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Na entrada da semana 18, pareceu-me útil fazer um balanço visto que tenho admitido a hipótese de que André Dias (já agora, e muitos outros mais do que às vezes se pretende fazer crer) tenha razão em muito do que diz e, se assim for, o surto estaria a fechar na semana 19 do ano.
Essencialmente a tese é a de que há um padrão das doenças infecciosas pulmonares que consiste em duas ou três semanas de subida exponencial, um pico (ou planalto) e duas ou três semanas de descida até ao zero estatístico. Nesta hipótese o pico ocorre, de maneira geral, até à semana 12 do ano, e todos os surtos estão fechados na semana 19 do ano.
Associada a esta hipótese, mas autónoma, há a hipótese de que o impacto da covid-19 não será essencialmente diferente de um surto de gripe forte e, consequentemente, as medidas mais radicais adoptadas são uma reacção excessiva a um problema de saúde, que cria muito mais problemas sociais que os que resolve.
Ao contrário da caricatura que se faz desta tese, não se trata de dizer que é só uma gripezinha - a covid-19 é uma doença nova que não se confunde com a gripe em muitos aspectos - mas sim que o seu impacto na sociedade, se quisermos, o seu impacto epidemiológico, é semelhante ao de um surto forte de gripe.
Consequentemente, ninguém põe em causa a utilidade de medidas proporcionais de redução do impacto da doença nos serviços de saúde e, muito menos, a necessidade de protecção dos grupos de risco. O que está em causa não é a opção entre não fazer nada ou fechar países, o que está em causa é a discussão das medidas razoáveis, racionais e proporcionais de resposta a um surto epidémico sobre o qual se sabe menos do que seria necessário para decisões seguras, sendo necessário tomar medidas em contexto de incerteza.
O que eu (e outros) contestam é a ideia de que quaisquer medidas que pareçam ter resultados úteis para gerir o surto epidémico devem ser adoptadas sem consideração pelos seus efeitos sociais secundários.
Parece-me ser aqui que a discussão deve ser centrada.
Os dados mais objectivos que existem para fazer um balanço do que hoje sabemos são os dados da mortalidade global (ver aqui este artigo de Fernando Leal da Costa para perceber melhor a opção de base para este balanço).

O gráfico acima representa a mortalidade na Europa (nem todos os países europeus, na verdade, mas grosseiramente podemos dizer que é na Europa), em números absolutos, entre a primeira semana de 2016 e a semana 16 de 2020.
É claro o pico de mortalidade decorrente da Covid-19, é claro que esse pico é 20 a 25% maior que o pico da gripe de 2017 (mais ou menos 15 a 20 mil mortos a mais, na semana do pico, veremos no conjunto do surto o que isso representará no fim, já que o número de semanas que duram os surtos variam bastante). Ou seja, globalmente na Europa, a sobrecarga para os serviços de saúde será os 20 a 25% mais pessoas afectadas na doença, a que terá de se somar o facto da Covid-19 ter tempos de internamento bastante maiores que a maior parte das gripes. Dificilmente poderemos falar numa pressão maior que o dobro da gripe no pico do surto (longe, evidentemente, dos 25 para um calculados pelo modelo do Imperial College que influenciou grande parte da opinião pública e, consequentemente, dos decisores políticos).
Se fizermos um zoom para este ano (reparo agora que começa na semana 3, mas é irrelevante) temos umas percepção mais clara do pico da semana 14 (ou seja, duas semanas depois da hipótese inicial de que os picos ocorrem até à semana 12), uma descida suave na semana 15 e uma queda acentuada da mortalidade na semana 16. Confesso que antes de olhar para este boneco acharia que estaria fora de causa a mortalidade entrar no intervalo da mortalidade esperada na semana 19 (a que começa de hoje a oito dias), e ainda estou convencido de que as duas semanas de atraso do pico poderão atirar o fim do surto para as semanas 20 a 21, mas olhando para o gráfico não me parece impossível uma evolução nas semanas 17 e 18 incompatível com a entrada na mortalidade esperada na semana 19.
