário, pode concluir o que bem entender, bastando ir buscar o pico que lhe dá jeito, que foi exactamente o que fez. A sua lata é notável. 


Não está mesmo a perceber ou não quer perceber. A sua tese de que as curvas não reflectem as medidas postas em prática revela uma ignorância e arrogância preocupantes. Já lhe expliquei como se pode testar a sua tese alucinada. Basta esperar pelos dados serológicos. Entretanto, pode ir manipulando a estatística como bem entender ou concentrar-se em aspectos irrelevantes como a descrição que acaba de fazer sobre as estratégias dos Chineses e dos Sul Coreanos. Não lhe pedi tantos pormenores. O que estava em causa era saber se a acção do homem pode influenciar a curva, mais nada. Pelos vistos ainda não admite que foi o que aconteceu na China, porque os Chineses são mentirosos, e na Coreia do Sul, por uma razão que só o Henrique conhece e não se dá ao trabalho de avançar. A propósito, não quer indicar os estudos em que se baseia para dizer que o R0 é muito inferior a 2? Esses estudos existem ou inventou-os? Continuo à espera. 
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De Anónimo a 05.04.2020 às 18:44

e esse tal teste serológico vai-nos diz definitivamente se devemos usar máscara ou luvas ou ainda não? (estou a brincar... ou se calhar não).
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De henrique pereira dos santos a 05.04.2020 às 19:41

Já não é mau reconhecer que para comparar um pico se deveriam usar outros picos, já só lhe falta compreender que o intervalo superior de uma gama de valores média não é uma média dos seus extremos.
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De zazie a 05.04.2020 às 20:23

Intervalos superiores comparam-se com intervalos superiores. E sabem-se que são superiores por oposição a descidas.


Comparam-se nas mesmas situações.


Pergunta: por que motivo não houve encerramento de fronteiras e confinamento mundial numa epidemia que matava, em 2018, mais que esta, apesar de não haver referências a médicos e enfermeiros contaminados e a morrerem às dezenas, mesmo sem usarem máscara, como era habitual.
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De Eremita a 05.04.2020 às 23:02

Não estou a reconhecer coisa nenhuma. Podemos perfeitamente comparar o número médio de mortes devido a gripe por ano com o número previsível de mortes por COVID-19 em 2020. Quem complicou desnecessariamente a discussão foi o Henrique, talvez para não admitir a aldrabice que foi ter escolhido 2017.Vejo que continua, com a soberba do costume, a atirar areia para os olhos de um eventual maluco que, além de nós os dois, ainda acompanhe esta conversa. Francamente, começa a faltar a pachorra para os seus truques, mas sou obrigado a frisar que não fiz qualquer confusão entre o intervalo superior de uma gama de valores e a média dos seus extremos. De onde lhe veio tal ideia? O que pretendia provar? Obviamente, a dispersão associada à soma de médias é a soma das respectivas variâncias. E daí? Se eu escolhi o extremo máximo do intervalo de confiança do valor médio foi para me colocar na pior posição possível e demonstrar que mesmo assim os seus números são uma treta. Posto isto, quer indicar-me o estudo ou estudos que estimam um R0 para a COVID-19 muito inferior a 2? Esses estudos existem, Henrique? Já lhe fiz esta pergunta e não respondeu. Não voltarei a colocar a questão, mas se não responder outra vez só poderei concluir que o Henrique, apesar de gostar de encher o peito com acusações de fraude (acabo de ler mais um opus seu), também é muito criativo.  
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De henrique pereira dos santos a 05.04.2020 às 23:49

Peço desculpa mas está a ir longe demais. O que eu disse, e mantenho, é que o número de mortos co covid (e nem discuto o facto de isso não ser o número de mortos provocado pela covid) ficaria dentro do que é um surto mau de gripe.
Portanto comparei, e comparo, com surtos maus de gripe.

