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As cheias e o pensamento mágico

por henrique pereira dos santos, em 13.09.22

O Senhor Presidente da Câmara de Manteigas é um jovem evidentemente empenhado e com uma enorme qualidade: presta contas publica e frequentemente.

É de um post deste senhor Presidente de Câmara a fotografia da aldeia de Sameiro depois da enxurrada desta noite.

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Sem surpresa, algumas pessoas que discordam de mim, chamaram-me a atenção para o post que relata o que sucedeu esta noite na aldeia de Sameiro, Manteigas, aparentemente para contestar um post que eu tinha feito, em 13 de Agosto, lamentando que o Observador desse voz a completos ignorantes nos assuntos sobre os quais falavam.

Em concreto, lamentava que com jornalismo assim e pérolas como esta "“Quando olho para o meu concelho vizinho, Manteigas, com aqueles encostas íngremes que arderam, se não forem colocadas barreiras ao longo daquelas encostas, a vila de Manteigas vai ser soterrada, com toda a matéria, com toda a água, com toda a terra, com toda a pedra, com toda a madeira, que for arrastada por aquelas encostas abaixo”, alertou Luís Tadeu, presidente da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela.", fosse impossível discutir serenamente assuntos sérios e complexos.

Na opinião dos meus amigos que me chamaram a atenção para a publicação do Senhor Presidente de Câmara de Manteigas - que é uma publicação factual, sem grandes considerações, dizendo, erradamente, que as imagens da cheia repentina na aldeia dispensam comentários - as fotografias do sucedido na aldeia de Sameiro demonstrava que eu não tinha razão e o Senhor Luís Tadeu tinha, pelo menos parcialmente, razão.

Como acho que as fotografias da cheia urbana rápida da aldeia do Sameiro não dispensam comentários, aqui vão os meus comentários.

1.jpg

Esta é uma imagem do Google Earth que mostra, com clareza suficiente, a posição topográfica da aldeia de Sameiro, sendo evidente que está na embocadura de uma ribeira, provavelmente torrencial.

Esta localização é perfeitamente justificada: o arrastamente de sedimentos pela ribeira diminui quando o vale se alarga, permitindo a acumulação de solo - a erosão é um processo que se relaciona com a acreção, uma verdade simples, frequentemente ignorada - que a mão do homem aproveitou e enriqueceu com estrume e a gestão adequada da água da ribeira.

2.jpg

Quando se aproxima a imagem no Google Earth, o que se torna evidente é que a ocupação urbana tradicional evitou sempre fechar o escoamento do vale - são muitos anos a ver as cheias passar - e o largo tradicional da aldeia, visível por ser onde se localiza a igreja, está na enconsta sobranceira aos campos agrícolas e longe do canal de escoamento das enxurradas.

Há dois núcleos urbanos (não recorri ao google street para tentar perceber épocas de construção, por me parecer suficiente perceber que há dois núcleos de cada lado do canal de escoamento das enxurradas, mas refiro que não investi grande coisa na confirmação do que estou a dizer neste ponto, por não me parecer necessário), separados pelo canal de escoamento da água e que, evidentemente, não ocupam leitos de cheia, quer porque aí se localizam os terrenos mais férteis, quer porque é desagradável ver património ir por água abaixo, para dizer o mínimo.

Pois bem, mais recentemente, alguém achou por bem ter um parque desportivo mesmo no caminho da enxurrada e aumentar as linhas de circulação urbana, estradas e caminhos, por cima da ribeira, acontecendo o que acontece sempre, sempre, nestas circunstâncias: quando há uma precipitação anormal, no sentido em que não ocorre todos os anos, mas normal no sentido em que é possível que ocorra a cada cem anos, foi tudo à frente da enxurrada, carros, campos desportivos, árvores, troncos, etc..

Argumenta-se que a área ardida a montante é a causa desta enxurrada.

Mas este argumento não é verdadeiro, a razão para o que sucedeu em Sameiro é uma precipitação muito elevada num curto espaço de tempo (a Guarda registou 20 mm numa hora entre as quatro e as cinco da manhã e a estação da Quinta da Lajeosa regista o mesmo, uma hora antes) e uma errada gestão urbana que desvaloriza este tipo de fenómenos meteorológicos recorrentes, pouco frequentes, mas recorrentes.

