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Balanço provisório

por henrique pereira dos santos, em 26.04.20

Na entrada da semana 18, pareceu-me útil fazer um balanço visto que tenho admitido a hipótese de que André Dias (já agora, e muitos outros mais do que às vezes se pretende fazer crer) tenha razão em muito do que diz e, se assim for, o surto estaria a fechar na semana 19 do ano.

Essencialmente a tese é a de que há um padrão das doenças infecciosas pulmonares que consiste em duas ou três semanas de subida exponencial, um pico (ou planalto) e duas ou três semanas de descida até ao zero estatístico. Nesta hipótese o pico ocorre, de maneira geral, até à semana 12 do ano, e todos os surtos estão fechados na semana 19 do ano.

Associada a esta hipótese, mas autónoma, há a hipótese de que o impacto da covid-19 não será essencialmente diferente de um surto de gripe forte e, consequentemente, as medidas mais radicais adoptadas são uma reacção excessiva a um problema de saúde, que cria muito mais problemas sociais que os que resolve.

Ao contrário da caricatura que se faz desta tese, não se trata de dizer que é só uma gripezinha - a covid-19 é uma doença nova que não se confunde com a gripe em muitos aspectos - mas sim que o seu impacto na sociedade, se quisermos, o seu impacto epidemiológico, é semelhante ao de um surto forte de gripe.

Consequentemente, ninguém põe em causa a utilidade de medidas proporcionais de redução do impacto da doença nos serviços de saúde e, muito menos, a necessidade de protecção dos grupos de risco. O que está em causa não é a opção entre não fazer nada ou fechar países, o que está em causa é a discussão das medidas razoáveis, racionais e proporcionais de resposta a um surto epidémico sobre o qual se sabe menos do que seria necessário para decisões seguras, sendo necessário tomar medidas em contexto de incerteza.

O que eu (e outros) contestam é a ideia de que quaisquer medidas que pareçam ter resultados úteis para gerir o surto epidémico devem ser adoptadas sem consideração pelos seus efeitos sociais secundários.

Parece-me ser aqui que a discussão deve ser centrada.

Os dados mais objectivos que existem para fazer um balanço do que hoje sabemos são os dados da mortalidade global (ver aqui este artigo de Fernando Leal da Costa para perceber melhor a opção de base para este balanço).

semana 17.jpg

O gráfico acima representa a mortalidade na Europa (nem todos os países europeus, na verdade, mas grosseiramente podemos dizer que é na Europa), em números absolutos, entre a primeira semana de 2016 e a semana 16 de 2020.

É claro o pico de mortalidade decorrente da Covid-19, é claro que esse pico é 20 a 25% maior que o pico da gripe de 2017 (mais ou menos 15 a 20 mil mortos a mais, na semana do pico, veremos no conjunto do surto o que isso representará no fim, já que o número de semanas que duram os surtos variam bastante). Ou seja, globalmente na Europa, a sobrecarga para os serviços de saúde será os 20 a 25% mais pessoas afectadas na doença, a que terá de se somar o facto da Covid-19 ter tempos de internamento bastante maiores que a maior parte das gripes. Dificilmente poderemos falar numa pressão maior que o dobro da gripe no pico do surto (longe, evidentemente, dos 25 para um calculados pelo modelo do Imperial College que influenciou grande parte da opinião pública e, consequentemente, dos decisores políticos).

semana 17 2.jpgSe fizermos um zoom para este ano (reparo agora que começa na semana 3, mas é irrelevante) temos umas percepção mais clara do pico da semana 14 (ou seja, duas semanas depois da hipótese inicial de que os picos ocorrem até à semana 12), uma descida suave na semana 15 e uma queda acentuada da mortalidade na semana 16. Confesso que antes de olhar para este boneco acharia que estaria fora de causa a mortalidade entrar no intervalo da mortalidade esperada na semana 19 (a que começa de hoje a oito dias), e ainda estou convencido de que as duas semanas de atraso do pico poderão atirar o fim do surto para as semanas 20 a 21, mas olhando para o gráfico não me parece impossível uma evolução nas semanas 17 e 18 incompatível com a entrada na mortalidade esperada na semana 19.

Visitar o site de onde tirei estes números é muito instrutivo, permite manipular os gráficos em função da informação que se pretende obter. Por exemplo, no primeiro boneco estão números absolutos da mortalidade, mas se se reparar, há um separador no canto superior direito que permite ver qual é a diferença, em percentagem, face à mortalidade esperada, o que acentua os picos dos surtos tardios, como este, porque a base da mortalidade esperada é já mais baixa que em Janeiro e Fevereiro. Este aspecto deve ser tido em conta quando se olha para os gráficos das mortalidades por países, que só são apresentados em relação à mortalidade esperada, o que faz com que, por exemplo, o gráfico do Reino Unido seja especialmente impressionante porque o seu pico parece ocorrer na semana 16 (falta confirmar a semana 17, naturalmente), ou seja, comparando com uma mortalidade base bastante mais baixa que a dos picos de Espanha e Itália.

