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Cansaço

por henrique pereira dos santos, em 13.08.25

Custa-me porque na verdade as pessoas que me contactam e fazem os convites não têm culpa nenhuma, o problema é mesmo a opção editorial (e de gestão do negócio, é de facto muito barato preencher horas de televisão com imagens espectaculares de fogos).

Por outro lado, ao contrário do costume (dias razoáveis e pouco dias catastróficos) este ano os dias complicados, mas não catastróficos, têm-se prolongado continuamente no tempo, o que vai esgotando a capacidade de produzir qualquer coisa que não seja a repetição do dia anterior, substituindo o sítio de onde se faz a reportagem por outro igual (e entra agora alguma instabilidade meteorológica que, pelo que vou lendo de quem sabe, pode ser bastante perigosa).

Não gostei das minhas últimas intervenções a convite de televisões, com pouco tempo para responder a perguntas muito fechadas e fortemente influenciadas pelos preconceitos sobre o fogo, sem contexto e tempo para respostas calmas e didácticas (gaba-te cesta).

Influenciado por isso, já hoje fui dando umas respostas por escrito ou de viva voz, que me incomodam por ser a pessoas que estão a fazer o seu trabalho o melhor que sabem (e sempre de enorme simpatia), quando os verdadeiros destinatários deveriam ser as pessoas que definem a orientação geral seguida na cobertura dos fogos.

"Agradeço o convite, mas como não se cansam de dizer, é tudo fogo posto, não se consegue chegar aos fogos, portanto só os meios aéreos é que podem fazer alguma coisa, o vento é imprevisível e estão não sei quantas viaturas e não sei quantos homens posicionados para resolver o problema que até estava calmo a meio da manhã mas que, não se sabe porquê, se agravou por volta do fim da manhã, princípio da tarde, como todos os outros dias anteriores. Qual é o interesse de no meio disto que é repetido sistematicamente, horas seguidas com chamas como pano de fundo, convidar alguém durante cinco minutos para fazerem umas perguntas em que toda esta sabedoria está implícita sem darem tempo para que se possa explicar que tudo isto que os vossos repórteres e pivots andam a dizer são asneiras?"

Mas como o trabalho das pessoas que me contactam é convencer-me a ir a um determinado sítio a uma determinada hora, simpaticamente, e esquecendo a evidente falta de simpatia da primeira resposta, insistem, como manda a boa prática profissional (houve uma pessoa que me convenceu, mas de repente reparei a que horas era e eu não queria condicionar essa parte do dia a terceiros).

"Compreendo a insistência, e até agradeço no sentido em que revela interesse em que eu vá, mais uma vez, fazer o papel que tenho vindo a fazer, mas não vejo grande utilidade nisso, ponham mais um repórter que nunca leu o Piroceno do Stephen J. Pyne a dar opiniões sobre um fogo qualquer, entrevistando autarcas em campanha eleitoral que não percebem nada do assunto e pessoas aflitas com a situação, que o circo fica montado na mesma. Peço desculpa por não estar a dar as respostas mais simpáticas do mundo, mas francamente, a indigência intelectual da cobertura mediática dos fogos está a deixar-me à beira de um ataque de nervos, como as mulheres do Almodovar."

Claro que passado algum tempo arrependo-me destas respostas antipáticas, ligo cinco minutos um canal de notícias e, milagre, as respostas passam a parecer-me moderadíssimas.


12 comentários

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De Fernando a 13.08.2025 às 16:14

Não tenho legitimidade para o criticar, mas lamento, porque assim ficamos limitados aos Nunes desta vida (e similares) que a cada 5 minutos galgam nos seus interesses, que não são os interesses do país e dos que nele vivem
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De Nuno a 13.08.2025 às 16:39

Caro Henrique Pereira dos Santos,


Não se arrependa, as respostas são as merecidas.
Nem de propósito, lá arde de novo em Arganil, mato, uma serra que não tem árvores e gente há muito, que arderá cada vez mais depressa por isso mesmo. Sem eucaliptos, com poucos pinheiros e arde, vejam bem, que mistério!
Só se espera que agora não chova, para que, pelo menos, a terra se mantenha.
Cumprimentos.
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De Anónimo a 14.08.2025 às 10:53

Se o que arde é mato, deixa arder. Nada de valor se perde.
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De Manuel a 13.08.2025 às 17:18


Henrique Pereira dos Santos 


Não se arrependa, por mim acho que pregar no deserto é tempo perdido e além disso quantos têm pachorra ainda para ver esse horror das reportagens sobre os incêndios?
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De Fernando a 13.08.2025 às 18:30

