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Depois de Bocage nenhum outro poeta preencheu tão profundamente o anedotário popular como Ary dos Santos - essa forma que o povo tem de elevar ao mito as particularidades biográficas. O anedotário de José Carlos Ary dos Santos está mais enraizado na memória dos que o acompanharam. Dos amigos de sempre, desses tempos conturbados, que guardaram o testemunho daquela força indomável. Com Natália Correia e Fernanda de Castro enalteciam o círculo íntimo dos salões literários, onde se reunia o escol de uma época de ouro da nossa poesia. Com Natália, constituíam personalidades gigantes, divergentes e em choque constante, dois cometas de inteligência arrojada. Mas com Fernanda de Castro encontrou a primazia da educação poética e o vasto saber que o guiou.
A energia transmitia-a nos poemas, envoltos em imagens enriquecidas pela proficuidade do verbo e, no verso, a elasticidade que atingia o alto grau da imaginação. Toda a construção poética do autor vem envolta em sonoridades dinâmicas, imagens ricas, ritmos subtis, melodias que se traduzem em slogans: “Quem quer quentes e boas, quentinhas/ a estalarem cinzentas na brasa” - cantava Carlos do Carmo; ou “Lisboa menina e moça, menina, da luz que os meus olhos vêem tão pura”; ou Alfama que “não cheira a fado/ Cheira a povo, a solidão,/ Cheira a silêncio magoado/ Sabe a tristeza com pão”, como se o poeta fosse a própria geografia solitária e inerme.
Ary tinha a grande capacidade de aliar o erudito ao popular, tal como Bocage mais de um século antes fizera. Mas também em ser profundo, sem ser supérfluo, em ser romântico, sem ser lamechas, em ser erudito, sem ser chato, e ao mesmo tempo entender a universalidade dos sentimentos.
Compreendendo a ineficácia do academismo para chegar às bases, dedicou centenas de poemas à música. Não era de todo insólito. Nas origens a poesia era cantada, ou transmitida oralmente, assim foram os poemas homéricos, as cantigas medievais, a representação do cómico e do profano. A poesia foi sempre, ora uma representação do mundo, ora uma interpretação da alma e entre os estados de espírito do vate sondamos o mistério da existência.
Ary desafiou os olimpos da erudição e fez subir a poesia ao povo, parafraseando Pedro Homem de Mello, aliás a propósito da coragem de Amália em cantar os poetas. E quando a mesma Amália se atreveu a cantar Camões de tudo foi acusada. Assim como havia poetas intocáveis, outros que se sagravam também ficavam presos à redoma das inteligências que vêem na massificação o espectáculo da vulgaridade. Em Ary a fama sempre foi vista como vaidade e os poemas que muitos cantaram vistos como um sacrifício do talento em nome da comercialização. Apesar de tudo, não esteve sozinho, o próprio Pedro Homem de Mello escreveu para ser cantado, assim como David Mourão-Ferreira. E cantados foram Cecília Meireles, Alexandre O’Neill, Sophia de Mello Breyner, Manuel Alegre, Manuel da Fonseca.
Compreendeu que a poesia, apenas fechada entre lombadas, acaba por cair no esquecimento. Por isso deixou que diversas vozes o interpretassem. Ou ainda escrevendo para ser cantado. Ou mais escandaloso, a escrever a partir da própria melodia. Como constatou Natália Correia estupefacta quando referiu que “Estrela da Tarde” era um poema perfeitamente musicável e Fernando Tordo lembrou que não era “musicável” mas tinha sido escrito a partir de uma melodia. Algo que a incrédula poetisa jamais aceitou.
A verdade é que Ary conseguia extrair palavras dos sons e poemas das melodias. Era um inspirado. Nas suas linhas o mundo é traduzido em verso e as vidas comuns (a banalidade do quotidiano) ganham outro ênfase. É uma poesia de sensações, mais do que explicações, mais imanentista do que transcendental. Tem aquele travo cesariano, que procura a beleza no mundo da azáfama urbana, e o humor bocagiano que não perde a inteligência, podia ser parnasiano e no jeito alarmado e feroz uma encarnação daquele Fradique de Eça, um Baudelaire nas ruas de Lisboa, ou um Verlaine acusado de todos os vícios. Homossexual, não foi como António Botto um poeta preocupado em objectivar a sua sexualidade. Ainda que a partir da sua poesia entendamos os subterfúgios do sentimento transversal a géneros e orientações. Nesse sentido conseguiu ser universal.
Podia ser politicamente comprometido sem ser um servo dessa condição. Na poesia estava também exposta a ideologia. Novamente, o povo devia subir à arte, por isso o socialismo de Ary aspirava a uma aristocracia popular. Ele próprio um comunista que nunca deixou de ser um aristocrata. Talvez porque, energético e frontal, conseguisse aspirar à liberdade que é a virtude das aristocracias.
Mas era mais poético, do que político, mais original do que comprometido, o que o elevava acima de muitos neorealistas e militantes. Podia ser um revolucionário sem se dissolver na multidão gritante. Demasiado independente, demasiado livre.
Aos que o acusavam soube responder frontalmente “Poeta castrado, não!” Era um gigante. E como todos os homens de talento que vivem para cultivar a imagem mais do que a obra fez da sua própria vida a “obra de arte”. Era como Rimbaud, um enfant terrible, como Shelley, ou Byron (e na escala das possibilidades), um aventureiro - no sentido mais romântico do termo. Abandonou-nos cedo, entrando no Panteão das desventuras que elevam os poetas ao mito. Para sempre ficou uma poesia que, cantada, se libertou de todas as amarras, tal como o próprio poeta, sem senhores e sem amos.
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