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As elites e o pensamento mágico

por henrique pereira dos santos, em 30.08.18

Tinha ouvido um Vice-Presidente da Comissão Europeia a dizer que “one of the reasons that wildfires have such a devastating effect, this is a lot to do with the eucalyptus plants”.

Tinha lido uma ex Vice-Reitora da universidade de Coimbra e ex Presidente da Unidade de Missão para o interior falar dos chorudos subsídios públicos que motivaram a expansão do eucalipto (também a propósito de fogos).

Noutra altura já tinha ouvido o Presidente da República a falar da responsabilidade do eucalipto no padrão de fogo que temos.

O actual governo, não só pelos fogos, mas muito assente nisso, tem uma agenda de limitação da plantação de eucaliptos forçada pelo seu compagnon de route, Bloco de Esquerda.

E poderia citar um larguíssimo número de pessoas, inegavelmente pertencendo às elites do país e da União Europeia, divulgam e promovem mitos como o da ligação forte entre eucalipto e fogos que, na essência, são semelhantes aos mitos do carácter cancerígeno do glifosato, da ligação entre vacinas e autismo e várias dessas teorias new age em que o conhecimento científico e o pensamento mágico se equivalem.

E foi nessa altura que choquei com dois comentários irritados em que Nuno Gracinhas Guiomar respondia a um amigo que vinha com a conversa do costume sobre os interesses que justificariam estar a negar-se o que o amigo considerava uma evidência, como era o caso da ligação entre eucaliptos e fogos.

Com a autorização do autor, e ligeiras adaptações, aqui fica uma das melhores sínteses do que é o consenso científico sobre o tema, largamente esmagador, mas que uma boa parte das elites que decidem teimam em negar.

"Choca-me a leveza como atiras rótulos de incompetência ou de ausência de idoneidade a pessoas que lidam diariamente com estes temas há décadas. … o que me interessa é o conhecimento e independência do José Miguel Cardoso Pereira, do Paulo Fernandes, e de outros reputados investigadores reconhecidos internacionalmente, e com os quais já tive o prazer de trabalhar.

Nunca nenhum dos investigadores portugueses algum dia escreveu que o eucalipto não é parte do problema … . Mas daí a centrar o discurso da resolução dos incêndios no eucalipto é um erro tremendo. Cerca de ~75% da área ardida anualmente é explicada por incêndios superiores a 100ha, que correspondem a menos de 5% do total de incêndios (em média ocorrem cerca de 11000 incêndios em Portugal continental com mais de 0,1ha).

Se procurasses uma relação entre a área ardida anualmente e o número de incêndio por classe de dimensão, o melhor ajuste que conseguirias era com incêndios superiores a 1000ha, uma curva exponencial com R2 de ~76%.

Uma série de investigadores analisaram as áreas ardidas em função da ocupação do solo em Portugal (conheço seis estudos publicados em revistas importantes feitos por diferentes equipas, e utilizando diferentes abordagens e bases de dados, e eu participei num dos mais recentes). Nos estudos de susceptibilidade (selectividade ou preferência do fogo por tipos de ocupação do solo ou tipos de ocupação florestal), os matos destacaram-se das restantes classes de ocupação do solo, os carvalhos ardem mais em função da sua disponibilidade, os pinheiros e eucaliptos são moderadamente "seleccionados" pelo fogo, e o sobreiro e a azinheira são menos "seleccionados".

No entanto quando se estratifica a amostra por classes de dimensão de incêndio, esta selectividade "desaparece", ou seja, em situações de elevada perigosidade meteorológica (e se os combustíveis estiverem disponíveis - idade, humidade dos combustíveis finos...) arde tudo até que as condições permitam novamente o sucesso das acções de supressão.

No estudo que efectuámos (de 2016), em que nos centrámos na análise de 609 incêndios superiores a 100ha, a composição florestal não explica a variabilidade da amostra, mas sim a continuidade da área florestal, independentemente da espécie.

Noutro estudo que fizemos (de 2014), verificámos alteração do regime de fogo nas áreas sujeitas ao regime florestal nos anos 70 (temos dados para estas áreas desde a década de 1940), em que passámos de um regime de fogo controlado pela disponibilidade de combustível, para um regime de fogo dirigido pela meteorologia. Nestas áreas (baldios, perímetros florestais e matas nacionais) o problema do eucalipto não se põe, a florestação destas áreas foi essencialmente com pinheiro bravo. O que todos estes estudos nos dizem é que temos um problema geral de acumulação de combustíveis, e que essa continuidade vertical e horizontal dos combustíveis resulta do abandono do território, da ausência de gestão dos espaços florestais.

O aumento da área de eucalipto contribuiu para o problema, nenhum destes estudos contraria isso, e referir os factos tal como eles são não pode transformar-se numa luta de que há uns a favor e outros contra, isso é absurdo … .

