Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Bárbara Reis, o resto da imprensa e o 24 de Abril

por henrique pereira dos santos, em 26.04.19

Bárbara Reis, do Público, anda muito preocupada com "os adolescentes baralhados sobre a ditadura de Salazar".

Fica escandalizada quando "fala-se de analfabetismo e respondem que Salazar fez escolas nas aldeias", por exemplo.

E então propõe-se "abanar" estes adolescentes citando cartas de amor escritas durante o salazarismo "Meu muito querido Mário, mais um domingo sem sol e sem ti".

O facto de Bárbara Reis preferir falar das vidas de dois proeminentes membros das classes dominantes e privilegiadas , como Mário Soares e Maria de Jesus Barroso, em detrimento da vida das pessoas comuns, para abanar adolescentes baralhados com o regime de Salazar é uma opção exótica, mas mais exótico é pretender fazê-lo repetindo tretas sobre a sociedade anterior ao 25 de Abril, como aliás boa parte da imprensa fez por estes dias.

Estou convencido de que só o facto dos jornalistas que escrevem as peças que li serem muito novos, e portanto 1974 ser anterior ao paleolítico para eles, os impede de perceber o ridículo de publicarem o que publicam quando há ainda tanta gente que estava lá, viu directamente, e portanto sabe perfeitamente que usar calças à boca de sino, por homens ou mulheres, era perfeitamente banal.

Na verdade a repetição das fantasias que habitualmente acontece nesta altura, assenta na recusa de consulta das fontes, uma estranha opção do jornalismo actual "O pronto-a-vestir impunha-se nas ruas e nas revistas de moda portuguesas. A moda unissexo começava a surgir. Tanto mulheres, como homens começaram a frequentar as mesmas lojas, usavam cabelos longos ou curtos, calças de ganga e de boca-de-sino, blusões de cabedal, adornos variados" (A Moda e as Modistas em Portugal durante o Estado Novo – As mudanças do pós-guerra (1945-1974)".

Que os números do analfabetismo em 1974 eram maus, isso é inquestionável, mas eram incomparavelmente melhores que os de 1926. Só durante o Estado Novo se atingiu a taxa de escolarização anterior ao Marquês de Pombal, cujas opções reduziram o número de alunos das escolas em 90%, estupidez repetida pela primeira república (de forma muito mais mitigada) ao expulsar os jesuítas e pela segunda vez destruir o melhor ensino do país, e de que este governo, de forma ainda muito mais mitigada, resolveu assumir-se como herdeiro ao acabar com contratos de associação que permitiam menos despesa para o contribuinte e melhor ensino para os utilizadores, outra vez com os argumentos anti-clericais, agora disfarçados. Dizer que o Estado Novo fez escolas em aldeias é uma tontice face ao esforço de escolarização feito, passando dos 15% para os quase 100% de escolarização em trinta anos, mais ou menos.

Citando Rui Ramos: "temos, por exemplo, as comparações ignorantes entre o Portugal de 1974 e o de hoje. Sim, hoje os portugueses vivem melhor do que em 1974. Mas em 1974, também viviam melhor do que em 1926. O 25 de Abril aconteceu num país que estava a passar por uma transformação social e económica que começara antes e que continuou depois. Antes de 1974, o país industrializava-se, o “Estado social” (já era assim que Marcello Caetano lhe chamava) expandia-se, o futuro SNS já tinha os seus alicerces, e pela primeira vez na história toda uma geração frequentava a escola. Portugal até já iniciara a integração europeia, com a adesão à EFTA em 1960 e o acordo comercial com a CEE de 1972. Reconhecer isto, porém, passa por crime de louvor à ditadura. Mas o que justifica uma democracia não é a prosperidade – é a liberdade".

Cara Bárbara Reis (e restante jornalismo militante) deixe-se de grandes explicações sobre a superioridade económica e social do pós 25 de Abril de 1974, o que é preciso é dizer uma coisa simples: o Estado Novo era um regime ilegítimo por haver Governo sem consentimento expresso de governados, é só isto e nada mais.

Se entra por comparações "ignorantes" (para citar Rui Ramos) o mais natural é que os adolescentes fiquem mais "abanados" em relação à confiança no que dizem os jornais que em relação ao regime anterior ao 25 de Abril.

A liberdade é um bem em si mesmo, não precisa que torturemos os dados sócio-económicos até que eles digam o que queremos que digam, e o 25 de Abril justifica-se simplesmente pela liberdade, o que já não é pouco.



31 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.04.2019 às 00:19

O que eu quiz mesmo dizer é que você não argumenta com factos porque o que lhe interessa é apenas fazer propaganda politica e ideológica em defesa de um dos piores sistemas totalitários modernos, o comunismo !
O "Estado Novo" salazarista tem muito por onde se pegue mas, em comparação com os regimes comunistas, foi uma brincadeira de crianças !... (de resto, muitos analistas e historiadores, sem negarem o seu carácter autoritário e repressivo, referiram-se a ele como sendo uma ditadura de "brandos costumes" !) 
Sem imagem de perfil

