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Bons planos

por henrique pereira dos santos, em 18.08.22

Aurora Carapinha, primeiro minha colega, depois minha professora, fez um comentário sobre a serra da Estrela que transcrevo parcialmente:

"Estrela, a serra, que arde.
Tudo estava lá: a serra ,a sua orografia, a seca severa, as alterações climáticas,o abandono rural. Tudo estava lá.
O que é que lá não estava?
Não estava lá um conjunto de medidas que estão definidas em vários estudos , que foram desenvolvidos ao longo de vários anos ,sobre gestão florestal, abandono rural, alterações climáticas mas que não são implementadas e são guardadas em gavetas dos vários ministérios porque parece que basta fazer os estudos ( fazendo lembrar Umberto Eco quando afirmava que se confundia tirar fotocópias de um livro com ler o livro) .
A Estrela arde ... e já falam novamente em produzir mais estudos ( não sei se haverá tanta gaveta para tanto estudo) .
Haverá , talvez, estudos em falta ,mas talvez fosse bom começarmos a implementar as medidas dos vários estudos que se têm desenvolvido ao longo de muitos e muitos anos. Haja vontade política para as implementar.
Não as implementar isso sim é negligência."

Por coincidência, Franciso Rego (com quem fiz um ou outro trabalho e que conheço pessoalmente há anos), na mesma altura, a propósito da intenção de avaliação do fogo da Estrela (e, já agora, de todos os maiores), diz em entrevistas esta semana que há um conjunto de coisas propostas pela comissão a que presidiu, que não foram aplicadas por isto ou aquilo, sendo o problema a falta de vontade em aplicar o proposto.

Os dois, e não são os únicos, repetem um velho mito: temos planos muito bons para gerir a paisagem, mas alguém, por razões obscuras, não os quer aplicar, do que resultam os péssimos resultados que são relevantes na altura (podem ser os fogos, podem ser as cheias, pode ser a qualidade estética, pode ser a expansão das monoculturas, o despovoamento, a perda de solo, enfim, o que se escolher na altura como péssimo, resulta do facto de alguém não aplicar os excelentes planos e propostas que existem).

Sempre que ouço este argumento lembro-me de duas pessoas: Ilídio de Araújo e Carl Steinitz.

O primeiro, porque há muitos anos escreveu que o mais relevante de um plano é o que sobraria se no dia da sua apresentação um mafarrico qualquer queimasse todos os seus elementos materiais.

O segundo porque passou o tempo todo das aulas que tive com ele para o meu doutoramento a afirmar que "a boa tese é aquela que está acabada".

Eu tendo a dizer que aos planos se aplica o mesmo critério de avaliação: o bom plano é o que é aplicado, a generalidade dos que não são aplicados não sofrem nenhuma perseguição, são simplesmente maus porque são inaplicáveis.

O plano serve a gestão, se a gestão não aplica o plano é, frequentemente, porque quem fez o plano achou que a sua missão era definir a gestão e não servir os propósitos da gestão.

Para não sair dos fogos e das soluções que têm andado na berra, posso dar o exemplo de uma proposta de plano (ainda em fases preliminares, não acredito que as suas propostas finais sejam essas, mas serão outras influenciadas por estas ideias) que pretendia transformar a paisagem de um concelho reduzindo a área de pinheiro e eucalipto de mais de 70% da área do concelho para menos de 10%, sem explicar como, com que pessoas, com que recursos, servido porque economia, dando resposta a que aspirações de vida das pessoas e com base na ideia mágica de que, fazendo isto, ficava resolvido o problema dos fogos.

É verdade que a generalidade dos planos e das propostas que existem não chegam a este extremo de desfasamento em relação à realidade, mas o seu distanciamento em relação ao quotidiano concreto, das pessoas concretas, a que a gestão tem de dar respostas concretas, é mais que suficiente para o seu destino habitual: a gaveta.

Não se pense que isto resulta de haver algumas pessoas que vivem nas nuvens, mesmo estratégias longamente trabalhadas por centenas de pessoas, por vezes aprovadas por unanimidade ou esmagadora maioria na Assembleia da República, como a estratégia para as florestas, da conservação da natureza, a lei de bases do ambiente, têm o mesmo destino: não há governo (e parlamento, e sociedade) que consiga executar o que lá está previsto (como a estratégia nacional de defesa da floresta contra incêndios, para dar outro exemplo dentro do mesmo tema base).

Porque as pessoas são más, porque há interesses obscuros, porque o povo é ignaro?

Não, claro que não, é simplesmente porque em todo o processo (o tal que Ilídio de Araújo considerava realmente relevante, mais que as peças materiais dos planos), as pessoas concretas, as suas vidas, o seu quotidiano, o que fazem para ter pão na mesa e as suas aspirações, foram subvalorizadas e, por isso, resultaram em planos que não são úteis para ninguém.



8 comentários

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De Carlos Sousa a 18.08.2022 às 14:30

Será que alguns desses estudos contemplam a criminalidade?
Será que alguns desses estudos contemplam o show mediático de abertura de telejornais?
Será que alguns desses estudos contemplam a revisão de sanções e identificação de incendiários?
Será que alguns desses estudos contemplam todos os envolvidos no negócio do fogo nomeadamente; madeireiros, bombeiros, aviões, construção civil e outros?
Podem fazer centenas de estudos mas enquanto não resolverem a criminalidade dos fogos bem os podem deixar na gaveta.
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De henrique pereira dos santos a 18.08.2022 às 14:56

Não há nenhuma questão com os incendiários, são irrelevantes (ou quase), neste assunto
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De Carlos Sousa a 18.08.2022 às 15:14

Infelizmente essa é a ideia dominante.
Até podem pôr um bombeiro em cada árvore, mas enquanto não descobrirem qual é a motivação dos fogos, é para esquecer.
Eu não acredito em fogos de matéria verde e principalmente quando deflagram às três da manhã. 
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De henrique pereira dos santos a 18.08.2022 às 16:38

Falar de matéria verde com combustíveis com humidades de 3 ou 4% é um bocadinho estranho
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De Carlos Sousa a 18.08.2022 às 17:43

Pois realmente é estranho, mas ainda mais estranho é só começar a arder às três da manhã. A não ser que o triângulo do fogo só funcione à noite.
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De Anonimo a 19.08.2022 às 10:07


Se os fogos se iniciam às 3 manhã, porquê os políticos e dirigentes centram o discurso nos agricultores que lançam fagulhas com maquinaria por falta de zelo, na beata atirada do carro e na sardinhada no meio do mato?
É a essa hora que as coisas acontecem?
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De Anonimo a 18.08.2022 às 15:21


Como se diz, está tudo bem no papel. Infelizmente pouco ou nada sai do papel.
Aeroportos, gestões florestais, planos económicos, ferrovias.
Verdade seja dita, quanto ao assunto em particular, não está nas prioridades do Governo (ainda ontem o mostraram). Nem de qualquer um dos partidos, não me recordo de algum dos presentes a debates aquando das legislativas falar de demografia, floresta, ou sequer seca. Muita prisão perpétua, alguns bois com velcro nas bandarilhas, uns pozinhos de irs para aqui e ali, mas foi só.
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De Anonimo a 19.08.2022 às 13:34

40 anos de Baldricks

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