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Como disse no último post, a intervenção de Vítor Bento há um ano, de que tive conhecimento recentemente, ajudou-me a arrumar ideias sobre a necessidade de combater ideias erradas.
Outro dos exemplos de radicalismo de Meloni, e de duplicidade de discurso externo (moderado) e interno (extremista) que Cátia Bruno usa nesta peça do Observador é descrito nestes termos: "Um exemplo prático que ilustra esta duplicidade dentro e fora de portas é o caso da crise climática: em julho, quando se encontrou com Biden, Meloni disse estar comprometida com o combate às alterações climáticas, que definiu como “ameaça existencial”; na semana seguinte, num comício de apoio ao líder do partido espanhol Vox, fez declarações onde denunciava “o fanatismo ultra-ecológico da esquerda”, que dizia estar a atacar “o nosso modelo económico de produção”".
O que Cátia Bruno está a dizer (e nisso com certeza está integrada no discurso geral da imprensa sobre o tema), é que para se estar comprometido com o combate às alterações climáticas, é preciso aceitar os termos da discussão definidos pelo "fanatismo ultra-ecológico da esquerda" quando, na realidade, a generalidade do discurso ambiental dominante é simples pensamento mágico.
Dizer que 99% do que Greta Thundberg diz é lixo, e que é incompreensível que gente responsável a tenha promovido como profeta de um mundo novo, é uma opinião tão legítima e aceitável como dizer que Greta Thundberg teve um grande papel na consciencialização dos jovens (incluindo o jovem Guterres, claro).
Se duas pessoas se encontram e uma acha correcta a primeira ideia e outra acha correcta a segunda, o que podem fazer é sentar-se calmamente em frente a uns pezinhos de coentrada a conversar sobre as razões de um e de outro, e não pretender liquidar qualquer discussão considerando a primeira ideia aberrante e inaceitável, e inútil qualquer discussão com negacionistas climáticos (não havendo, na primeira ideia, qualquer vestígio de negacionismo climático, mas apenas um ponto de vista sobre a relevância de ter uma adolescente a debitar enormidades sobre um assunto complexo).
Tomemos, como exemplo, este comunicado de imprensa da uma coligação ambiental (Birdlife, WWF, EEB e ClientEarth) que defende uma lei do restauro da natureza europeia.
A lei de restauro da natureza é uma lei inventada pela burocracia europeia, decorrente do European Green Deal que Ursula von der Leyen apresentou no início do seu mandato como presidente da comissão europeia e, como a generalidade do European Green Deal, corresponde a reduzir a escrito uma série de ideias mainstream sobre ambiente, sem grande ligação com a realidade e com a vida das pessoas comuns.
Por exemplo, na área que conheço melhor, a da gestão da biodiversidade, corresponde a estabelecer, pela enésima vez, metas que têm vindo a ser estabelecidas há décadas e nunca atingidas, sem que em algum momento se discutam as razões pelas quais se falha sistematicamente.
Sem surpresa, os mecanismos definidos para atingir estas novas metas (novas, aqui, é relativo) consistem em aprofundar os mecanismos usados anteriormente e que falharam redondamente, na convicção de que um método errado de resolver um problema acabará por dar resultado se for mais bem aplicado.
A lei de restauro da natureza é uma filha deste processo de alienação dominante na burocracia europeia, na academia, nos jornais, nos mecanismos de poder europeus, pretendendo levar mais longe a dissociação entre a realidade e o mundo ideal das regras, legislação e comunicados de imprensa em que persistem as elites europeias.
A coligação ambientalista que assina este comunicado de imprensa está profundamente convencida de que o mundo se formata através da lei, e por isso acha um drama que esta lei - em qualquer caso inútil, porque não há lei que seja útil quando esquece a realidade - não seja aprovada, mas para contestar a não aprovação da lei não escolhe defender os argumentos que demonstram que a lei é muito útil, escolhe antes realçar o facto da Hungria ter tomado uma decisão qualquer, com o objectivo de liquidar a discussão sobre a substância da lei, acantonando os que a contestam (e são muitos) como fascistas apoiantes de Viktor Órban.
E é isto, a discussão da substância de uma lei passa a ser irrelevante, porque contestar a lei passou a ser uma ideia inaceitável de apoiantes de Viktor Órban.
E depois estranham que o nacionalismo e o anti-europeísmo vá ganhando força, à medida que as pessoas comuns se sentem defraudadas por esta gente.
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