Com os gráficos que começam a dar informação relevante sobre as curvas verificadas nos diferentes países (que não vou reproduzir aqui), relacionando-as com o tempo em que foram tomadas medidas, sobretudo o fecho das economias e o confinamento das pessoas, não é ainda possível saber o que influenciou ou não o andamento das curvas, sendo possível admitir que a curva teve o seu desenvolvimento natural, independentemente das intervenções, sendo também possível admitir, em alguns casos (há outros, como na Alemanha, em que as medidas mais radicais de 23 de Março são posteriores aos picos de contágio, portanto não podem ter influenciado esse pico, mas há outras medidas tomadas nas semanas anteriores) foram essas medidas de fizeram diminuir os contágios, havendo ainda a terceira hipótese de que as medidas, não tendo um papel fundamental na evolução, anteciparam a entrada no pico que iria acontecer por esses dias (o facto das descidas estarem a ser mais lentas que as subidas, arrastando a descida para mais que as duas ou três semanas esperadas, parece-me um indicador nesse sentido).

Claro que se agora, com o desconfinamento e a abertura da economia, voltar a haver novos surtos, a hipótese inicial que tenho admitido como base é posta em causa, se isso não acontecer, nenhuma das duas hipóteses fica invalidada e teremos de estudar mais para perceber melhor o que funcionou ou não.

A minha impressão mantém-se, para já: medidas como lavar as mãos, distanciamento social voluntário, reforço do teletrabalho, reforço da desinfecção de locais fechados de aglomerações de pessoas, restrição de grandes ajuntamentos em locais fechados, máscaras e etc., podem contribuir para gerir a epidemia sem grandes consequências sociais negativas, atingindo o principal objectivo pretendido: garantir a capacidade de resposta dos serviços de saúde.

Medidas de reforço da capacidade de resposta dos serviços de saúde com certeza são bem vindas.

Medidas mais radicais como fecho de escolas e locais de trabalho, tenho dúvidas que representem ganhos significativos para os danos sociais que causam.

Se tudo o que me parece (sentado aqui na minha posição de ignorante) estiver errado e as coisas forem como são descritas (não há sazonalidade, o risco é igual em Janeiro ou Agosto, não se pode contar com imunidade nenhuma, isto só para com medidas radicais ou quando atingir 60 a 70% da população, etc.), então as medidas radicais de supressão do surto são mais perigosas do que benéficas porque apenas adiam o momento em que o surto vai fugir do controlo (a Coreia do Sul e Singapura parecem apontar nesse sentido), com um custo social brutal noutros aspectos que não o estritamente sanitário.


13 comentários

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De António Pires a 26.04.2020 às 11:34

Concordo com as suas dúvidas e preocupações.
Pelo que me toca, gostaria que alguém esclarecesse, numa linguagem para leigos, como é possível admitir que iremos atingir 60% de imunes se, neste momento, com os dados da DGS, o número acumulado de infectados é grosso modo 20 mil, numa população de 10 milhões, ou seja, 0,2%. Ou os números são outros, e não nos dizem.
Não posso deixar de ter uma sensação de que nos andam a enganar.
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De Eremita a 26.04.2020 às 11:53

"...ninguém põe em causa a utilidade de medidas proporcionais de redução do impacto da doença nos serviços de saúde e, muito menos, a necessidade de protecção dos grupos de risco."


Só se for agora que não põe em causa, pois a sua tese anterior era diametralmente oposta. Convém lembrá-lo.  


Quanto ao resto, não tenho tempo. 


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De henrique pereira dos santos a 26.04.2020 às 12:04


É pena não ter tempo, se o tivesse poderia dedicar-se a ler o que escrevi para trás e trazer aqui um único exemplo do que diz que eu disse antes.
A mim não me custa nada mudar de opinião, acontece que nesse aspecto em particular, digo o mesmo desde o princípio.
Mas como os seus comentários são sempre sobre mim, e pouco sobre o que escrevo, é natural que nunca tenha lido com atenção o que escrevo.
Boa Páscoa.
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De Eremita a 26.04.2020 às 12:24

O Henrique escreveu que não havia evidência nenhuma de que o confinamento teve um impacto na progressão da epidemia. É preciso perder tempo a ir buscar a citação? Se mantém essa opinião, percebi mal o que escreveu agora. Se não mantém, mudou de opinão e mais valia assumi-lo de uma vez, o que apenas fez de forma titubeante e logo inconsequente. Eu diria que lhe custa horrores mudar de opinão e que continua a ter uma relação difícil com a verdade.


Não escrevo sobre si. O HPS é interessantíssimo, mas não exagere. Escrevo sobre as suas manipulações. 


Quanto ao resto, não concordo nem discordo. Parece-me precipitado, mal preparado e com conclusões sem grande fundamento, como quase tudo o que tem escrito. Não creio que valha a pena discutir nada, a menos que tenha alguma pergunta concreta. Mas espero que tenha noção de que a partir do momento em que se recusa a responder às várias questões que lhe coloquei e não admite nenhum erro, limitando-se a abandonar a conversa com a desculpa de ter ficado com a honra ferida, qualquer chamada de atenção para eu reparar não sei no quê só pode ser uma piada. As perguntas estão lá para trás, mas ainda se deve lembrar de alguma.