Dizem alguns dos meus amigos que se a bacia hidrográfica da aldeia estivesse com matas maduras de folhosas autóctones isto não sucedia e que é uma evidência que entra pelos olhos dentro o facto de não ser indiferente ter um carvalhal maduro com dois palmos de solo saturado de matéria orgânica ou ter uma área ardida.

Este tipo de argumentação corresponde exactamente à argumentação dos que entendiam que não valia a pena olhar para as contas de Copérnico porque é uma evidência que entra pelos olhos dentro que é o Sol que anda à volta da Terra.

Se se fizerem as contas à quantidade de água que cai num episódio de chuva como o que aconteceu, num curto período de tempo, à velocidade de infiltração no solo (curiosamente, ao fazer-se notar que um solo com maior teor de matéria orgânica tem uma velocidade de infiltração mais baixa que um solo arenoso, não é impossível levar de volta com argumentos que incluem o deserto do Sahara) e à capacidade de intercepção da copa de uma árvore, rapidamente se percebe que ao fim de dez minutos, um quarto de hora, a água que escorre é alguns 90%, pelo menos, da água que cai, sendo portanto bastante irrelevante ser uma área queimada ou um carvalhal maduro que está a montante.

É por isso que a abordagem ambientalista deste assunto se deve focar no respeito pelos canais de escoamento de precipitações que ocorrem uma vez em cada cem anos (ou no tempo de retorno que se quiser escolher, desde que suficientemente longo), na não ocupação de leitos de cheia com usos que geram perdas quando a cheia ocorrer e na criação de bacias de retenção de água a montante.

No actual jardim da Praça de Espanha, em Lisboa, pode ver-se um modelo de intervenção deste tipo, é apenas um jardim, com certeza, mas é um jardim que sabe que cheias haverá sempre e usa o facto de ser um jardim para contribuir para a gestão da cheia na cidade.

Infelizmente a ideia que vai prevalecer é a de que o se passou na aldeia de Sameiro resultou de ter havido um fogo e não se terem executado medidas de emergência pós fogo suficientes.

E, com base nessa ideia, errada, vão-se definir políticas de gestão do território ineficientes, continuar a pôr trambolhos no percurso de ribeiras torrencias e a ocupar leitos de cheia com usos indevidos para essa localização.

Estranhamente, com o apoio de grande parte do movimento ambientalista.



11 comentários

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De balio a 13.09.2022 às 12:44


ao fazer-se notar que um solo com maior teor de matéria orgânica tem uma velocidade de infiltração mais baixa que um solo arenoso, não é impossível levar de volta com argumentos que incluem o deserto do Sahara



Aliás, no deserto do Saara, e noutros desertos, há terríveis e mortíferas inundações, nas raras ocasiões em que chove. Há até um dito, salvo erro dos povos dos desertos do sudoeste africano, que "no deserto, morre mais gente afogada do que de sede". O facto de o deserto ter pouca matéria orgânica e muita areia no solo não impede, de forma nenhuma, que a chuva escorra por ele, em vez de se infiltrar nele. Tal como uma onda do mar escorre pela areia.
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De Pedro Oliveira a 13.09.2022 às 13:12

Por falar em ocupação em leito de cheias, confrontar com a localização do Loures Shopping um desastre à espera de acontecer.
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De JPT a 13.09.2022 às 14:53

De facto, tendo evitado, por óbvias razões, durante meses a fio, a Praça de Espanha (apesar de me pôr lá a pé, de casa, em 15 minutos), verifiquei, este Verão, ao "cair lá" por acaso, que a configuração do novo parque visava, obviamente, escoar a água, que tantas vezes a alagava, para uma ribeira/canal que o percorre - e que, a partir daquela confusão total, se conseguiu criar uma lógica visual, na ligação entre o bairro que confronta com o IPO e Avenida Calouste Gulbenkian. Apesar de não ser (por força da envolvente) um parque especialmente aprazível, quase que me comovi, de tão raro que é ver algo de bem pensado e de bem feito na cidade de Lisboa. Gostava muito, por isso, de saber como esse espaço, e a Praça de Espanha, lidaram com a enxurrada de ontem. PS: aqui nos Restauradores, não há semáforos de, pelo menos, ontem de manhã.
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De Anónimo a 14.09.2022 às 08:56

