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Penso não ser segredo o meu cepticismo em relação ao efeito das medidas não farmacêuticas radicais como forma de acabar com surtos epidémicos.
Esse cepticismo tem origem na informação científica sobre o assunto, que identifica algumas medidas não farmacêuticas como claramente úteis (lavar as mãos, adoptar uma etiqueta respiratória prudencial, reduzir contactos sociais, em especial grandes aglomerações em espaços fechados), identifica outras como muito controversas e com informação contraditória (fecho de escolas, fecho de locais de trabalho, uso de máscaras por parte de pessoas saudáveis) e não tem qualquer informação útil sobre outras medidas (o confinamento geral de populações sem sintomas).
Em qualquer caso, não tenho dificuldade em admitir que todas essas medidas possam ter algum efeito na forma como se desenrola um surto, o meu cepticismo limita-se a dizer que não há evidências nenhumas de que os efeitos positivos de algumas dessas medidas mais radicais não sejam largamente inferiores aos seus efeitos sociais negativos e que, consequentemente, é absurdo andar a fazer experimentação social com medidas nunca aplicadas e nunca testadas quando o que se conhece dessas medidas é que de um lado da balança há efeitos positivos eventuais e de magnitude não definida, e do outro efeitos sociais negativos brutais e certos.
É uma forma de decisão de políticas públicas assente nos mesmos princípios dos jogadores num casino, com a diferença de que o jogador joga o que é seu, e os governos jogam o que é dos outros numa típica aplicação do provérbio de que uns comem os figos e aos outros rebenta-lhes a boca.
Com a agravante dos maiores perdedores serem sempre os mais pobres e mais frágeis.
Dito isto tudo, será bom lembrar que se o meu cepticismo estiver completamente errado, e se os princípios que estão na base das políticas radicais de sequestro domiciliário de pessoas sem culpa formada estiverem certas, o que a teoria diz é que o eventual achatamento da curva é feito à custa de dois efeitos futuros: 1) prolongamento do surto por mais tempo; 2) um longo período a jogar ao gato e ao rato com a infecção que vai aparecendo e desaparecendo em pequenos surtos aqui e ali, por razões conjunturais e porque as cadeias de contágio não foram suficientemente enfraquecidas pela imunização dos mais susceptíveis.
Vamos precisar de tempo para tirar mais conclusões da experiência social que resolvemos fazer.
Infelizmente, ao contrário da Suécia, em que as autoridades prontamente admitiram que falharam na protecção dos lares, ou da Noruega, em que as autoridades já concluíram que o fecho de escolas foi um erro e não se justificava, em Portugal as avaliações costumam concluir sempre que foi feito tudo o que foi possível e que se alguma coisa correu mal a responsabilidade é da prima.
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