Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Carlos Guimarães Pinto e Moedas

por henrique pereira dos santos, em 28.09.21

Têm sido muito raras as minhas divergências com Carlos Guimarães Pinto (mais raras que as divergências com a Iniciativa Liberal), sendo a principal das quais o peso que Crlos Guimarães Pinto atribui à corrupção enquanto fenómeno político (eu acho que é sobretudo uma questão social cuja resposta não está em ter políticas anti-corrupção mas em melhorar as instituições de modo a diminuir o número de oportunidades para decisões administrativas com valor de mercado).

Também já aqui escrevi sobre a minha ambivalência sobre a decisão da Iniciativa Liberal apresentar uma candidatura autónoma em Lisboa, até porque Moedas me parece ser (mas o que conta num político é mesmo o que decide, não o que pensa ou diz pensar) razoavelmente liberal.

Enganei-me na leitura política das eleições, achando que Moedas não tinha hipótese de ganhar, votei na Iniciativa Liberal, e se Moedas não tivesse ganho não seria responsabilidade da Iniciativa Liberal: um partido serve para levar as suas ideias avante, e não para fazer terceiros ganhar ou perder eleições, quem tem responsabilidade de ganhar ou perder eleições é quem concorre.

Neste caso Moedas ganhou, a Iniciativa Liberal perdeu, porque não conseguiu eleger um vereador, mas está muito longe de estar demonstrada a hipótese de que os 10 mil votos da IL iriam para Moedas se a IL estivesse na coligação (os quatro mil votos a mais da IL para a Assembleia Municipal demonstram bem que ninguém é dono dos votos dos eleitores).

E, como acontece frequentemente, Carlos Guimarães Pinto explica bem o essencial desta questão:

 "Um pedido de desculpas a Moedas

Tenho recebido várias mensagens mais ou menos agressivas de pessoas de que gosto sobre o erro que foi a IL não apoiar Moedas em Lisboa. Como é evidente, não fui eu que tomei a decisão, nem sequer fui consultado (nem tinha que ser) pelo que não responderei por ela nem me cabe defendê-la. No entanto aceito que não tenha sido uma decisão fácil, apesar das análises em retrospectiva fazerem parecer que era.

Mas a IL tem que fazer política de forma diferente, pelo que assumir os erros e pedir desculpa aos seus eleitores por eles deve ser parte da sua forma de fazer política. A IL pode e deve pedir desculpas por não ter apoiado Moedas, mas não já. Porque o objetivo da política não é ganhar eleições. Ganhar eleições é apenas um meio para mudar políticas. Portanto a IL deve pedir desculpas por não ter apoiado Moedas se:

- O executivo Moedas reverter a vergonhosa lei lançada por Medina logo após as eleições de 2017 que criou centenas de novos cargos para chefias, assessores, secretários e motoristas na vereação e AM. Uma lei que equivaleu a Assembleia Municipal a uma espécie de Assembleia da República e multiplicou o número de cargos de assessores pagos pela CML mas que só servem as máquinas partidárias. Perto de 6 milhões de euros de contratos de prestação de serviços que Medina distribuiu pelos partidos à revelia da lei nacional e do que pode ser feito nos outros 307 municípios.
- O executivo Moedas reduzir a dimensão da CML ou então explicar aos eleitores porque precisa que a CML seja o terceiro maior empregador nacional e o maior empregador de uma cidade que concentra tantas grandes empresas.
- O executivo Moedas reduzir a dimensão da CML ou então explicar porque a CML precisa de empregar 1 funcionário por cada 29 habitantes, porque precisa de 168 historiadores, 159 técnicos de relações públicas ou 443 arquitectos (mais de 4 por quilómetro quadrado).
- O executivo Moedas for capaz de reduzir a derrama municipal ao mínimo de lei, não só por isso ser importante para atrair atividade económica para a cidade, mas também por ser importante para o país como um todo porque a derrama é paga maioritariamente por empresas com sede em Lisboa mas com atividade em todo o país.
- O executivo Moedas for capaz de retirar a confiança política a qualquer dirigente político apanhado a conceder favores ou abusar do poder na sua junta de freguesia em vez de fazer o mesmo que Medina fez com a JF de Arroios.
- O executivo Moedas fizer uma listagem de todos os apoios distribuídos pela CML e o benefício desses apoios para identificar clientelas políticas que foram criadas nos últimos anos em que a despesa da autarquia cresceu mais de 500 milhões de euros.