E vá chamar aldrabão a quem quiser, incluindo a mim se isso lhe faz bem à saúde, que não é por isso que as coisas deixam de ser o que são.
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De Eremita a 06.04.2020 às 01:54


O número de mortos da COVID-19 conta-se daqui a uns meses. Tudo o que anda a fazer é uma discussão precoce e frenética, alimentada pelo seu desejo de desmontar uma alegada conspiração político-mediática. Mas se ainda pensa que o número de mortos de COVID-19 na Itália se comparará no final do mês de Abril com um surto mau de gripe naquele país só pode estar em negação. E não será sequer preciso corrigir o número tendo em conta os que morreram e ainda vão morrer em casa. A 30 de Abril voltamos a fazer as contas e pode escolher o ano que quiser para comparação (excluindo a gripe espanhola). 


Mas o pior é não admitir que o número de mortos em todo o mundo seria substancialmente mais alto se se estivesse a lidar com a COVID-19 como habitualmente se lida com a gripe. O Henrique não oferece uma explicação alternativa para as diferentes curvas de cada país e parece raciocinar sem ter noções elementares de epidemiologia, ignorando quem percebe do assunto. O seu extraordinário "não se consegue ver nas curvas qualquer sinal de antes e depois das medidas" choca frontalmente com istohttps://www.imperial.ac.uk/media/imperial-college/medicine/sph/ide/gida-fellowships/Imperial-College-COVID19-Europe-estimates-and-NPI-impact-30-03-2020.pdf. Sabe muito pouco sobre estes assuntos; em todo o caso, não sabe o suficiente para a pose que mantém. A minha esperança é que entenda o significado dos testes serológicos, que estes sejam feitos em massa e ainda vá a tempo de rever as tolices que escreveu se os resultados confirmarem que a percentagem de imunizados ainda era muito baixa em Março e Abril para ter contribuído para o desenho do pico.


Longe demais? Tenho até tido uma paciência de santo. Porque se não apresenta o tal estudo com o R0 muito inferior a 2, é evidente que temos um problema. Até desconfio que terá sido um lapso inocente. Pode ter confundido o R0 com a taxa de mortalidade, pois esta encaixa-se mais ou menos na descrição "tem vindo sucessivamente a ser revisto em baixa e está hoje longe do 2". Mas escusa de se empertigar à Sócrates (o Zé), pois não esclarecer a sua posição é realmente uma mentira por omissão. É possível que lhe custe mais admitir o lapso do que deixar no ar a ideia de aldrabice, tendo em conta que quase ninguém lê esta conversa. My two cents...
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De henrique pereira dos santos a 06.04.2020 às 07:00


