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Aprendizes de feiticeiro

por henrique pereira dos santos, em 31.08.20

"... Eu própria mais ou menos que me conformei com ideia de que existe uma boa probabilidade de apanhar a coisa e não é algo que me ponha em grande nervosismo. Preferia evitar porque é um pesadelo logístico, mas não muito para além de isso. ... No entanto, não me sinto particularmente corajosa - nem sou. Sou mais inconsciente ... Ou seja, não sou grande exemplo de comportamento responsável e agradeço que a sociedade seja composta de pessoas que são mais responsáveis do que eu. ... Depois de uma primeira fase em que andava abismada com o pânico dos meus conterrâneos, percebi que este medo tem uma função positiva. É provavelmente um dos factores que leva a que, neste momento, os infectados não estejam a resultar em mortes. As pessoas que correm mais riscos mudaram o comportamento e protegem-se. É por isso que a brigada anti-medo me enerva. Na dose certa, é bom".

Este comentário, de uma pessoa que não conheço pessoalmente mas que me parece bastante sensata nisto tudo, é uma boa ilustração das razões pelas quais não é preciso teoria de conspiração nenhuma para perceber o caminho que as coisas tomaram.

Filipe Froes, há poucos anos, falava sobre as doenças pulmonares da mesma forma que hoje fala da covid, referindo as 81 pessoas internadas todos os dias, dos quais 16 pessoas (umas quatro vezes mais que as que morrem hoje com covid, em Portugal) que todos os dias morriam, de como isso nos custava um milhão de euros a cada quatro dias, e como isso poderia ser bastante melhorado se as pessoas se se portassem bem.

Não admira, por isso, que olhe para o medo como um auxiliar precioso para salvar vidas: quando as pessoas se assustam, e se sentem pessoal e verdadeiramente ameaçadas, mudam comportamentos ao ponto de fumadores que nunca tinham conseguido deixar de fumar, ou pessoas com excesso de peso, de repente, de um momento para o outro, conseguirem mudar e fazer o que sempre acharam que não eram capazes de fazer.

Perante a convicção de há uma ameaça verdadeiramente relevante, Filipe Froes, seguindo aliás a opção da OMS, facilmente abandona o longo, trabalhoso, caro e incerto caminho de tratar as pessoas racionalmente, esperando que adoptem comportamentos defensivos por sua iniciativa, e cavalga a opção de usar o medo para manipular emocionalmente a sociedade para salvar vidas, tarefa largamente facilitada por uma imprensa que se vê cada vez mais como um instrumento de auto-ajuda, apoiando as causas que não podem ser questionadas, e cada vez menos como um veículo de produção e transmissão de informação neutra.

Suponho que seja por isso que estudos da treta - alguns são mesmo, mesmo da treta, outros parecem não ser da treta mas assentam mais em modelos e raciocínios que em dados empíricos - que falam dos riscos de abertura das escolas tenham bastante mais impacto mediático e, consequentemente, social, que estudos assentes em dados empíricos que contrariam a ideia de que as medidas não farmacológicas tenham uma grande importância na evolução da epidemia, como este.

O resumo é este, mas o artigo todo é bastante interessante e vale a pena seguir a ligação para o PDF:

"We document four facts about the COVID-19 pandemic worldwide relevant for those studying the impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) on COVID-19 transmission. First: across all countries and U.S. states that we study, the growth rates of daily deaths from COVID-19 fell from a wide range of initially high levels to levels close to zero within 20-30 days after each region experienced 25 cumulative deaths. Second: after this initial period, growth rates of daily deaths have hovered around zero or below everywhere in the world. Third: the cross section standard deviation of growth rates of daily deaths across locations fell very rapidly in the first 10 days of the epidemic and has remained at a relatively low level since then. Fourth: when interpreted through a range of epidemiological models, these first three facts about the growth rate of COVID deaths imply that both the effective reproduction numbers and transmission rates of COVID-19 fell from widely dispersed initial levels and the effective reproduction number has hovered around one after the first 30 days of the epidemic virtually everywhere in the world. We argue that failing to account for these four stylized facts may result in overstating the importance of policy mandated NPIs for shaping the progression of this deadly pandemic".

