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Aprendizes de feiticeiro, ou não

por henrique pereira dos santos, em 13.10.20

Esta notícia sobre a Nova Zelândia e a diminuição de 99,8% da gripe é muito interessante, mas mais interessante é a discussão ideológica que permite.

A ideia central é bem descrita pela pessoa entrevistada: ""What the Covid-19 response has done has largely eliminated those excess winter deaths and mortality as a whole is down around 5 percent," he said. "So that means an extra 1500 people will survive this year who wouldn't have." Baker said these measures had led to "a revolutionary change in thinking about how to deal with respiratory pathogens" and could be brought back in the event of a serious flu pandemic".

Dito assim, a coisa parece óptima.

Volto a analogias com processos naturais que conheço melhor: invasões e fogos. No fundo, a questão põe-se até nos mesmos termos que no artigo em causa se descrevem outros efeitos das medidas tomadas: "lockdown measures had not managed to stop ordinary colds and respiratory illnesses, such as rhinoviruses - which had dropped slightly during lockdown but bounced back soon after".

Ora é exactamente este efeito de boomerang que caracteriza os efeitos de longo prazo associados à eliminação de invasoras ou do fogo através de medidas drásticas e temporalmente limitadas, que não alteram o essencial das características naturais desses processos e se dirigem apenas aos resultados visíveis: depois de uns primeiros êxitos retumbantes, é uma questão de tempo até esses processos naturais voltarem mais fortes e mais difíceis de controlar.

A mim, e digo-o a partir de uma posição ideológica apriorística - a de que somos demasiado pequenos e impotentes para controlarmos a natureza, para todo o sempre, ao mesmo tempo e em todo o lado, como se nós próprios não fôssemos um produto dos processos naturais - parece-me que estamos na enésima promessa de uma sociedade nova, criada por um homem novo, que nos levará à felicidade eterna, sendo mais provável que essa promessa nos leve onde sempre levaram essas promessas que ao cumprimento delas.

A ideia de que daqui para a frente é fantástico adoptar as mesmas medidas que deram este resultado - e nem estou a discutir os resultados que foram obtidos fora da Nova Zelândia para explicitar as minhas dúvidas sobre a exequibilidade de estender a todo o lado a abordagem neo-zelandesa - passando nós a governar sociedades inteiras tendo como objectivo principal garantir a sua assépsia, e não o bem estar e a liberdade dos indivíduos, é uma ideia aterradora, mesmo que me seja apresentada com a vantagem da diminuição de 1500 mortes em excesso por ano.

Na verdade há anos que caminhamos nesse sentido em relação às crianças e as evidências de que isso as deixa menos protegidas para enfrentar o mundo são esmagadoras: parece que precisamos de treinar os nossos sistemas imunitários para não estar à mercê do primeiro problema que tenha fugido do controlo.

Claro que é bom prolongar a vida a 1500 pessoas por ano, aumentar a esperança média de vida e a humanidade tem conseguido muitos e bons resultados nessa matéria.

Mas isso não significa que qualquer meio seja razoável para obter esse fim, não só pelo que isso significa de sofrimento para milhares de outras pessoas que viram a sua vida de pantanas por causa das medidas tomadas, mas também porque há pouca evidência de que, a longo prazo, seja boa ideia adoptar sistemas deste tipo para lidar com doenças infecciosas.

Ontem vi uma entrevista em que uma alemã dizia uma coisa que me pareceu bastante sensata: não é possível evitar contágios em lares, o que é possível é organizar os lares de modo a que um contágio tenha maior dificuldade de se espalhar internamente.

Mutatis mutandis, é o que me parece racional: não é possível eliminar as infecções, os surtos e as epidemias, o que é possível é procurar encontrar formas saudáveis e sustentáveis das nossas sociedades lidarem com as suas consequências, mantendo o que as caracteriza como sociedades humanas livres e solidárias, e não procurando desenhar sociedades totalitárias como condição de eficácia para esmagar epidemias.



4 comentários

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De Anónimo a 13.10.2020 às 10:25

até já gosto de bola e desenhos desanimados
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De balio a 13.10.2020 às 15:11


Estive hoje a ver no telejornal os números sobre a progressão dos infeções por SARS-COV-2.
Os jornalistas bem fazem por nos alarmar com números chocantes, mas a verdade é que os números não são nada chocantes.
Tanto quanto percebi, os novos casos de infeção em Portugal, França, Espanha, Itália, Rússia, Reino Unido, etc são todos mais ou menos os mesmos: 1000 a 1500 novos casos por dia e por cada 10 milhões de habitantes.
Trata-se de números perfeitamente geríveis por qualquer sistema de saúde e que parecem mostrar que a epidemia está estabilizada, ou a perder o vigor, por todo o lado.
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De Tiro ao Alvo a 13.10.2020 às 19:02

Não pode haver dúvidas de que a solução “lares de internamento para idosos" é uma solução de último recurso, que cria muitos problemas à sociedade e provoca muito sofrimento aos idosos internados, como veio demonstrar o caos que se vive e viverá em muitos deles. Para quem tinha dúvidas, a pandemia por covid 19 é bem esclarecedora.

A natureza é avessa a grandes aglomerações de indivíduos da mesma espécie, que ficam mais protegidos quando dispersos. No caso dos humanos, o melhor é integrá-los em famílias, mais ou menos numerosas. As famílias monoparentais também não são solução: os homens e as mulheres são seres sociais, que se devem proteger mutuamente.

Por tudo isto, defendo que os chamados “lares de idosos” não devem albergar mais do que meias dúzia de indivíduos, privilegiando e favorecendo a sua manutenção/integração na família.

Nesse sentido, acho que deveriam ser premiados os parentes que tomem o encargo de cuidar os seus idosos. O Estado, que vem financiando o internamento (à razão de cerca de 500 euros por mês e por cabeça), deveria criar uma prestação social, tipo abono de família, a favor dos cuidadores, em especial das famílias mais carenciadas.

E, se assim fosse feito, o problema dos lares ficava muito atenuado, libertando meios para melhorar as redes de hospitais de cuidados paliativos ou continuados.

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De Anónimo a 13.10.2020 às 20:41

https://observador.pt/programas/ideias-feitas/os-donos-disto-tudo-nao-se-confinam-porque/



Sim, porquê??? Porque tem esta gente regras paro nós que não se lhes aplicam também?

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