Se o executivo Moedas fizer isto, a IL deve, na minha opinião, um pedido de desculpas. A sua forma de fazer política deve incluir a capacidade de admitir erros e reconhecer mérito reformista onde ele exista noutros partidos. Mas se o Executivo Moedas não fizer nada disto, são os comentadores (alguns meus amigos e muitos liberais) que deverão uma desculpa à IL.

O primeiro ponto ver-se-à já nas próximas semanas. Moedas pode desmontar aquela vergonha de tachos tão depressa como Medina a montou (em pouco mais de um mês depois das eleições de 2017)."

Ou seja, como muito bem explicado, se Moedas, rapidamente, demonstrar que a sua vitória faz a Câmara de Lisboa aproximar-se de práticas mais liberais, com certeza, a IL deveria ter percebido que assim seria e juntar-se para apoiar que assim fosse.

Mas se Moedas não executar políticas mais liberais, mantendo o essencial do monstro burocrático que é a Câmara de Lisboa, a IL terá feito muito bem em se manter à parte, mesmo que isso tivesse custado a eleição de Moedas - tal como o fóssil vivo que é o Partido Comunista fez muito bem em promover o julgamento dos eleitores ao seu programa político, mesmo que isso tenha significado entregar a câmara a Moedas.



13 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 28.09.2021 às 22:46

a cml precisa de limpeza de pessoal e de auditoria das contas
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.09.2021 às 09:52

Em desacordo consigo, dadas as circunstâncias actuais. A posição que o Sr. defende como eleitor, em nada contribui para destrunfar a frente de esquerda que está no poder. Pelo contrário, dispersando votos, está-se a contribuir para lhes prolongar a vida e assim o Sr. torna-se "um aliado objectivo do Partido Socialista", citando o Rui Albuquerque com o qual estou em absoluta concordância, na sua análise de hoje, no Observador:  " 115+1 "   (aquele +1 é o número mágico de que estamos necessitados).
st
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 29.09.2021 às 23:40

A IL e os outros fazem muito bem em face do um partido como o PS-Dois.
Tal como o BE puxou o PS para a extrema esquerda é preciso partidos que puxem o PSD para a direita.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.09.2021 às 09:54


porque Moedas me parece ser razoavelmente liberal


Mas o que conta não é Moedas, é toda a lista na qual ele se insere.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.09.2021 às 09:56


está muito longe de estar demonstrada a hipótese de que os 10 mil votos da IL iriam para Moedas se a IL estivesse na coligação


Eu votei na IL e jamais teria votado em Moedas e na sua lista.
Sem imagem de perfil

De balio a 29.09.2021 às 17:33

O comentário anterior é meu.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.09.2021 às 10:02


tal como o fóssil vivo que é o Partido Comunista fez muito bem em promover o julgamento dos eleitores ao seu programa político, mesmo que isso tenha significado entregar a câmara a Moedas



Exatamente, muito bem escrito. Dito por outras palavras: a Iniciativa Liberal tem tanta obrigação de se aliar ao PSD como o PCP e o BE têm obrigação de se aliar ao PS. (Ou seja, não têm nenhuma obrigação.) A Iniciativa Liberal tem exatamente tanta legitimidade para concorrer sozinha como o PCP e o BE têm para também o fazerem.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.09.2021 às 17:11

Pois é! Tem inteira razão, as alianças entre partidos não são obrigatórias. Mas às vezes são uma questão de inteligência... (digo eu).
Assim fizeram os partidos de esquerda para apearem a direita do poder. Em vez de cada um correr em pista própria (individual), esqueceram o que as dividia, formaram uma equipa e concentraram-se naquilo que os unia: no caso, consistia em derrubar o "inimigo" comum. Foi uma estratégia válida, inteligente e com resultados visíveis, até hoje.  Tão visíveis que a direita se desmantelou e andou atordoada e sem estratégia, a fazer a travessia do deserto.  
Mas a esperteza e o cinismo da esquerda não se ficou por ali e levaram a táctica mais longe: de conluio com a CS plantaram em muitas cabecitas ocas e meio tontas que a sua "façanha" só é legítima à esquerda !!! Porque aos outros partidos exigem "cercas sanitárias" e o que lhes lembrar!