Visitar o site de onde tirei estes números é muito instrutivo, permite manipular os gráficos em função da informação que se pretende obter. Por exemplo, no primeiro boneco estão números absolutos da mortalidade, mas se se reparar, há um separador no canto superior direito que permite ver qual é a diferença, em percentagem, face à mortalidade esperada, o que acentua os picos dos surtos tardios, como este, porque a base da mortalidade esperada é já mais baixa que em Janeiro e Fevereiro. Este aspecto deve ser tido em conta quando se olha para os gráficos das mortalidades por países, que só são apresentados em relação à mortalidade esperada, o que faz com que, por exemplo, o gráfico do Reino Unido seja especialmente impressionante porque o seu pico parece ocorrer na semana 16 (falta confirmar a semana 17, naturalmente), ou seja, comparando com uma mortalidade base bastante mais baixa que a dos picos de Espanha e Itália.
Com os gráficos que começam a dar informação relevante sobre as curvas verificadas nos diferentes países (que não vou reproduzir aqui), relacionando-as com o tempo em que foram tomadas medidas, sobretudo o fecho das economias e o confinamento das pessoas, não é ainda possível saber o que influenciou ou não o andamento das curvas, sendo possível admitir que a curva teve o seu desenvolvimento natural, independentemente das intervenções, sendo também possível admitir, em alguns casos (há outros, como na Alemanha, em que as medidas mais radicais de 23 de Março são posteriores aos picos de contágio, portanto não podem ter influenciado esse pico, mas há outras medidas tomadas nas semanas anteriores) foram essas medidas de fizeram diminuir os contágios, havendo ainda a terceira hipótese de que as medidas, não tendo um papel fundamental na evolução, anteciparam a entrada no pico que iria acontecer por esses dias (o facto das descidas estarem a ser mais lentas que as subidas, arrastando a descida para mais que as duas ou três semanas esperadas, parece-me um indicador nesse sentido).
Claro que se agora, com o desconfinamento e a abertura da economia, voltar a haver novos surtos, a hipótese inicial que tenho admitido como base é posta em causa, se isso não acontecer, nenhuma das duas hipóteses fica invalidada e teremos de estudar mais para perceber melhor o que funcionou ou não.
A minha impressão mantém-se, para já: medidas como lavar as mãos, distanciamento social voluntário, reforço do teletrabalho, reforço da desinfecção de locais fechados de aglomerações de pessoas, restrição de grandes ajuntamentos em locais fechados, máscaras e etc., podem contribuir para gerir a epidemia sem grandes consequências sociais negativas, atingindo o principal objectivo pretendido: garantir a capacidade de resposta dos serviços de saúde.
Medidas de reforço da capacidade de resposta dos serviços de saúde com certeza são bem vindas.
Medidas mais radicais como fecho de escolas e locais de trabalho, tenho dúvidas que representem ganhos significativos para os danos sociais que causam.
Se tudo o que me parece (sentado aqui na minha posição de ignorante) estiver errado e as coisas forem como são descritas (não há sazonalidade, o risco é igual em Janeiro ou Agosto, não se pode contar com imunidade nenhuma, isto só para com medidas radicais ou quando atingir 60 a 70% da população, etc.), então as medidas radicais de supressão do surto são mais perigosas do que benéficas porque apenas adiam o momento em que o surto vai fugir do controlo (a Coreia do Sul e Singapura parecem apontar nesse sentido), com um custo social brutal noutros aspectos que não o estritamente sanitário.
“1) O que seria sem confinamento seria mais ou menos o mesmo, pelo que dizem os dados que existem;” 2.04. 2020
Se agora já fala em medidas proporcionais de redução do impacto da doença, parabéns.
Volto daqui a duas semanas para discutirmos as suas previsões e chegarmos a alguma conclusão quanto a quem perdeu "muito a face".
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