Hostilizar a espécie antes de se encontrar um caminho viável para a sua substituição, assim como criminalizar o uso do fogo, são dois caminhos perigosos que, de acordo com o conhecimento formalizado, poderão agravar ainda mais o problema que temos, pois a estes processos sucede-se por norma o abandono.

Os dados que temos permitem-me ainda dizer que uma parte considerável da minimização do problema pode estar mais nas políticas agrícolas do que nas políticas florestais.

Sobre "onde começam os fogos" (157068 incêndios devem constituir uma amostra estatisticamente significativa, certo?): apenas 5% destes incêndios iniciaram em eucaliptais, e os incêndios aqui iniciados correspondem a 6% da área ardida gerada por todos os incêndios analisados. 50% dos incêndios iniciam-se nas áreas peri-urbanas, e 26% iniciam-se em áreas agrícolas.

Centrar nas causas ou no número de incêndios também não nos leva a grande coisa, e desvia-nos do essencial que é o da necessidade de gerir a acumulação de combustíveis.

E não nos leva a nada porque cerca de 50% dos incêndios concentram-se em pouco mais de 10% do território, e porque os grandes incêndios ocorrem aleatoriamente no espaço, embora nas áreas onde a recorrência do fogo é maior, haja menor probabilidade de ocorrência de grandes fogos.

As motivações para as ignições são muitas, e embora eu concorde com a necessidade de se encetarem esforços na sua diminuição, é difícil que tal se traduza na diminuição efectiva da área ardida. Se os esforços se concentrarem nos dias críticos (configurações sinópticas que favorecem a propagação do fogo acima da capacidade de extinção) talvez se consigam alguns resultados, mas só é possível concluir alguma coisa se o sistema se mantiver durante alguns anos de modo a atenuar o efeito imediato de um ano catastrófico.

O gráfico que partilhei é após 1980 porque a robustez dos dados permite que o façamos a partir daí à escala nacional (mas também porque é o período de maior crescimento da área de eucalipto). … E esse gráfico não defende, apenas demonstra que não há uma relação causa-efeito, no que se refere ao fogo (é o que eu estudo, não estudo outros efeitos).

E quem te disse a ti que não havia incêndios antes?

Tivemos de facto um período de tréguas que correspondeu à primeira metade do século XX [nota minha: neste ponto em concreto, que é um ponto em que há pouca informação directamente verificável, eu tendo a não subscrever esta tese, preferindo dizer que nessa época há uma alteração do padrão do fogo que o torna socialmente menos visível, mas trata-se de uma divergência de pormenor], mas antes disso não faltava fogo no país (tenho muitas páginas escritas depois de muitas horas de leituras de corografias e documentos técnicos do século XIX para contextualizar o fogo antes desse período de menor piro-actividade), e provavelmente havia ainda mais do que hoje (os relatos do final do século XIX apontam para incêndios nos montados e charnecas do Alentejo que duravam semanas), mas sem as consequências que a actual dispersão de edificado e pessoas traz.

Esse período de tréguas coincidiu com o auge da agricultura, ainda assim sistematizavam-se os dados de fogos (desde 1943) nas áreas sujeitas ao regime florestal. Esses anos foram o suficiente para apagar a memória colectiva do fogo em Portugal (distribuição, causas, combate). A década de 1960 é uma década de alteração, o vale do Zêzere era especialmente afectado todos os anos, mas é no Algarve que sucede um dos maiores incêndios do século XX, em Monchique, em 1966.

Nesta década registam-se vítimas mortais quase todos os anos, em diferentes pontos do país, sendo de destacar os 25 militares que morreram no fogo da Serra de Sintra em 1966.

Mas já em 1961 havia ocorrido um fogo catastrófico, conhecido como o incêndio de Vale do Rio.

Também tenho algumas páginas escritas sobre este período, aqui nos meus apontamentos, depois de ter massacrado os neurónios a tentar perceber como tinha evoluído o fogo antes de se terem iniciado os registos das ocorrências e da área ardida. O facto de não existirem dados sistematizados não quer dizer que não existia fogo.

Hoje é tudo muito mais fácil, com as imagens de satélite (ainda assim, no que respeita a áreas ardidas conseguimos recuar até 1975). Os registos de ocorrências nacionais começaram em 1978, mas nas áreas sujeitas ao regime florestal em 1943.

Tudo isto está publicado … . Podes ler os artigos e questionar os métodos, se as conclusões são suportadas pelos resultados, se a hipótese foi colocada correctamente.

Dispenso … o fomento de teorias da conspiração. … podias ter-te questionado sobre a razão pela qual os fogos se estenderam por extensões impressionantes no Caldeirão. Podias ter-te questionado porque razão é que o 2º pior ano de sempre (só superado por 2017) tem grande parte do Distrito de Portalegre como área de calamidade.

Por fim, uma pequena informação, a aceleração do fogo de Monchique coincide com a chegada da frente de incêndio aos estevais e montados da parte Este da Serra."



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