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Arrogância

por henrique pereira dos santos, em 29.10.20

"P: E como se responde às pessoas que dizem que a gripe mata tanto ou mais que a covid-19

R: Sugiro que vão ver o site do Euromomo e que comparem a mortalidade durante os meses de Março e Abril com épocas anteriores de gripe. Se olharmos para os gráficos de Espanha, Reino Unido, Bélgica, observamos que tiveram picos de excesso de mortalidade muito superiores ao de qualquer época de gripe."

semana 43.jpg

Caro Baltazar Nunes, fiz-lhe a vontade, mas em vez do escolher os gráficos que servem os meus pontos de vista (por exemplo, o de Portugal), ou os que servem o seu ponto de vista (Espanha, Reino Unido e Bélgica), resolvi escolher o gráfico global do EuroMomo.

Como sabe, muito melhor que eu, a mortalidade não se mede pela dimensão do pico - que é relevante, claro - mas pelo integral da curva e não é assim tão evidente que o pico provocado pela Covid, que é de facto mais alto, tenha um integral da curva maior que a época de gripe de 2017/ 2018, por exemplo, para não falar da época de gripe de 2016/ 2017 porque não estão aqui os dados de 2016.

Acresce que também sabe, igualmente muito melhor que eu, que houve épocas de gripe bem mais agressivas que as que estão representadas no gráfico acima.

O que me interessa, neste post, não é se a covid mata mais que a gripe, o que é cedo para saber, tanto mais que, como novamente sabe muito melhor que eu, a entrada de uma doença nova tende a ser mais agressiva por falta de defesas da população afectada.

O que me interessa é fazer-lhe notar que usar argumentação como se fosse uma evidência, sem que os factos sejam comprovados pelos dados existentes, não dá segurança nenhuma sobre seu trabalho, que é uma das principais bases para o governo tomar decisões sobre a epidemia.

A sua resposta à pergunta sobre o mistério da China ("não sei responder") é incomparavelmente mais séria e dá confiança ao que diz.

Poderia perfeitamente responder que não vale a pena desvalorizar a gripe, que é verdade que a gripe mata muito e que qualquer comparação que faça equivaler a gripe e a covid, em matéria de mortalidade, não desvaloriza a covid, apenas dá um contexto mais sólido à discussão sobre a gripe, que não é um problemazinho, é um problema bem sério de saúde pública.

Poderia mesmo dizer que a informação ainda é escassa para uma avaliação (como diz noutras respostas) mas que o pico da covid em Março/ Abril não nos pode deixar tranquilos porque ainda não sabemos como evolui a doença ao longo de uma estação inteira de Outono/ Inverno.

Poderia continuar a dizer que talvez tenhamos tido sorte em a covid ter aparecido tão tarde na época mais complicada das doenças respiratórias.

Claro que esta doença se pode comportar com as que resultam dos outros coronavírus (aparecem e desaparecem em oito semanas, mais coisa, menos coisa), mas pode não ser assim e ter um período de actividade viral mais alargado, não sabemos (já não lhe peço que explique às pessoas que achatar a curva significa diminuir o pico alargando o tempo de actividade viral, não significa um ataque menor).

Até poderia acrescentar que a actual subida acentuada tão temporã nos deve levar a olhar para o problema com alguma preocupação porque pode significar que em vez de oito semanas, tenhamos mais algumas de actividade viral, com a sobrecarga que isso comporta para todos.

Agora o que não pode é responder assim, arrogantemente, a questões perfeitamente pertinentes, muito menos quando os dados não suportam inequivocamente o seu ponto de vista.

Eu, pelo menos, fiquei com a sensação de que está mais focado em demonstrar que não houve qualquer excesso na reacção a esta doença que em transmitir o máximo de informação consistente sobre o problema, para que as pessoas ajam de acordo com a melhor informação disponível.

Espero estar enganado, porque se as autoridades, e quem lhes dá apoio, estiverem mais preocupadas em encontrar justificações para o que fazem que em aprender com o curso da epidemia, a coisa vai ser bem mais difícil que o que seria necessário.