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De henrique pereira dos santos a 26.04.2020 às 12:44

"...ninguém põe em causa a utilidade de medidas proporcionais de redução do impacto da doença nos serviços de saúde e, muito menos, a necessidade de protecção dos grupos de risco."

"O Henrique escreveu que não havia evidência nenhuma de que o confinamento teve um impacto na progressão da epidemia."
Q.E.D.
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De Eremita a 26.04.2020 às 13:55

O que o Henrique andou a defender durante mais de um mês foi isto:


“1) O que seria sem confinamento seria mais ou menos o mesmo, pelo que dizem os dados que existem;” 2.04. 2020


Se agora já fala em medidas proporcionais de redução do impacto da doença, parabéns. 


Volto daqui a duas semanas para discutirmos as suas previsões e chegarmos a alguma conclusão quanto a quem perdeu "muito a face". 


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De Eremita a 26.04.2020 às 12:02

É evidente que o número de seropositivos tem já de ser bem superior a 0,2%. No fim de Março, de acordo com uma estimativa, seria 2% e agora será forçosamente mais alto (6-15%, a julgar pelos valores medidos noutros países). Ninguém anda a enganar ninguém, apenas se sabe que as estatísticas dos testes de diagnóstico dependem do esforço e critérios de amostragem e serão sempre uma subestimativa do número de seropositivos porque estes testes apenas detectam infecções activas e a percentagem de assimptomáticos que não chegam sequer a ser testados é muito alta.
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De António Pires a 26.04.2020 às 12:19

Que o número real de infectados deve ser muito maior do que os que testam positivo, sei eu.
O que eu gostava de saber é como é que as "autoridades" estimam qual é esse valor real e qual é o valor. Mas esse discurso nunca aparece.
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De Eremita a 26.04.2020 às 14:18

O Ricardo Jorge está a começar ou já começou uma análise serológica da população; em breve teremos valores credíveis. 
https://www.publico.pt/2020/04/25/sociedade/noticia/dois-mil-portugueses-servem-testar-imunidade-populacao-350-sao-criancas-1913854
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De Anónimo a 26.04.2020 às 15:42


André sabe umas lascas de matemática e umas lascas de estatística. Nada sabe da Vida. Teórico apoiado por diplomas.

ao
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De Anónimo a 26.04.2020 às 15:50

Suponhamos que não tinha havido qualquer espécie de restrições/confinamento. Qual seria o sentido dos gráficos que este artigo explora? - https://www.economist.com/graphic-detail/2020/04/16/tracking-covid-19-excess-deaths-across-countries (https://www.economist.com/graphic-detail/2020/04/16/tracking-covid-19-excess-deaths-across-countries)
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De António Pires a 26.04.2020 às 19:38

Não descanso enquanto não encontro um sentido para os números. Os seus posts também ajudam, podia chamar-lhes posts do desassossego.
Consegui ajustar bastante bem uma curva de Gompertz aos valores do acumulado de infectados do mês de Abril. De acordo com essa curva, que descreve bastante bem a evolução do número de infectados numa epidemia, estimei, para o número real de infectados, o valor de 80 vezes o número de infectados que testaram positivamente.
Será assim? Se for, o ponto de inflexão dessa curva ter-se-á dado em 5 de Abril, o número real de infectados terá atingido 60% da população em 15 de Abril e 70% em 20 de Abril. Mas isto será válido para a parte da população que está em actividade (e que estimo seja 25% do total).
E quando se desconfinar? Tudo depende da estrutura epidemiológica da população a desconfinar (% de susceptíveis vs. % de imunes). E o que é determinante é o valor do número de casos por caso (o célebre R0) no início da epidemia, o qual foi o que foi e sobre o qual nada se pode fazer. O modelo numérico que construí diz-me que acima de dado valor de R0 tudo correrá bem e que abaixo desse valor poderá ser muito complicado. O modo mais ou menos lento como se desconfina apenas atenua ou agrava o que é determinado essencialmente por R0. O valor que encontrei para esse tal valor de R0 foi 2,8 (assumindo 14 dias em que um infectado pode infectar).
Modelos mais precisos nas mãos de especialistas poderão chegar a outro valor, mas duvido que cheguem a algo diferente de "acima de, bom / abaixo de, mau".
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De alopes a 26.04.2020 às 22:40

No Senegal, o Presidente da República disse que não seguiriam a política daa França, mas antes o protocolo "Didier Raoult", atacando o coronavírus ao primeiro sintoma.
O certo é que têm quase tantos infetados (escassas centenas) como curados e um número insignificante de mortos (8).
Ora não possível o confinamento nestes países.
Por outro  lado o Sec. Geral da ONU declara há mais de um mês que haveria milhões de mortos em África. Agora nada diz sobre tais declarações. Haverá uma razão para isto?

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