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Cães, gatos e toiros

por henrique pereira dos santos, em 07.06.21

Como seria de esperar, o post em que falava de uma carta contra a transmissão de touradas pela televisão pública - a minha tese era a de que independentemente da questão de fundo sobre as touradas, era errada a ideia de tentar condicionar conteúdos de um orgão de informação com base nos valores da maioria - deu origem a algumas discussões paralelas sobre touradas, incluindo o argumento recorrente dos valores civilizacionais indiscutíveis numa sociedade moderna.

Não há valores civilizacionais indiscutíveis, nem escravatura, nem opressões várias, nem sequer a vida, que é discutida em dezenas de julgamentos, exactamente porque matar é aceitável em algumas circunstâncias, para além de não ser socialmente consensual que momentos biológicos delimitam a vida como valor civilizacional indiscutível.

Vou deixar de lado as questões relacionadas com o lastro de cultura que todos carregamos, e que tornam os cultos relacionados com os touros e a fertilidade uma constante histórica entre as costas da África do Norte e a Europa do Sul e a Índia, tal vou deixar de lado o sistema de produção de touros de lide como instrumento de conservação da natureza e gestão sustentável do território.

Interessa-me aqui aceitar integralmente os argumentos relacionados com a forma como tratamos os animais e, partindo dessa ideia, discutir a vida dos touros de lide, comparando-a com a vida dos cães e gatos urbanos, pondo em destaque a duplicidade de critérios que usamos para condenar moralmente diferentes actividades.

Um touro de lide é um animal de vive qualquer coisa como quatro anos, em quase liberdade (sim, tem cercas, mas são muito, muito amplas), com respeito completo pela sua natureza intrínseca, sendo dono das suas acções em matéria de alimentação, reprodução e interacção social.

A larga maioria dos cães e gatos urbanos vivem totalmente condicionados, no espaço, na alimentação, na reprodução - que frequentemente inclui a esterilização - e interacção social, pela vontade e circunstâncias do dono, incluindo o condicionamento de necessidades fisiológicas básicas que ficam sujeitas às opções do dono ou actividades como ladrar, que são condicionadas pela educação do animal.

O respeito pela natureza intrínseca destes animais é bastante limitado, eles são, por natureza, extensões dos donos, que os tratam melhor ou pior, com mais ou menos atenção à sua natureza, mas são inegavelmente extensões dos seus donos.

Por isso são recompensados com uma morte lenta e medicalizada, tão isenta de sofrimento quanto possível, ou são eutanasiados, quando os donos entendem que não faz sentido prolongar a sua vida (evito sequer falar dos milhares de donos irresponsáveis que os tratam como brinquedos que se abandonam quando se gastam nessa função).

Pelo contrário, o touro de lide paga quatro anos de vida principesca e livre com uma tarde de lide.

Resumindo, é razoável discutir se nós - sim, nós, não os toiros, não os animais - deveremos ou não aceitar fazer espetáculos públicos que, para muitos, ferem a sua sensibilidade. Pessoalmente impressiona-me mais o esforço sobre-humano a que sujeitamos os ciclistas, e muitos outros atletas de alta competição, para já não falar do boxe, que uma tourada - que não frequento, apesar do esforço de associações como a Animal e partidos como o PAN em me empurrar para as touradas como forma de me defender do seu ataque às liberdades públicas -, mas compreendo as dificuldades sentidas na forma como nessa tarde tratamos o touro, tenho sobre isso sentimentos ambivalentes.

Agora se queremos discutir o respeito pela natureza intrínseca dos animais, tenham paciência, é muito mais lógico defender a proibição de detenção de animais domésticos com excepções bem definidas, que proibir touradas: a falta de respeito pela natureza intrínseca dos animais é incomparavelmente maior na generalidade dos cães e gatos urbanos que em todo o ciclo de vida associado às touradas.


41 comentários

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De Anónimo a 07.06.2021 às 19:10

Tendo a concordar consigo. Na verdade, quando este partido se apresentou, inicialmente a sigla PAN significava exactamente Partido dos Animais e Natureza. Só. Com um programa a condizer.  As suas concepções animalistas (assustadoramente) radicais eram uma novidade bastante estranha ao ouvido dos portugueses e em consequência disso não houve grande adesão. Percebendo que acabariam liminarmente rejeitados pelo eleitorado, muito convenientemente, fizeram pela vida... e eis que souberam virar-se para donde sopravam melhores ventos. E assim se fez a história, agora é que sim : Pessoas Animais Natureza !!! Todos juntos, em harmonia e mais unidos. Se viverão felizes para sempre, isso é que eu já não sei... 


Mas depois _ não sei porquê _  sempre achei que ficou um gato escondido com o rabo de fora...


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