6 comentários

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De balio a 29.10.2020 às 16:22


Há umas máquinas relativamente simples, que penso se possam comprar numa papelaria, que permitem medir a área dentro de uma qualquer curva, simplesmente percorrendo essa curva com um ponteiro.
O Henrique poderia, para conferir maior solidez ao seu post, comprar uma dessas máquinas e medir as áreas dos excessos de mortalidade.
Devo dizer que este procedimento é rigoroso, conheço cientistas em ciências exatas que o utilizam, aliás é para isso mesmo que estes gráficos com curvas são publicados: para que as pessoas possam fotocopiá-los, ampliá-los, e depois medir-lhes com rigor as caraterísticas.
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De Carlos Sousa a 29.10.2020 às 17:48

Eu não quero comparar a gripe com o covid, e por não querer comparar é que eu gostava que a par do número de mortes por covid, dessem também o número de mortes por gripe e outras doenças respiratórias. Assim ficava tudo claro e acabavam as especulações.
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De Elvimonte a 30.10.2020 às 00:28

O Prof. Nunes parece-me melhor do que o Prof. Gomes: pelo menos aparece como co-autor em dois artigos que roçam a Epidemiologia, ao contrário do último, mais dedicado ao formaldeído e às vacinas.


Daí a inferir-se que ainda retenha, se é que alguma vez as aprendeu, as noções básicas do significado de uma integração, vai uma enorme distância. Até já vi alguém a enviar e-mails do outro lado Atlântico porque o programa não compilava e nem conseguia interpretar as mensagens fornecidas pelo compilador. Afinal um erro básico: usava um nome de variável que constituia palavra reservada na linguagem do programa. 


Mas a propósito de integrações de curvas de mortalidade do euromomo, consegui encontrar algo que já tinha visto - há quase mês e meio atrás. Trata-se de comparação do excesso de mortalidade registado nas épocas de gripe (e doenças semelhantes) em 2017/18 e 2019/20, apenas na faixa etária 45-64 anos. Na legendagem da figura parece existir erro ao mencionar-se uma faixa etária 15-64 anos, que não tem correspondência no gráfico do euromomo.


http://prntscr.com/v9qdou


Parece-me que o excesso na época 2019/20 (ou apenas o pico da COVID-19, o que para mim não faz sentido) corresponderá a ~13000 óbitos na faixa etária 45-64 anos e que em 2017/18 esse excesso terá sido de ~20000 óbitos. 
A vermelho figuram os excessos relativos a todas as faixas etárias, saldando-se a época 2019/2020 por mais ~40000 óbitos em relação a 2017/18.   
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De Anónimo a 30.10.2020 às 07:41