1) Estamos de acordo, os números vêem-se no fim do surto. A ideia dominante é a de que este surto é perigosíssimo e provocará uma hecatombe de mortes, que contam por milhões.
2) Os modelos do Imperial College falam de 2,2 milhões de mortos nos EUA, a realidade de ontem é de menos de 10 mil mortos quando o estado de Nova Iorque, onde esta o maior  surto, já teve ontem a primeira paragem na subida do número de motos, falam em meio milhão de mortes no Reino Unido, quando a realidade de ontem era de menos de seis mil mortos, quando ontem também foi o primeiro dia com descida no número de mortos, e aplicando à Itália, fala obtém-se o valor de 400 mil mortos, quando ontem a realidade era menos de 16 mil mortos e a descida é já muito sólida.
3) O Imperial College resolveu refazer as contas, dizendo que com as medidas de contenção a covid mataria apenas 20 mil mortos no Reino Unido (metade a dosi terços dos quais morreriam de qualquer forma até ao fim do ano, dada a sua idade e fragilidade da sua condição de saúde), sem explicar essa redução de 25 para 1 de forma clara;
4) De acordo com a visão minoritária entre o público, mas maioritária entre os epidemiologistas que realmente estudam epidemias, nomeadamente as que afectam os pulmões, a epidemia teria um crescimento exponencial, um planalto e uma queda, sendo os números iniciais aterradores, como são sempre, mas que tenderiam a baixar rapidamente, como efectivamente está a acontecer;
5) A realidade é que, até agora, independentemente das medidas tomadas, as curvas epidémicas dão razão a essa visão minoritária da evolução da epidemia e desmentem categoricamente os modelos do Imperial College;
6) Nunca em momento nenhum falei de conspiração político mediática, isso é simplesmente falso e a ideia é uma estupidez;
7) Como disse acima, o número de mortos em Itália com covid (muito maior que o número de mortos de covid, mas esqueçamos isso) é actualmente 16 mil e a curva da mortalidade está a descer solidamente. O surto de gripe de 2017 provocou 24 ou 28 mil mortes em excesso (não tenho agora tempo para ir verificar), ou seja, dizer que, provavelmente, a covid vai ficar abaixo desse número, ou, no máximo, à volta desse número não é negar coisa nenhuma, é o que é.
8) Tem toda a razão, todo o meu raciocínio é baseado em noções elementares de epidemiologia, e é exactamente o facto de se esquecerem essas noções elementares, fixadas por 100 anos de epidemiologia, que me chateia na visão dominante e catastrófica de uma epidemia que, até agora, causou, imagine-se, o extraordinário número de 70 mil mortos em três meses, que devem ser comparados com os 450 mil mortos diários nos EUA, por exemplo.
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De Eremita a 06.04.2020 às 13:42

Não vou tentar rebater o seu último ponto pela enésima vez. É o ponto essencial, infelizmente, mas está tão convencido de que as medidas de confinamento social são irrelevantes, de que a China mente e de que o vírus se fartou de repente dos sul coreanos, que não sei mais o que lhe dizer ou leitura recomendar. Tente compreender que não é por um modelo ser do tipo catastrofista e as suas previsões não se verificarem que, de repente, as tais noções de epidemiologia ficam em causa. E perceba que não está a usar noções elementares de epidemiologia, pois a sua resistência em aceitar que a quarentena e outras medidas de confinamento social baixam forçosamente o R0 é irracional. O simples facto de as trajectórias do vírus serem tão distintas em países do hemisfério norte deveria bastar para se concluir que as diferentes reacções das sociedades tiveram um papel importante, mas deve andar à procura de um qualquer estudo multifactorial que concluirá ter sido a genética dos povos, os microclimas, os diferentes metais das maçanetas, a pirâmide etária, a robustez dos sistemas de saúde, etc., só para atirar mais areia para os olhos. 
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De Eremita a 06.04.2020 às 13:43

Vejo também que insiste nos números da COVID-19 e da gripe na Itália. Alguns reparos: 

1. A distinção de mortes de/com COVID-19 aplica-se também às mortes atribuídas à gripe, que frequentemente estão associadas  a outras doenças ou vulnerabilidades. Aliás, não me surpreenderia se a correcção que refere “en passant”, quando aplicada às duas doenças, viesse a enfraquecer a sua posição.

2. Pelo contrário, a situação calamitosa que se viveu e ainda vive em Itália terá contribuído para um elevado número de mortes por/de COVID-19 em casa que ficou por registar, o que não sucede nos casos de gripes (não com esta intensidade. Segundo os cálculos de um investigador, serão mais 6000 a acrescentar (https://www.thelocal.it/20200403/italys-coronavirus-death-toll-rises-by-766-in-a-day-data-statistics)

3. O Henrique tem um problema sério com as fontes, está visto. Primeiro foi o enigmático R0 muito inferior a 2 que jamais esclarecerá e agora são as 24-28 mil. Segundo a minha fonte, o número médio de mortes por gripe em Itália é 982-10058 (http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(17)33293-2. Segundo a sua fonte, que deve ser esta (https://doi.org/10.1016/j.ijid.2019.08.003), o intervalo em 2017 é 23001-27014. A diferença entre os intervalos é enorme e deve resultar da aplicação de critérios diferentes porque 2017 não foi assim tão extraordinário, mas avanço com os seus números.

