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Ao gato e ao rato

por henrique pereira dos santos, em 29.05.20

Penso não ser segredo o meu cepticismo em relação ao efeito das medidas não farmacêuticas radicais como forma de acabar com surtos epidémicos.

Esse cepticismo tem origem na informação científica sobre o assunto, que identifica algumas medidas não farmacêuticas como claramente úteis (lavar as mãos, adoptar uma etiqueta respiratória prudencial, reduzir contactos sociais, em especial grandes aglomerações em espaços fechados), identifica outras como muito controversas e com informação contraditória (fecho de escolas, fecho de locais de trabalho, uso de máscaras por parte de pessoas saudáveis) e não tem qualquer informação útil sobre outras medidas (o confinamento geral de populações sem sintomas).

Em qualquer caso, não tenho dificuldade em admitir que todas essas medidas possam ter algum efeito na forma como se desenrola um surto, o meu cepticismo limita-se a dizer que não há evidências nenhumas de que os efeitos positivos de algumas dessas medidas mais radicais não sejam largamente inferiores aos seus efeitos sociais negativos e que, consequentemente, é absurdo andar a fazer experimentação social com medidas nunca aplicadas e nunca testadas quando o que se conhece dessas medidas é que de um lado da balança há efeitos positivos eventuais e de magnitude não definida, e do outro efeitos sociais negativos brutais e certos.

É uma forma de decisão de políticas públicas assente nos mesmos princípios dos jogadores num casino, com a diferença de que o jogador joga o que é seu, e os governos jogam o que é dos outros numa típica aplicação do provérbio de que uns comem os figos e aos outros rebenta-lhes a boca.

Com a agravante dos maiores perdedores serem sempre os mais pobres e mais frágeis.

Dito isto tudo, será bom lembrar que se o meu cepticismo estiver completamente errado, e se os princípios que estão na base das políticas radicais de sequestro domiciliário de pessoas sem culpa formada estiverem certas, o que a teoria diz é que o eventual achatamento da curva é feito à custa de dois efeitos futuros: 1) prolongamento do surto por mais tempo; 2) um longo período a jogar ao gato e ao rato com a infecção que vai aparecendo e desaparecendo em pequenos surtos aqui e ali, por razões conjunturais e porque as cadeias de contágio não foram suficientemente enfraquecidas pela imunização dos mais susceptíveis.

Vamos precisar de tempo para tirar mais conclusões da experiência social que resolvemos fazer.

Infelizmente, ao contrário da Suécia, em que as autoridades prontamente admitiram que falharam na protecção dos lares, ou da Noruega, em que as autoridades já concluíram que o fecho de escolas foi um erro e não se justificava, em Portugal as avaliações costumam concluir sempre que foi feito tudo o que foi possível e que se alguma coisa correu mal a responsabilidade é da prima.

 



7 comentários

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De Luís Lavoura a 29.05.2020 às 11:29

reduzir contactos sociais, em especial grandes aglomerações em espaços fechados

Mas então meter aviões cheios a transportar turistas de Inglaterra para Portugal pode ser muito má ideia. Um turista no avião contamina mais meia dúzia, os quais, numa semana passada em Portugal, contaminam uma dúzia de portugueses.

E, no entanto, sem turistas vindos do estrangeiro, a nossa economia está frita...
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De pitosga a 29.05.2020 às 12:13


Henrique Pereira dos Santos,
Como lhe escrevi há muitos, muitos, meses, ainda no tempo dos incêndios, o senhor começou a 'sair da casca' e a escrever de um modo mais confiante. Sempre apreciei os seus escritos que eu sentia serem honestos e lógicos.

Agora, no 'Corta-Fitas', tem sido um dos contribuintes mais férteis. Donde lhe advém alguma responsabilidade — a de aceitar ou 'dar trela' a uns patetas, ou de recusar tais 'esmolas'.

Isto é julgado pela minha elevada auto-estima. Auto-estima que foi tão só construída pelos mais novos que moldei na Arte de practicar Medicina correctamente — sem normas, somente raciocinando. Sem títulos gongóricos, era chamado de 'Mestre'.

Sugiro que use a electrónica para eliminar ou admoestar uns — de Ourique e de Lavoura.
     O de Ourique é psicopata.
     Sabe que no Delito de Opinião há um mandão, reles, que posta a 'Lavourada da Semana'.
Não proponho ser-se ordinário e, muito menos, que se desculpe a doença mental.


Estimo-o e não gosto de o ver cair em esparrelas.
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De Eremita a 29.05.2020 às 17:26

Psicopata... Creio que já me tinham tratado assim neste espaço civilizadíssimo. Leia Camilo se quer melhorar no insulto. Enfim, leva 0 em originalidade mas como aposto que não me diria isso na cara, dou-lhe a nota máxima em cobardia.
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De Anónimo a 30.05.2020 às 14:30

memórias do cárcere
«O velho era um fidalgo do Alto Douro, que residia no Porto, onde esmolava para si e sua velha consorte a parca subsistência, que algumas famílias nobres lhes davam. Servira a pátria na guerra peninsular, e armara e arreara à sua custa um esquadrão de cavalaria. Saudara a ideia da liberdade, e desterrara­‑se por amor dela. Voltando à pátria encontrara sua mulher desapossada de quatro vínculos, e senhora apenas de propriedades incapazes de ocorrer à sustentação de ambos. Litigou os bens, que eu não sei se de justiça lhe pertenciam, e perdeu os pleitos, consumindo o restante de seus haveres no custeio da justiça.»

estamos no mau caminho
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De Luís Lavoura a 29.05.2020 às 14:56

experimentação social com medidas [que causam] efeitos sociais negativos brutais e certos

Eu creio que grande parte dos efeitos sociais negativos não derivam realmente das medidas tomadas pelos governos, mas sim do pânico sentido pela população. Ou seja, esses efeitos sociais negativos teriam em grande parte sido os mesmos, quaisquer que tivessem sido as medidas tomadas pelos governos.

O principal efeito social negativo desta epidemia está a ser o colapso económico. Esse colapso é causado por uma brutal queda da procura, a qual é causada pelo medo sentido pela população, muito mais do que pelas medidas tomadas pelos governos.
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De Luís Lavoura a 29.05.2020 às 14:59

se alguma coisa correu mal a responsabilidade é da prima

Neste caso não é bem assim. Neste caso, se alguma coisa correr mal, o governo dirá sempre que "se tivéssemos agido de outra forma, teria sido ainda muito pior", ou seja, teria havido muito mais mortos, etc. E esse argumento é imbatível, porque nunca ninguém saberá ao certo o que teria acontecido se o governo tivesse agido de outra forma.
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De Anónimo a 30.05.2020 às 01:08


Quanto ao efeito das medidas farmacêuticas.

Uma empresa anuncia um seu fármaco como sendo eficiente no tratamento deste vírus. Exito em bolsa. Constata-se que os próprios Adms venderam as suas acções. Descalabro em bolsa.

A Lancet atira-se contra o uso da HCQ como tratamento para este vírus, mas com dados discutíveis. Constata-se que foi (mais) um passo em falso desta revista médica. Porquê essa acrimónia em relação à HCQ?. Por ser demasiado barata?. Difícil de replicar para vender mais caro, apenas com outro nome?. Porque a politicamente correcta comunicação social elegeu Trump como o autor de todos os males do mundo?.

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