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As falácias do Sr Louçã (3)

A primeira traição: o liberalismo económico

por Jose Miguel Roque Martins, em 28.07.21

 

É no seu ataque ao liberalismo económico que Louçã chega ao delírio. Sugerindo que o livre mercado é compatível com uma intervenção supostamente ilimitada do Estado e que a nacionalização dos meios de produção, não é uma aberração completa para um liberal, quando é a negação completa do direito e liberdades económicas de que qualquer cidadão deve beneficiar.

Louçã cita Adam Smith: “Mas tais exercícios da liberdade natural de alguns indivíduos, que pode pôr em perigo a segurança de toda a sociedade, são, ou deveriam ser, restringidas pelas leis de todos os governos (...). A obrigação de construir paredes para prevenir a extensão de um fogo é uma violação da liberdade natural, exactamente como as regulações da actividade bancária que aqui são propostas”.

Concluindo desastradamente ( ou não) que  “Deste modo, Smith não preconizava um mundo povoado por empresários que calculariam os seus lucros potenciais através do seu apurado egoísmo; para um liberal pragmático como ele, a força do mercado tinha que ser limitada por regras que protegessem o bem comum. A consequência é imensa, é a democracia que garante a liberdade.”

Não se percebe o salto que explique a pretensa critica de Adam Smith aos lucros de empresários egoístas. Não se entende que a admissão de limites á liberdade individual, pela potencial ofensa á liberdade e interesses dos outros, não seja património liberal. Não é admissível que a regulação da Economia ( no exemplo do mercado financeiro) não seja entendida como parte integrante do liberalismo económico.  

Reconhece que a noção de que para os liberais não é válido o laissez-faire. “Apenas” omite que os liberais acreditam que há patologias do mercado que têm que ser corrigidas. Não apenas os bons, aqueles que já morreram, ou são “pragmáticos” mas todos os liberais vivos.  É um chão comum, consensual. Para os liberais, o Estado deve intervir para corrigir todas as patologias do mercado. Mas só nestes casos, que são muitos.

 Mais uma vez a forma de apresentação nem é feliz, nem inocente. A sugestão de  que o âmbito das intervenções no mercado, não sejam exclusivamente dirigidas à correcção das patologias, conhecidas, estudadas e conhecidas, é uma trapaça. E a sugestão de que nem os mais manifestos problemas do mercado,  são reconhecidos pelos liberais, uma enormidade.

Desenvolve uma narrativa, de forma cautelosa e inteligente, procurando deixar uma mensagem: os liberais (bons) são partidários da intervenção indiscriminada na economia e até são partidários da nacionalização dos meios de produção. Um salto impossivel, mas que Louçã procura estabelecer.

De forma hábil, ao enfatizar defesas de patologias do mercado, por parte dos bons liberais, insinua, estabelece, que a protecção de patologias de mercado é algo que não faz parte do património comum liberal.

Quando glorifica Walras por defender que  o Estado,  “deve controlar, se necessário, os caminhos de ferro, dado que seria uma “verdadeira aberração” invocar o princípio da concorrência numa situação de monopólio natural e de serviço publico”, uma clara e óbvia evidencia, sem oposição de ninguém,  e quando sugere que Walras, que morreu há mais de um século, foi dos últimos a defender a intervenção do Estado na economia, mente descaradamente, insinuando que os liberais de hoje, nem reconhecem as mais gritantes patologias do mercado, nem aceitam a intervenção adequada do Estado na economia.

A escolha de Walras não é feita por acaso. É a forma de mais naturalmente apresentar a tese de que os economistas bons também são partidários da nacionalização dos meios de produção, já que Walras, apresentou uma proposta de nacionalização da terra ( que eu desconhecia, tamanha é a centralidade desta tese nas contribuições de Walras) . A introdução de uma ideia extraordinária, de que, para os liberais ( ou pelo menos para os bons) a Estatização dos meios de produção é uma possibilidade. A ideia de que os bons liberais estão próximos do comunismo ou socialismo, não é simplesmente verdade. Por mais geniais que possam ser os argumentos e a habilidade do demagogo que o possa tentar demonstrar. Assim como apresentar Walras como o maior critico, do maior critico, de Marx, não faz dele marxista. É apenas uma tentativa de associação subliminar, que a multiplicação de dois números negativos produzem um positivo. Ou talvez, que o inimigo do meu inimigo é o meu amigo. Não é simplesmente o caso.

O génio e grandeza de Walras não merece este aproveitamento ideológico. As suas contribuições são muitas, importantes, boas e actuais. A sugestão da nacionalização da terra, não está nesse conjunto. É  a nódoa que cai no melhor pano e não corresponde, nem ao património do liberalismo, nem sequer de um pequeno grupo de liberais. É mais um caso de tentar que uma  ínfima parte defina o todo, tão da preferência de Louçã, quando lhe convém.

Como Louçã muito bem refere, Keynes é outro grande economista liberal. Era partidário da Eugenia, o que não significa que a Eugenia seja defendida pelos liberais. Já agora, alguém tem duvidas que Keynes advogou a intervenção do estado na economia, muito depois da morte de Walras em 1910?

Apenas para esclarecer, as criticas de Milton Friedman a politicas orçamentais, não faz de Keynes menos liberal do que era. Keynes, simplesmente identificou mais uma patologia de mercado e encontrou uma solução, que dependia do Estado.  Milton Friedman, não criticou os contributos de Keynes, criticou a generalização infeliz da aplicação dos remédios de Keynes, em situações que nada tinham a ver com a patologia por ele identificada. No que esteve completamente certo.

O grande debate entre Keynes e Milton Friedman, apenas produziu uma gloriosa síntese: políticas keynesianas sim, apenas quando defrontarmos uma crise de liquidez.

Não, nem Adam Smith e Walras defenderam a intervenção Estatal sem limites claros, nem os liberais admitem a colectivização dos meios de produção. Pretender o contrario é apenas mentira. Que parece convenientes para a esquerda radical, que Louçã, antes de quaisquer outros princípios, defende sem limites.



1 comentário

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De Anónimo a 28.07.2021 às 14:32


Ó Roque,
Chiça que vexa veio de férias com a caneta cheia demais. Ou com a t_USA toda.

Por qué no te callas?
cumps ao

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