Por acaso eu também gostava de saber como a Praça de Espanha lidou com a enxurrada. Alguém pode informar, por favor? Agradeço.
EJ
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De passante a 13.09.2022 às 20:47


O expurgado camarada Kipling tinha uma quadra apósita num livro da selva:


'In August was the Jackal born;
The Rains fell in September;
"Now such a fearful flood as this,"
Says he, "I can"t remember!"'


E, se me permite uma achega, o primeiro parágrafo podia ter terminado com "Infelizmente não parece saber de leitos de cheia." Era uma preparação mais incisiva.
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De Catarina Silva a 14.09.2022 às 00:57

A propósito de ocupar leitos de cheia. Na aldeia da minha avó, situada num vale encaixado no alto Douro, alguém (no final dos anos setenta do século XX) construiu uma casa em cima de uma antiga ribeira. Eram terrenos bons para hortas. De entre os mais velhos, só havia meia dúzia deles que se lembrava de ver água a correr por ali (6 décadas atrás). O homem construiu a casa apesar dos conselhos contrários. Por precaução, elevou a casa deixando um arco elevado em cima da "ribeira". Dois ou três anos depois, uma chuvada épica seguida de uma torrente de lama partiu a casa ao meio. Recordo-me bem da tristeza dos donos (ex-emigrantes) que perderam a sua casa, escapando por um triz, e dos vários "bem avisámos".  Foi o único afectado pelas torrentes de água, lama, ramos, troncos que avançaram pela ribeira "seca". Durante uns dias uma cascata saltou do 1º andar da casa e as mulheres lavavam a roupa na poça que se formava em frente. Na altura comentava-se que fulano perdeu a casa por ser casmurro.  
Cumprimentos,
Catarina Silva


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De balio a 14.09.2022 às 11:03


Neste caso havia idosos que se podiam recordar de ter visto água naquela ribeira, e esses idosos puderam comunicar ao ousado contrutor que ele estava a ser imprudente.
Creio que atualmente em muitos sítios ou já não há idosos ou (mais provavelmente) eles não conseguem informar os ousados presidentes de Câmara de que estão a fazer disparate.
Será este facto - o de os presidentes de Câmara serem mais jovens e voluntariosos, e o de os mais idosos não conseguirem transmitir a sua memória de desastres anteriores - que leva a algumas construções inadequadas.
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De balio a 14.09.2022 às 11:57


Há alguns anos (de facto, já decénios), começou a dar-se o caso de que, sempre que chovia de mais, o centro da cidade de Águeda ficava completamente submerso pelo rio, causando grandes prejuízos a moradores e lojistas.
Após alguns anos de repetidas experiências neste sentido, decobriu-se que a causa estava na obra de uma estrada (salvo erro, a variante ao IC1) que tinham feito a jusante da cidade, aterrando o vale do rio.
Atualmente Águeda voltou a não ficar inundada. Aquilo que era assunto de abertura em telejornais, desapareceu discretamente.
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De Anónimo a 15.09.2022 às 05:47

"Após alguns anos de repetidas experiências neste sentido, descobriu-se que a causa (...)"

Sabe dizer-me em que década se terão feito essas várias experiências para se descobrir a causa das cheias?
JFerreira
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De balio a 15.09.2022 às 09:14


O que eu quis dizer é que houve várias cheias em Águeda, em diversos anos e ocasiões, até as pessoas se terem convencido de que aquilo era um problema estrutural e terem decidido olhar para, e remendar, as suas causas.
Agora, em que anos houve cheias, não sei.
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De entulho a 14.09.2022 às 15:09

correcta a sua apreciação.
estes ambientalistas são os que receavam o arrefecimento do 'pilaneta' no final dos anos 60. estão cheios de gretas

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