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Boa-fé

por Corta-fitas, em 27.03.17

Dijsselbloem14.jpg

Muita alma por este país se ofendeu com as declarações do Sr. Dijsselbloem. Pois eu achei-as bem-vindas. Acontece que, para variar, desde 2011 que o argumento não anda a surtir o efeito desejado, e, como tal, o esgotamento da paciência de quem é de boas contas utilizou agora a metáfora como método. Felizmente esta chegou de uma forma directa e incisiva, não fosse o ilusionista invocar uma qualquer dificuldade de interpretação para fugir ao assunto. Embora a espuma do acontecimento ainda não permita bem digerir o que está em causa, a verdade é que em algum ponto não muito distante a infantilidade reinante nalguns países vai ter de ser posta à prova. E o que está em causa é ver quem fica e quem sai da zona euro.

A zona euro é uma parada muito alta e exige aos seus aderentes um comportamento nórdico. O euro não foi criado para servir os propósitos dos países do sul em atingir o nível de vida dos países do norte por via da ilusão à boleia da falsificação de contas, e à custa de viver pendurado nos outros por via de perdões de dívida. O euro foi criado com o objectivo de aprofundar a EU e de criar laços fortes entre os seus constituintes. Convém ainda reter que o Euro não tem o propósito de ser utilizado como arma concorrencial para satisfazer os dislates e as estroinices de povos menos ajuizados.

Como num casamento, os países também se vão conhecendo com o tempo. E também como num casamento existem altos e baixos. Os consecutivos resgates e programas foram uma boa resposta à crise conjugal do Euro, provando que o norte se solidarizou bem com o sul. Compete ao sul cuidar-se e aproveitar a ajuda, tomando a si a responsabilidade de fazer o que lhe compete para merecer confiança no futuro. O caminho pode ser mais ou menos sinuoso e apresentar mais ou menos dificuldades inesperadas. Mas nada que a persistência e a boa conduta não possa vencer.

Algum tempo passou, e nesta fase é crucial perceber bem que existe um ponto fundamental que se não for cumprido tem a ruptura como resultado final. Esse ponto chama-se: boa-fé. Ou percebemos e interiorizamos isto, e depois agimos em conformidade, ou então o resultado e o todo o processo serão muito penosos.

Muitos julgaram que o Euro seria um instrumento formal e eterno de uns viverem pendurados nos outros, um verdadeiro idílio para o socialista meridional. Esqueceram-se que os parceiros com quem corremos na pista andam muitos avisados, conhecem-nos melhor do que imaginamos, e sabem muito bem distinguir quem necessita de solidariedade e quem quer viver pendurado. Por outras palavras, topam-nos à distância.

Mas muito mais do que esquerda e direita, o que está em causa nesta matéria é distinguir de entre todos aqueles que julgam que viver à conta dos outros é um modo de vida e aqueles que entendem essa postura como perversa e contrária ao bom convívio entre os diferentes povos.

 

Pedro Bazaliza
Convidado Especial



8 comentários

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De JSP a 27.03.2017 às 15:10

Pura Pedagogia  -  e honesto bom-senso.
Cpmts.
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De slade a 27.03.2017 às 16:58

Que lição de vida!
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De Paulo Costa a 27.03.2017 às 20:38

Não poderia estar mais de acordo!!!
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De Nuno a 27.03.2017 às 21:25

Um país que representa uns 2% do Euro e causa para aí uns 20% dos problemas... Devíamos era estar agradecidos por nos deixarem pertencer ao Euro. 
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De PSC a 28.03.2017 às 11:33

Muito BOM!
Para divulgar. Sempre que for possível.
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De Isabel silva a 28.03.2017 às 15:42

