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Auto-retrato involuntário

por henrique pereira dos santos, em 08.12.16

"Uma manchete profética.

... o secretário-geral do PS achou que era preciso um ponto de ordem à mesa. Não queria que o acusassem, mais tarde, de ter mentido aos Portugueses. E também não queria que o seu PS lhe dissesse em determinado momento que ele os tinha enganado na estratégia que queria para o partido.

...

Costa não queria ser acusado de ter escondido totalmente o jogo. E nada melhor do que veicular na imprensa de referência parte da tática que tinha em mente.

Aproveitou o dia em que Luisa Meireles o acompanhou no carro entre uma iniciativa de campanha e o hotel onde ia dormir, para levantar a ponta do véu: o PS não viabilizaria um governo minoritário de direita. E mais: ele acreditava que se os Portugueses tirassem a maioria a Passos Coelho e Paulo Portas, o PS tinha então o caminho livre para formar governo, bastava para isso que os partidos à sua esquerda aceitassem entendimentos.

...

É hábil na arte da dissimulação e em nenhum momento podia deixar transparecer à experiente jornalista que, na sua cabeça, esses entendimentos tinham alta probabilidade de acontecer.

A 26 de Setembro de 2015, a manchete do Expresso era clara: "Costa chumba Governo de direita minoritário". Estava plantada a primeira semente da estratégia do futuro entendimento à esquerda. Mais tarde, o líder socialista voltaria muitas vezes a relembrar aquela primeira página, para responder a todos os que o acusaram de esconder o jogo...."

Reproduzo acima partes do livro "Como Costa montou a geringonça em 54 dias", um livro escrito por duas jornalistas que é muito interessante, não pelo que diz sobre a geringonça e Costa, mas pelo poderoso retrato que faz da imprensa.

No episódio que resumi acima, o relevante não é o facto de Costa enganar o eleitorado - isso é um dado do problema, só é enganado o eleitorado que quer ser enganado - nem mesmo a bizarria de se apresentar a dissimulação com uma qualidade e não um defeito de carácter.

Não tenho ilusões sobre o carácter imaculado da política nem faço juízos morais indignados sobre o famoso "roubo, mas faço", que na versão Costa se diria "dissimulo, mas faço".

O que é verdadeiramente relevante é a forma como "uma jornalista experiente" se dispõe a ser usada para conseguir uma manchete bombástica.

Não estou convencido de que a jornalista esteja a fazer o jogo de Costa conscientemente, penso que estará muito satisfeita consigo mesma por ter conseguido uma cacha fenomenal, que se veio a revelar certeira.

O que a jornalista faz é uma coisa que está profundamente enraizada na cultura jornalística portuguesa (suponho que em muitas outras também): a jornalista troca o respeito por uma regra central da profissão - nunca citar fontes anónimas sem razões de fundo, em especial, sem razões fundadas no risco de vida que a revelação da fonte poderia acarretar - por informação privilegiada de fontes que considera úteis.

A jornalista prefere esquecer as regras da sua profissão a ficar sem matéria prima para o futuro.

Se a manchete do Expresso (e a notícia associada) dissesse qual era a fonte da jornalista, António Costa, tudo seria diferente, exactamente porque estaria fora de causa qualquer dissimulação por parte de António Costa, que teria de se responsabilizar pelo que teria dito à jornalista.

Mas ao prescindir de citar a fonte para garantir a informação, a jornalista está a criar a oportunidade para que um político no activo a manipule em função dos seus interesses, como efectivamente aconteceu.

As regras profissionais não existem por acaso e regras básicas do jornalismo, como a de não usar fontes anónimas, visam defender o jornalista de si próprio, das suas inclinações e simpatias, impedindo-o de involuntariamente colocar a sua influência ao serviço de interesses privados, como foi o caso, em vez de se colocar ao serviço dos seus leitores.

Que jornalistas descrevam tudo isto como se tudo isto fosse normal, é bem o auto-retrato de uma profissão - ou melhor, da parte da profissão que escreve sobre política e depende dos políticos para ter matéria prima - que deixou de se respeitar a si própria.

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7 comentários

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De Nuno a 08.12.2016 às 17:27

A chico-espertice nunca nos trouxe nada de bom e desta vez não será certamente diferente. Só é pena é ser uma característica tão apreciada em Portugal.
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De Anónimo a 08.12.2016 às 18:22

Entretanto o eleitorado, enganável ou não, já perante um governo bem à esquerda, votou um PR de direita, ex-chefe do PSD aonde militou toda a vida. Cujas cores sempre defendeu. De direita.
Havia candidatos do e apoiados pelo PS. Os números demonstram que muitos que votaram PS mudaram o seu voto para o candidato da direita.
Será que o PM já reparou nisso?. E sobretudo o PR também já reparou que os candidatos presidênciais de esquerda perderam votantes que obviamente se viram enganados com uso que foi dado ao seu voto ?.
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De Barata de Tovar a 08.12.2016 às 19:24

Não entendi muito bem, Henrique. Se o António Costa tinha dito que não viabilizaria um governo minoritário de direita, o que está errado na manchete? A direita, e é com pena que o digo, já devia ter aprendido algumas lições. Não se pode queixar da imprensa. Lançou o "geringonça" e pegou nos jornais, como forma de previsão de que aquilo não funcionava. Resta agora à nossa pobre direita, o quê? Desvalorizar as sondagens, ora com o argumento de que estão erradas, ora que os portugueses são ingratos, ora que os portugueses são burros. Ora, abóbora. A direita precisa de gente com juízo, não de agitadores de meia tijela.
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De henrique pereira dos santos a 08.12.2016 às 21:56


É que António Costa não disse, foi a jornalista que disse omitindo que quem a informou foi António Costa.

O que permitiu a António Costa nunca confirmar a manchete antes das eleições, mas usá-la depois das eleições para dizer que as pessoas sabiam que ia ser assim.
Pura manipulação.
Isto não tem nada com direita ou esquerda, é apenas uma questão de qualidade do jornalismo: não há nada, mas rigorosamente nada, que justifique o facto de um político falar sobre o que fará depois das eleições, ao mesmo tempo que se recusa a ser identificado como a fonte da informação.
Ou seja, ou fala em on, e o jornalista publica e identifica a fonte, ou fala em off e o jornalista não publica porque coisas destas não se publicam com base em fontes anónimas.
Simples.
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De Barata de Tovar a 09.12.2016 às 09:27

A sua tese é muito rebuscada. Então, o António Costa afinal disse, ou não disse à jornalista que ia chumbar um governo minoritário de direita? Qualquer pessoa de entendimento médio não concluiria logo que a manchete resulta da fonte António Costa? Há qualquer coisa aqui que me está a escapar, mas não vou insistir. Apenas chamaria a atenção para a necessidade de não tratar os votantes como tolos ou enganados, porque não me parecem que eles gostem disso. 
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De henrique pereira dos santos a 09.12.2016 às 11:17


No momento em que a notícia sai, que é o que interessa, não sabemos quem disse à jornalista o que ela escreveu, nem sabemos sequer se a jornalista inventou.
A minha tese não tem nada de rebuscada: não há qualquer razão para publicar conversas sopradas ao ouvido sobre o que um político vai fazer se o dito político não permite que seja identificada a fonte.
De resto, não percebo o seu último comentário  visto que no texto eu digo explicitamente que só se engana quem quer ser enganado.
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De Vem aí o Diabo... a 09.12.2016 às 14:59

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Depois desta conversa toda ainda não tomaram o medicamento....

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