No fundo, a grande linha de fractura ideológica na forma de olhar para uma epidemia é entre os que consideram que a epidemia é muito mais perigosa que o pânico social, considerando o medo como um bom aliado para limitar os seus efeitos negativos - a linha actualmente dominante -, e os que têm mais medo dos efeitos negativos do pânico social e, por isso, são muito cautelosos na forma como olham para a gestão do medo, considerando que a sua obrigação moral é combater racionalmente o medo que ultrapassa o limite a partir do qual deixa de ser um instrumento de defesa e passa a ser uma rede paralisante.

Um bom exemplo de manipulação social com base no medo colectivo é o artigo de hoje do Público, de Maria João Guimarães, sobre a abertura de escolas na Europa.

A facilidade com que se omitem os países que não encaixam na "linha justa", mas sobretudo a mais completa ausência de qualquer esforço de racionalização que permita perguntar que raio de fundamentação está na base de medidas completamente díspares em cada país, a inacreditável facilidade com se abusa do exemplo israelita, sem uma verdadeira confrontação com os factos, só é possível porque a ideia de que, na dose certa, o medo é bom, é uma ideia generalizada, profundamente enraízada, sem que seja necessário cada um de nós perguntar-se:

o que é a "dose certa" de medo, neste caso? a que a sociedade estabelece livremente - com base na informação de que dispõe, claro - em todas as epidemias, ou a que as autoridades de saúde determinam em cada momento, com fundamentações obscuras?

Pessoalmente, ao ver a facilidade com que a Direcção Geral de Saúde toma uma decisão completamente ilegal - todos os documentos de um processo que está decidido são públicos, portanto recusar-se a sua divulgação é claramente ilegal, como a Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos e os tribunais têm reiteradamente dito - demonstra bem como é perigosa a ideia de que tudo o que for feito pelas autoridades se justifica e não precisa de ser escrutinado, como deveria acontecer com qualquer exercício do poder, e especialmente com o poder que é exercido em nome de causas consideradas indiscutíveis.

O medo existe sempre numa epidemia, é um factor a ser considerado seriamente por toda a gente, mas é bom que não se entregue todo o poder de manipulação desse medo ao fascismo sanitário: há poucas coisas mais mortíferas que as ideias piedosas aplicadas sem ponderação de todos os factores e eliminando a dissidência.

Como me lembravam um dia destes numa destas discussões, será bom não nos esquecermos como há tão pouco tempo havia quem considerasse a dissidência uma doença psiquiátrica a ser combatida para garantir o bem de todos e, em especial, o bem do dissidente.



3 comentários

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De voza0db a 31.08.2020 às 22:18


Claramente o MEDO tolha o pensamento crítico de todo o ignorante... E então apaga qualquer memória de FRAUDES IGUAIS e que nem sequer acontecer há séculos!


Apreciem... (caso passe na pré-censura tuga)!


https://youtu.be/kB0MEjHgkfM


Há segunda AINDA LUCRAM MAIS!
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De balio a 01.09.2020 às 09:32


este medo tem uma função positiva. É provavelmente um dos factores que leva a que, neste momento, os infectados não estejam a resultar em mortes. As pessoas que correm mais riscos mudaram o comportamento e protegem-se.



Acho esta teoria completamente disparatada.


Nem as pessoas que correm mais riscos têm muitas possibilidades de se proteger, nem certamente as pessoas se estão a proteger mais agora do que durante o período de lockdown - período esse em que havia muito mais mortes.


Se os infetados não estão a resultar em mortes, isso só se pode dever a uma evolução do vírus, que se tornou menos agressivo.
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De balio a 01.09.2020 às 14:36


referindo as 81 pessoas internadas todos os dias, dos quais 16 pessoas que todos os dias morriam, de como isso nos custava um milhão de euros a cada quatro dias, e como isso poderia ser bastante melhorado se as pessoas se se portassem bem



Isto não é bem assim. As pessoas têm sempre que morrer de alguma forma e, em geral, antes de morrerem os seus tratamentos de saúde custam bastante dinheiro. A questão é portanto somente a de saber qual a forma de morrer que é menos cara.


Se as pessoas não morrerem de cancro do pulmão, que é uma doença horrível mas relativamente barata porque geralmetne quando é descoberta já não há tratamento possível e o canceroso morre em menos de seis meses, então podem acabar por morrer de Alzheimer, que é uma doença muito mais cara porque se arrasta durante anos e exige um acompanahamento permanente do doente.


É falso que o vício de fumar custe muito dinheiro à sociedade. Pelo contrário, poupa-lhe muito dinheiro, porque os fumadores tendem a morrer novos (ou pouco velhos) e portanto a custarem pouco dinheiro em reformas.

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