Mas como não "há  mal que nunca acabe", começam lentamente a aparecer os primeiros sinais de mudança (poucochinha) por enquanto. Se tem havido outra estratégia "outro galo cantaria" agora!
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.09.2021 às 10:04


Permita-me que volte à tal "frente de esquerda" que está no poder. Não sei como não lhe levanta dúvidas a questão da "legitimidade" de dois (2) dos partidos que sustentam a actual governação. Sei que é uma questão a que dá importância. Veja o cenário actual:  somos governados por Costa que lidera forças de esquerda em declínio (note bem que PCP e BE estão em queda contante em eleições sucessivas) e nas quais Costa se apoia.  A pergunta que se impõe é a seguinte:
 _ Até que ponto aquela frente de esquerda e mais concretamente aqueles dois partidos, "hoje", têm legitimidade para serem impostos aos portugueses sem que estes lhe tenham concedido um mandato claro e expressivo nas urnas?


Não pode ser subvalorizado o facto de os dois partidos que sustentam o dr. Costa no poder, PCP e BE, terem sido liminarmente, inequivocamente rejeitados democraticamente nas urnas. Praticamente  reduzidos à irrelevância  pelos eleitores. E apesar disso, o dr. Costa subestima a vontade expressa pelos portugueses e contraria o sentido do seu voto ao insistir em dar-lhes importância (que deixaram de ter), por decisão pessoal (!), num gesto de voluntarismo muito pouco democrático. 


 Ora, já vi o Sr. Arq. aqui defender que qualquer poder só é "legítimo" se for outorgado, validado pelo Voto de forma inequívoca nas urnas, através de eleição democrática. Não parece ser o caso daquele dois partidos referenciados a que estamos subordinados por vontade do Costa (insisto) não dos eleitores.
 Desta feita, os tais "aliados" dos socialistas (involuntários, bem sei!...) , muito contribuem para lhes prolongar o poder do qual nunca serão apeados (no actual contexto) se mantiverem as suas posições "um partido serve para levar as suas ideias avante".
Tenha uma boa semana.
st
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.09.2021 às 11:15

"... o objetivo da política não é ganhar eleições. Ganhar eleições é apenas um meio para mudar políticas."

Pois tenho a certeza de que um  pequeno partido como a IL seria aproveitado por Carlos Moedas, ter-lhe-ia dado maior relevância e mais oportunidades de contribuir para essas mudanças de políticas, do que com Medina. Assim, desperdiçaram essa hipótese. Foi um erro táctico. Deve-se olhar para o futuro, e não apenas para o presente. 
Sem imagem de perfil

De Anónimo 78 a 29.09.2021 às 12:14

Se Moedas governar bem e sobretudo visivelmente bem, desencadeará uma dinâmica imparável, primeiro no PSD, depois no país.
A esquerda sabe-o melhor do que ninguém e com a maioria dos vereadores e o controlo da CS vai opor-se a que Moedas governe e reforçe a sua imagem pública.
As desculpas ou não da IL são um paradigma de irrelevância.
Sem imagem de perfil

De pitosga a 29.09.2021 às 16:00


Como é humano, o essencial de um escrito vem sempre no fim. Como o mordomo criminoso.
Das diversas agremiações que por aí existem, a única que sabe de política é o PCP. Sempre mandaram e, agora, demonstraram ciência política. Desfizeram o que puderam em toda a esquerda (a tonta), sabendo que são poucos para terem vitórias em números.
Esta opinião é pessoal e daí que seja merecedora de respeito.
Sem imagem de perfil

De balio a 30.09.2021 às 16:11


se Moedas não executar políticas mais liberais, mantendo o essencial do monstro burocrático que é a Câmara de Lisboa


Mas como poderá Moedas executar políticas mais liberais? Ele não tem maioria na Câmara. Vai ter que negociar, presumivelmente com o PCP. Políticas liberais não poderão caber nessa negociação. Ademais, dentro da sua própria coligação, Moedas não tem poder absoluto.

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Maria Neves

    Olá.Obrigada pela partilha.Boa semanaMaria

  • jo

    Não deixa de ser irónico que uma organização de ho...

  • Hugo

    Muito obrigado Henrique.

  • zazie

    Não me surpreendeu tanto como ao JT em virtude do ...

  • Anonimo

    Realmente, fazia falta aqueles regimes da foice e...


Links

Muito nossos

  •  
  • Outros blogs

  •  
  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2021
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2020
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2019
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2018
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2017
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2016
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2015
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2014
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2013
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2012
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2011
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2010
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2009
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2008
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2007
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D
    209. 2006
    210. J
    211. F
    212. M
    213. A
    214. M
    215. J
    216. J
    217. A
    218. S
    219. O
    220. N
    221. D