Creio que ainda muitos as vêem, e depois temos os políticos a decidir coisas porque acham que devem atender ao clamor que passa nas televisões. A senhora a quem ardem os pitos, o autarca que tem responsabilidades mas externaliza tudo em direto na tv, os corporativistas que prometem um futuro melhor se forem eles a mandar em tudo... tudo isto cresce no vazio deixado por um comentário inteligente como o do Henrique, se sair do espaço público 
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De Manuel a 14.08.2025 às 13:52

Não vejo qualquer vantagem de pessoas sérias credíveis com pontos de vista válidos perderam tempo a credenciar reportagens horríveis e intermináveis dos fogos do dia,  que se repetem dia após dia ano após ano e que são concebidas com a principal finalidade de ocupar o tempo de emissão com custos muito reduzidos em vez de informação séria e util.
Já o mesmo não direi da participação em programas de debate com peritos que tenham experiência e conhecimento sobre a matéria dos fogos. 



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De Filipe Costa a 13.08.2025 às 18:24

Ainda hoje na CMTV a Tânia Laranjo ocupa horas em directos porque se escondeu dentro de uma casa com o reporter de imagem para fugir ao fogo. Parece uma cloaca a contar os pormenores e o diabo a 4.
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De Carneiro a 14.08.2025 às 00:09

Compreendo perfeitamente.


 Neste pais e com esta comunicação social é sempre a mesma coisa: só ser escarafuncha e espreme o espetáculo, o drama ou a emoção, seleccionam os comentadores/especialistas/figurantes que dão corpo à narrativa e o preconceito que importa manter. Um asco!


É e será sempre uma desilusão para qualquer um que pretenda soluções/respostas construtivas. Afinal em tudo isto apenas parece importar explorar, entreter e colher vantagem.
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De Raposo a 14.08.2025 às 11:51

O caso é mais grave. É preciso compreender que todo o dispositivo à volta do fogo, é comandado de Lisboa. Centro da bolha mediática. Onde tudo se decide por influências.
Por isso, não poucas vezes, mandam-se aviões deitar água em situações em que isso não tem sentido — fogo demasiado intenso, em que a temperatura gerada e as correntes ascendentes são tais, que a água evapora no ar; fogos em vales muito encaixados onde os aviões não conseguem baixar o suficiente para a água chegar ao solo —, põe-se os bombeiros a deitar água onde as chamas são mais intensas, muitas vezes sem bens ou pessoas por perto que justifique tal risco; manda-se a GNR evacuar a torto e a direito; manda-se a GNR encontrar incendiários, nem que para isso tenha de constituir arguidos em tudo o que mexe na "floresta" (mais as multas por simplesmente pôr um pé fora de uma estrada alcatroada aí pelos montes)...
Toda esta loucura, porque os idiotas dos jornalistas fazem de tudo isto um espectáculo de gritaria, drama  acusações da mais variada ordem, à mistura com as já gastas frases do "nunca se viu desde ...", "é preciso recuar a ...", "desde que há registos (calor) ...".
Tudo, tudo, em prol do espectáculo mediático. 
Sim. É um cansaço. E nunca sairemos disto.
Mas, caro HPS, não desista. Continue, os seus posts são um verdadeiro serviço público. 
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De VSR a 14.08.2025 às 15:26


Caro H. Pereira dos Santos,

Continue! Continue esse trabalho essencial de informação, de identificação das pessoas que realmente trabalham e compreendem o combate e a prevenção de incêndios. Continue!

Hoje, na Rádio Observador, a sua intervenção — e a dos convidados que sugeriu — despertou consciências. Alertei algumas pessoas para ouvirem o programa, e todas, rigorosamente todas, me enviaram mensagens. Agradeceram e perguntaram: "Se há quem sabe, porque não se faz?" 

Poucos de cada vez… talvez, chegue a muitos.

E lembre-se: a verdade raramente é simpática. 

Obrigado. E continue

VSR
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De Francisco Almeida a 14.08.2025 às 16:43

Não vou comentar mas arriscar uma pergunta. Se não me falha a memória o  HPS previa nova catástrofe por 2030. Mas, parecendo que este ano a área ardida já excede o que seria de esperar, pode ao menos o futuro de 2030 ter ficado mais aliviado?
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De Anónimo a 14.08.2025 às 20:33

O senhor faz verdadeiro Serviço Público.
Bem Haja...e , por favor, não "atire a toalha".
Juromenha

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