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Boatos

por henrique pereira dos santos, em 23.10.18

Não paro de me espantar com o facto de tanta gente descobrir agora que os boatos são um instrumento de combate político.

Não recuando a 1314, quando Jacques de Molay foi queimado por Filipe, o Belo, com base em boatos, posso exemplificar com esta magnífica capa do Público, no auge da contestação ao Governo de Passos Coelho, anunciando o decréscimo do PIB de 5,3 para o ano de 2013 (na realidade foi de 1,13%) com base numas contas malucas e completamente absurdas.

publico pib 2013.jpg

Também poderia usar a altura em que os jornais anunciavam que Bruxelas estava já a negociar um segundo resgate a Portugal e Catarina Martins garantia que o governo negociou às escondidas um segundo programa de resgate, por volta de 2013 como  exemplos da utilização de boatos (agora pomposamente chamados fake news) na luta política.

Mas prefiro usar, com autorização da autora, este texto, por ser mais neutro politicamente mas ilustrar muito bem como tendemos a achar que se for a favor de valoresa mais altos, estamos quase sempre dispostos a prescindir dos factos e do estudo para reafirmar as nossas convicções.

"É só para avisar que:
1 - não dei autorização para que o meu nome constasse de uma providência cautelar contra as dragagens na barra e canal Norte (e não no estuário como andam a fazer crer) do porto de Setúbal;
2 - não tenho nada contra estas dragagens que não correspondem a criar um canal novo (nem um porto) dado que canal e porto já existem há bastantes anos e têm bastante importância económica, e inclusivamente acho que são necessárias, até por questões de segurança, tão necessárias que quando foi estabelecido o Parque Marinho e no Plano de Ordenamento do Parque são tidas em conta;
3 - não é verdade que as dragagens afectem as praias do Portinho, a areia que saiu das praias está na baía do portinho e numa zona entre a pedra da Anicha e a restinga da Figueirinha (informação que me deu o Clube da Arrábida e que resulta de um estudo feito pela DGEG);
4 - tenho em muito boa conta os conhecimentos técnicos da equipa que estudou os impactes sobre os golfinhos e que irá acompanhar a execução das dragagens (e não é por um dos membros dessa equipa ser meu primo direito, é mesmo porque anda a estudar os golfinhos do Sado há mas de 30 anos);
5 - há uns anos (1998/1999) coordenei um estudo que analisou várias possibilidades de desenvolvimento do porto de Setúbal e que previa dragagens superiores às que estão agora previstas sem que tivessem sido detectados impactes significativos sobre as praias e sobre os golfinhos (e outros), até porque o estudo não tendo um AIA formal analisou os impactes dos vários cenários de desenvolvimento;
6 - não vou discutir o assunto aqui, poderei dar elementos a quem quiser e participar num debate sobre o assunto se acharem que é útil e por conseguinte apagarei todos os comentários que considerar como desinformação, até porque cada vez tenho menos paciência para manipulação de informação e a propósito acrescento que o projecto foi sujeito a AIA (que teve uma consulta pública em que quem tivesse alguma coisa a dizer deveria ter participado) e cujo processo está aqui http://siaia.apambiente.pt/AIA1.aspx?ID=2942, com informação bastante detalhada sobre o assunto."

Que a generalidade do movimento ambientalista (de que aliás faço parte, embora uma parte minoritária) deixou há muito de se fundamentar no pensamento científico para abraçar ferverosamente o pensamento mágico e as teorias de conspiração (a religião anti-eucalipto, que nenhum dos investigadores que conheço e que estudaram o assunto subscrevem, sem que isso cause a menor perturbação no movimento anbientalista, é um bom exemplo), é um dado conhecido e adquirido.

Que as empresas, neste caso turísticas associadas ao estuário do sado, prefiram deixar de lado a fundamentação das posições que apoiam por razões de comunicação, é mais preocupante.

Que a generalidade da imprensa desistiu de avaliar os factos para transmitir posições, é também bastante comum.

Não admira que, ao fim de algum tempo com toda a gente a aceitar mentiretas e pequenas ou grandes manipulações em troca da defesa de valores maiores e das boas causas que apoiamos, acabe por irromper alguém que usa o mesmo método para se evidenciar politicamente.

Como terá dito Madeleine Albright (citação em terceira mão, não verificada): ""O fascismo cresce onde as pessoas são convencidas de que toda a gente mente".

E neste tempo são aos milhões as pessoas que aceitam facilmente mentiras ou aderem a causas sem verificar factos ou estudar os assuntos, contribuindo para este ambiente malsão em que todos achamos que todos mentem.



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