Não estou nada de acordo com o que diz embora, pelo que li hoje dos seus blogs, concorde com muitas das suas posições. Vou tentar dar um resumo das minhas razões:
1- quem passa o tempo a criticar os outros por fazerem amálgamas quando se referem à origem do terrorismo não podem fazer o mesmo quando falam dos europeus do sul; sobretudo quando
2- a alemanha e a França foram os primeiros a entrar em défices excessivos e não lhes aconteceu nada;
3- a Alemanha tem, desde a entrada em vigor do euro, superhavits da balança comercial e nunca cumpriu a sua obrigação, firmada no tratado de Maastrich, de investir parte dos excessos de tesouraria conseguidos;
4- a Alemanha dispõe de títulos de dívida pública dos outros países da UE em quantidade suficiente para manipular os juros da mesma como lhe convém e assim manipular também os governos que não seguem as suas ordens;
5- um belíssimo documentário apresentado em tempos no canal Arte, feito por um jornalista alemão, explica com factos e entrevistas a diversos responsáveis, entre os quais estava o ministro das finanças alemão, como os programas aplicados aos países do sul se destinaram, sobretudo, a salvar os grandes bancos alemães;
Dito isto, estou perfeitamente de acordo com aqueles que defendem a necessidade de equilibrar as contas públicas e criticam duramente as políticas que foram seguidas anteriormente à intervenção da troika. Mas tenho perfeita consciência de que, depois do mal feito, sem moeda própria ou investimento dos países que beneficiaram dos nossos défices, vamos levar décadas a conseguir uma vida decente para os portugueses. Porque, é preciso que se diga, aos superhavits de uns correspondem défices de outros e que quer a Alemanha quer a Europa  sempre souberam o que se passava na Grécia, em Portugal e em Espanha. Os bancos alemães, cheios de tesouraria, investiram nestes países sem olhar à viabilade dos projectos, exclusivamente com objectivo de obter melhores taxas de juro.
Só mais uma referencia que muitos desconhecem: a solidariedade entre países para que atingissem todos o mesmo nível de desenvolvimento e assim continuassem, princípio que constava do tratado de Roma, foi expressamente retirada do tratado de Maastricht por exigência da Alemanha com o acordo do mr. Mitterrand que achou que, com a imposição da moeda única, iria ficar na história como grande estadista! 
Finalmente, o meu espanto: como é que ainda não se começou a discutir a doença do sistema que permite que responsáveis por um país criem 3 falências do estado em menos de 35 anos. Algo está mal nesta república e ninguém parece dar por isso.
Se me leu, obrigada.
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De Pedro Bazaliza a 29.03.2017 às 23:00

Obrigado pelo seu comentário. Deixa-me dar-lhe o meu ponto de vista muito resumido aos pontos que descreveu.
1. Não misturo a questão do terrorismo com a questão dos défices dos países do sul. Ainda que se possa especular sobre uma pretensa sobranceria dos países do norte, que para ser franco considero ser um mito.
2. Os défices excessivos da Alemanha e França foram pontuais. E ao que sei ainda ninguém foi penalizado por isso.
3. É complicado lidar com o sucesso da Alemanha e como obedecer a uma norma que obrigaria literalmente estoirar dinheiro. Vai contra a natureza do alemão. Direi que é uma regra contra natura penalizar alguém pelo seu sucesso, por mais desmedido que ele seja.
4. Não estou a par dessa situação. Mas sei que só pode ser influenciado contra vontade própria quem se encontra endividado. Seguramente a Alemanha não manda em países excedentários ou pouco endividados. É da natureza das coisas.
5. Não sei em rigor se os programas serviram também, reforço o "também" e não acredito no "sobretudo", para ajudar os bancos alemães. Mas se foi o caso então fico satisfeito pelo facto.  Digo-o sem nenhum complexo. Um cenário win-win.
Não existe obrigatoriedade de investir num país só porque em dada altura se possuiu um stock elevado de dívida desse país ou se venderam muitos produtos para esse país. O investimento segue os bons projectos e ambientes favoráveis aos negócios. A Irlanda é um óptimo exemplo. Não entendo porque não nos inspiramos mais na Irlanda!!!!
Ainda bem que não está inscrito no tratado que temos de ter um mesmo nível de vida. Isso é contra a natureza das coisas. Aliás, se a Alemanha o impôs significa que a história demonstrou ter tido uma leitura sábia da realidade.
Completamente de acordo no que respeita à falta de análise sobre a psicose dos défices e dívidas em Portugal. De certa forma isso explica porque queremos sempre culpar os outros. E quem é o melhor alvo? A Alemanha, provavelmente o mais bem sucedido país europeu. Direi que existe uma grande dose de inveja relativamente ao sucesso económico da Alemanha. E a inveja não dá boa assistência à razão.
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De Pedro Bazaliza a 29.03.2017 às 23:10

Perdão, onde se lê "Deixa-me" deverá ler-se "Deixe-me"

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