Deveriam todos, especialmente a nossa autista comunicação social, mas pelo menos os cidadãos mais atentos, acompanhar o que está a acontecer com os dois países da EU que têm uma população total mais aproximada à nossa, no caso a famosa e muito amaldiçoada Suécia, mas principalmente o outro, a República Checa. Todos nós temos aproximadamente 10M de habitantes.
Sobre a Suécia já estamos todos conversados, aqueles malvados...
Por outro lado, e se se lembram bem, a República Checa foi durante meses considerado o país exemplo na Europa, até recentemente desaparecer misteriosamente dos telejornais. A narrativa era clara, foi  único país da UE que conseguiu esmagar o vírus e escapar incólume à mortandade que assolou os seus pares. Fantástco, e como conseguiu isso? Foi graças ao mais radical dos confinamentos praticados na Europa (em estatísticas oficiais publicadas no stringency index foi apenas igualada pela Irlanda). Significativamente foram os primeiros a adoptar o uso obrigatório de máscaras, logo em Março, e disso fez a nossa comunicação social muito eco como se lembrarão. Ficou até famoso um tweet do Presidente Checo dirigido ao Trump incitando os americanos ao uso da máscara e paternalisticamente aconselhando que se o fizessem e seguissem  exemplo dos Checos provavelmente resolveriam a crise. Esta cândida intervenção foi repetida ad nauseam nos media em todo  mundo. Os Checos tornaram-se de vez os meninos bonitos para os jornalistas e políticos ocidentais. E a talhe de foice demonstraram que é possível esmagar o vírus, e ainda a efiicácia das mascarilhas, principalmente se usadas desde muito cedo e em todo o lado.
E agora, depois de seis meses consecutvos de país parado e com as máscaras devidamente aferrolhoadas na face ds cidadãos, o vírus certamente que teria desistido e procurado outras paragens com habitantes governados por políticos menos conscientes, não acham? Pois a realidade mostra que não! Parece que o vírus afinal não liga muito a estas coisas, nem sequer parece ser minimamente travado pelas mascarilhas... ora bolas?!
Convido-os a irem ver as estatístcas publicadas no Worldometer. A Rep. Checa está numa fase de crescimento brutal da sua curva (falo da curva da mortalidade, a única que interessa!) e com mortalidades nos últimos das a approximarem-se dos 200 mortos diários!!!! Atente-se que o recorde diário na Suécia no pico da sua epidemia foi abaixo dos 120 (isto quando cometeram o erro de não protegerem devidamente os lares e numa altura em ainda se matavam as pessoas com ventiladores). É quase certo que nas próximas semanas os checos vão cometer a proeza de ultrapassar s suecos em todos os indicadores de mortalidade. E isto apesar de terem sido os melhores alunos. É a demonstração mais evidente e brutal de que todas as medidas que estamos a tomar não têm qualquer efeito prático na dinâmica do vírus. Mas porque não se discute isto?????
Já agora, à laia de comparação e a propósito de excelente texto do HPS, em Portugal, onde estamos a enfrentar a maior ameaça à nossa portugalidade desde as invasões napoleónicas, o número maior de mortes diários com covid andou, se não estou em erro, abaixo dos 40. Relembro que no já longínquo ano de 2018 (quem se lembra?), em Janeiro a gripe matou 1000 portugueses em 3 semanas - uma média de cerca de 50 diários! E a nossa querida Dra Desgraça Freitas em entrevista publicada na altura, sobre essa questão, desvalorizou os números e até sublinhou que não era muito e até espperavam mais, pois seria normal nalguns anos que a gripe matasse 5000 pessoas em Portugal. Agora, dois anos volvidos, com 20 mortos diários para uma doença viram que nos dizem ser muuito mais mortal que a gripe, estamos à bera da rotura hospitalar???
Sinceramente, parece que estamos a viver uma realidade virtual...
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De Elvimonte a 30.10.2020 às 14:37


A propósito de "os cidadãos mais atentos", excerto de texto publicado por mim como comentário na concorrência.


Mais evidência factual sobre a ineficácia do uso de máscaras pode ser encontrada nos sites worldometers, ourworldindata e nos já referidos do ECDC.


RU e França, cuja obrigatoriedade do seu uso em espaços públicos fechados foi imposta em Julho/Agosto, são exemplos disso. Portugal, cuja obrigatoriedade remonta a Maio, é também disso exemplo. Assim como o caso paradigmático, e muitas vezes referido por mim neste blogue como exemplo, da República Checa, que terá sido o primeiro país europeu a implementar a sua obrigatoriedade em espaços públicos fechados. 


O caso da República Checa é bem demonstrativo da dinâmica da infecção: tendo sido um dos mais poupados anteriormente é agora um dos mais fustigados, indiciando que em meses anteriores o vírus terá tido pouca circulação entre os seus habitantes. Neste grupo encontram-se também a Polónia, a Hungria e a Roménia, entre outros.


Poderia adicionar considerações sobre o Peru, a Argentina e o Chile, todos com medidas draconianas desde Março. Podia ainda socorrer-me de comparações entre estados dos EUA. Constate quem quiser.


Perante esta abundância de evidência factual a demonstrar a ineficácia do uso de máscaras (e também dos confinamentos), temos que chegar a conclusões.  


Conclusões a que também se pode chegar por via da evidência científica estabelecida anteriormente. Para o efeito, o seguinte artigo científico, publicado em Maio último:


"Nonpharmaceutical Measures for Pandemic Influenza in Nonhealthcare Settings—Personal Protective and Environmental Measures"
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7181938/


constitui prova cabal. Nele se afirma:


«Although mechanistic studies support the potential effect of hand hygiene or face masks, evidence from 14 randomized controlled trials of these measures did not support a substantial effect on transmission of laboratory-confirmed influenza.»


Acrescento eu: nem os 14 ensaios aleatórios controlados suportam a eficácia do uso de máscaras, nem a evidência empírica colhida ao longo dos últimos meses neste doloroso ensaio de campo a suporta.
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De Anónimo a 30.10.2020 às 10:37

Estocada perfeita! Argumentos de resposta demolidores...Parabéns!

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