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"Banha da Cobra"

por João-Afonso Machado, em 10.10.14

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São as imagens mais nítidas no Canal Memória. Por muito variada que a Feira fosse, a cobra enroscada no pescoço do homenzinho engravatado – nesse tempo, os costumes não facilitavam… - e de voz roufenha, ampliada por um microfone envolto em trapos, fazendo lembrar vagamente, pelos seus apoios nos ombros, a harmónica do Bob Dylan, esse réptil temível, dizia, era, tão só o fascínio mor. Até porque, de dimensões medianas-menos, proporcionais às do domador, não fora apanhada aí em silvado qualquer, antes viera – por empréstimo? – dos insondáveis saberes de algum encantador asiático.

Garantem-me que as serpentes hipnotizam. Tal a sua mansidão, a sonolência do bicho, fiquei sempre na dúvida não seria ele, o ofídio, o hipnotizado. Se não por outrem, pelo frio, quantas vezes o S. Miguel não bulhava com um S. Pedro irado de chuvas e ventos. Ou então pela voz do homenzinho de queixo papudo e colarinhos sebentos, ainda e sempre engravatado (como mandavam os rígidos costumes desse tempo) – uma voz monocórdica, repetitiva, inesgotável, simplesmente duracel. E o que ela não anunciava!

Trazia consigo uma maleta carregada de pequenas caixas de pomada. Tipo graxa e talvez não apenas de aparência… Abria uma e passava nela os dedos ao de leve. Massajava os pulsos e ia descrevendo os seus predicados. Aquilo matava o reumatismo, as equimoses, o sarampo e a urticária, todas as alergias e a bronquite, as dores de dentes, as crises de fígado, as insónias e os males dos nervos; e obrava proezas amorosas a que a minha tenra idade não estava obrigada, e daí o sacão da Avó: - Pronto, vamos embora, já chega! - E eu, numa tristeza profunda – Só mais um bocadinho, Avó!... – Mas qual bocadinho!, o filme para nós terminava ali, num intervalo forçado e infinito porque a lembrança é mais forte e ele está aí, o homem baixinho e a sua cobra e a pomada milagrosa, hoje e há quatro décadas, sempre presente e palrador.

Mas a proverbial falta de sentido de humor do legislador arranjou, entretanto, mil e um expedientes para proibir e punir a aparição destes beneméritos nas nossas feiras. Mas não impediu eles fossem substituídos por outros de tamanha generosidade.

É claro, já ninguém quer saber de unguentos para os calos e o mau hálito. Agora é mais electrodomésticos e baterias de cozinha. Ou os telemóveis, por exemplo. E uma nova onda de inspirados invadiu romarias e feiras, dessas mais fornecidas de gente – como a de S. Miguel – já não de motoreta mas com todos os atavios empranchados numa camioneta.

- E não é pelo preço de três mas de dois que leva quatro! E para si, minha senhora, uma oferta! E ganha ainda esta saqueta mais… - Os microfones são desta feita muito potentes, o homem (já de outra estatura e corpulência) perora em cima da caixa, por trás de uma panóplia carregada de trastaria, e tem até uma partner! O progresso faz isto. O povo acumula-se em redor, ao princípio desconfiadamente, espreitando de soslaio quem toma a iniciativa. No auge do evento, tudo decorre como uma corrida aos saldos.

Facto curioso: paredes meias com a de este sofista, outra camioneta, igualmente transformada em montra, aguarda ordeiramente a sua vez, carregada de toalhões e edredons. E mal cessa a representação daqueloutra, irrompe o comício desta última. – Pelo preço de um só, minha senhora, acaba de comprar quatro conjuntos de lençóis de cama… - E mais uma fila se forma de interessados, longa como um dia todo de eleições sem absentismo.

Talvez porque esta seja, na realidade, a melhor escola de grupos parlamentares de sempre.

 

(Da crónica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 09.OUT.2014).




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