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De Eremita a 06.04.2020 às 13:44

4. O Henrique escreve como se passar o pico da curva equivalesse a uma descida abrupta para 0 mortes por dia daí em diante, quando o que vamos ter é uma descida mais ou menos suave, ainda com centenas de mortos por dia, que se traduzirá em mais uns milhares até ao final do mês (quantos depende da distribuição, que pode ser simétrica ou com uma cauda gorda). Ora bem: 15k + 6k + 6k de Abril (um cálculo grosseiro, aplicando a média da variação nos oito dias após o pico) já está bem dentro do seu intervalo. Por outras palavras, mesmo tendo a Itália parado em 2020, o número de mortos por/de COVID-19 será equivalente ao pico de gripe mais alto que o Henrique arranjou. Isto para si não é extraordinário porque não acredita no efeito das medidas de confinamento social. Mas para quem acredita, é a demonstração cabal de que esta pandemia é muito mais perigosa do que uma epidemia de gripe.

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De Eremita a 06.04.2020 às 14:23

Só mais esta adenda, para perceber que os modelos dos epidemiologistas não são descrições neutras da realidade pois quando levados a sério podem ter grande influência sobre o futuro. É trivial, bem sei, mas aqui vai: 
https://www.theatlantic.com/technology/archive/2020/04/coronavirus-models-arent-supposed-be-right/609271/
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De henrique pereira dos santos a 06.04.2020 às 15:59

se bem percebo, no pico tivemos um máximo até agora de 37 mortos, mas na descida vamos ter muitos dias com centenas de mortos.
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De Eremita a 06.04.2020 às 19:30

Se calhar foi uma alucinação, mas por momentos vi aqui uma resposta sua (creio que entretanto apagada) em que me respondia usando o número de mortos de Portugal, quando a discussão era sobre a Itália. Não sei se anda a dormir pouco ou em demasiadas discussões paralelas, mas a sua sucessão de lapsos, omissões, precipitações e respostas atabalhoadas é notável. 
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De Eremita a 06.04.2020 às 19:34

Ah,  não era mesmo alucinação. Henrique, veja se dorme bem esta noite e responda amanhã com os números certos. 
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De henrique pereira dos santos a 06.04.2020 às 21:56


Tem razão não reparei que estava a falar de Itália. Pega num número de 15 mil, soma-lhe arbitrariamente 12 mil e conclui que é semelhante ao pico de um ano de gripe forte.
Exactamente o que estou a dizer desde o princípio: este surto ficará, na pior das hipóteses, ao nível de um surto forte de gripe.
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De Eremita a 06.04.2020 às 22:49

O Henrique tem uma tendência forte para não reparar nas coisas, sobretudo aquelas que o seu ego gigantesco oculta.

Não somo nada "arbitrariamente".A primeira parcela é uma estimativa do número de mortes de pessoas que terão morrido de COVID-19 em casa e não aparecem nas estimativas. A segunda parcela reflecte a parte da direita da distribuição. Na sua cabeça as pessoas deixaram de morrer em Itália uma vez passado o pico, mas só ontem houve 525 mortos. Nos últimos três dias foram 1972. O surto ainda não acabou, sabia?


A sua arrogância não lhe permite ver a circularidade do seu raciocínio? É assim tão difícil? Que raio, isto não é propriamente mecânica quântica ou uma passagem obscura de Hegel. Quando se cansar de se aplaudir por aquilo que anda a dizer desde o princípio, considere a possibilidade de que os números serão parecidos aos de um surto forte de gripe* apenas porque foram tomadas medidas de confinamento social  de uma intensidade sem precedentes nas nossas vidas. Na ausência destas medidas, quantos mortos teríamos tido? Esta é a única questão relevante, não as comparações tontas com a gripe que o deixam tão inchado. 


* De resto, faça as continhas para a Espanha e verá que a sua comparação falha.

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