De Makiavel a 29.04.2019 às 12:57

Diga lá onde é que eu estou a "fazer propaganda política e ideológica em defesa de um dos piores sistemas totalitários modernos, o comunismo!"? Mostre lá uma frase que seja. Pois, não tem.
Quem está aqui a fazer propaganda política e ideológica é você, branqueando o que foi o estado novo. A estratégia já é conhecida: avançam-se com números da macro-economia simpáticos (porque partem de uma base tão miserável que qualquer cêntimo de crescimento corresponde a taxas de crescimento de vários dígitos), fala-se em brandos costumes do regime, desculpando assassinatos porque eram comunistas (parece que o estou a ouvir "um comunista bom é um comunista morto"), de caminho promove-se o mito do incorruptível e austero Salazar (como se a censura deixasse passar qualquer notícia sobre a promiscuidade entre os recursos públicos e privados) esquecendo o facto tão comesinho como ele ter caído da cadeira enquanto passava férias num edifício do estado. Olhe se fosse hoje, as manchetes que o CM não faria...
A narrativa está mais que montada.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.04.2019 às 20:48

Não é "uma frase", é a totalitade dos seus comentários : não diferem numa frase ou sequer palavra da conhecida K7 comunista sobre o "fascismo" e os heroicos comunistas e "democratas" que combateram e cairam pela "liberdade" !
Você não engana ninguém : não é só o rabo que fica de fora ... é tudo !...
Já agora, dentro da sua lógica pseudo-argumentativa, "diga lá", "uma frase que seja" onde é que eu estou a "branquear o que foi o estado novo", a "desculpar assassinatos porque eram comunistas", a "promover o mito do incorruptivel e austero Salazar", ou seja lá o que for ...
Eu não "branqueio" nem "desculpo" nada do que foi a ditadura salazarista - digo factos objectivos e lembro que, por má que esta tivesse sido, e foi, muitissimo pior foram e são os regimes que os comunistas, da altura e de agora (como o Makiavel), defendiam e defendem ainda hoje !    
Sem imagem de perfil

De Fernando SILVA a 29.04.2019 às 23:47

Anónimo acima = Fernando SILVA ("branqueador do Estado Novo" e "deculpabilizador de assassinatos de comunistas" !... ;) )
Sem imagem de perfil

De Makiavel a 30.04.2019 às 08:21

Mude de cassete que essa está gasta.
Já referiu Cuba e Venezuela? E a Coreia do Norte, esse perigo para a humanidade? Tenho direito ao cardápio todo da cassete...


"O "Estado Novo" salazarista tem muito por onde se pegue mas, em comparação com os regimes comunistas, foi uma brincadeira de crianças !"


Branco mais branco não há...




Sem imagem de perfil

De Fernando SILVA a 30.04.2019 às 15:18

Não referi porque todos sabemos que "branco mais branco não há..." : Cuba é um exemplo de democracia e liberdade, a Venezuela é um sucesso económico e social, a Coreia do Norte é um paraiso pacifico e inofensivo !...
A ditadura, a censura, os assassinatos de opositores, a miséria do povo, etc ... isso é o salazarismo, "negro mais negro não há..." !!
Sem imagem de perfil

De Makiavel a 01.05.2019 às 12:44

Não se pode criticar, abertamente e sem tibiezas, o salazarismo que não venha logo um troll perguntar "E Cuba? E a Venezuela? E a Coreia do Norte?".


Faz parte do branqueamento vir com esse discurso, tipo "o salazarismo até que nem era mau de todo se compararmos com (preencher a gosto).


Branco mais branco não há... mesmo.
Sem imagem de perfil

De Fernando SILVA a 01.05.2019 às 13:36

Já só faltava o ataque pessoal, o insulto ... Se eu sou "um troll" por estar a responder aos seus comentários ... você é o quê por estar a responder aos meus ?!... Eu sei que para alguns, e pelos vistos você é um deles, a liberdade de expressão da opinião é só para um lado, o deles !!...
Você "pode criticar, abertamente e sem tibiezas, o salazarismo" ...
Eu, tal como o Henrique Pereira dos Santos, também sou um critico do salazarismo, o que até se percebe nos meus comentários anteriores. Mais especificamente, como liberal, critico a ditadura, a repressão e a politica económica estatalista e intervencionista do salazarismo. Acha pouco ?!...
Mas eu também posso contestar aqueles que, como você, criticaram e criticam o salazarismo deturpando a realidade para assim melhor o apresentarem como tendo sido muito mais nefasto e tenebroso do que foi e para, deste modo, escamotearem e esconderem a circunstância de o fazerem em nome de uma ideologia e de um projecto politico, o comunista, que nunca teve nem tem nada a ver com a defesa da liberdade e da democracia e que, antes pelo contrário, produziu no mundo um sistema muito pior do que o que o salazarismo, tanto em matéria de liberdade como de resultados económicos e sociais.     
O primeiro a falar de Cuba, da Venezuela e da Coreia do Norte foi ... você !!
Mas fez muito bem : estes paises, que os criticos do salazarismo do seu género hoje defendem sem vergonha, são exemplos actuais de regimes comunistas que fizeram e são piores do que foi o salazarismo : assassinaram muitos mais opositores e produziram muito mais miséria (o salazarismo, embora insuficientemente, até reduziu a miséria) !   

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • AVS

    Inequivocamente a política está inserida no domíni...

  • balio

    o Rei é e um Presidente da República está. E nunca...

  • Júlio Sebastião

    O António José Seguro começou a dar aulas de mestr...

  • Anónimo

    Há sistemas baseados no voto que não são democráti...

  • Elvimonte

    Já dizia Eça: "Os partidos elegem-nos e nós votamo...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2020
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2019
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2018
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2017
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2016
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2015
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2014
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2013
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2012
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2011
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2010
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2009
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2008
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2007
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2006
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D