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Anti-capitalismo primário

por henrique pereira dos santos, em 06.05.22

Ouvi há um bocado, no rádio, o Luís Aguiar Conraria a usar a expressão do título para falar dos demagogos que andaram a alimentar a histeria contra a hipótese de que as gasolineiras teriam metido ao bolso a baixa de impostos sobre combustíveis (histeria essa alimentada pelo Governo mas sem ponta por onde se lhe pegue).

Provavelmente dei mais atenção à expressão por ter lido o artigo de Carmo Afonso, no Público de hoje, teorizando sobre o efeito de boomerang que as críticas ao PC por causa da Ucrânia poderão provocar, fortalecendo o PC (questão de grande relevância nacional, anda mais de 90% do país sem dormir, com a preocupação de saber se o PC está a desaparecer ou se vai se ter um novo alento em reacção ao anti-comunismo primário que ressuma dessas críticas).

O artigo de Carmo Afonso é um artigo muito divertido - eu sempre tive um carinho especial por crónicas de realidades alternativas, desde que não pretendam sê-lo - e está dentro do que se pode esperar vindo de quem vem.

Apesar de bastante frívola, a questão que me interessa é esta: por que raio contratou o Público umas pessoas (não, não é só Carmo Afonso, Cristina Roldão é outro exemplo e não são as únicas) para escrever crónicas cujas características principais se podem resumir no seguinte:

1) a realidade é uma irrelevância;

2) as palavras e os conceitos usados são sobretudo identificadores de grupos sociais moralmente superiores ("Devo criticar uma pessoa racializada em frente a alguém racista?");

3) não existem leitores, escreve-se essencialmente para levar o rebanho ao curral, e não para contribuir para que todos nós possamos fazer juízos mais informados sobre o que nos rodeia.

Destas características parece resultar muito pouco valor para o jornal, na medida em que resulta em textos frequentemente pueris, frequentemente sobre assuntos que interessam a muito pouca gente, tratados de forma intelectualmente indigente, ou seja, com muito pouca capacidade de levar alguém a pagar pelo jornal.

Poder-se-ia argumentar que o jornal procura a diversidade e por isso está interessado em que nas suas páginas exista opinião com uma grande diversidade, incluindo tolices com as quais o leitor mediano facilmente se identifica, independentemente de serem asneiras monumentais ("O preço dos combustíveis é um bom exemplo. Diziam que o problema era a carga fiscal. A carga fiscal foi substancialmente reduzida e claro que o problema persiste. A verdade é que os lucros das petrolíferas se apresentam exorbitantes e são a explicação cabal para o aumento dos preços a que assistimos").

A verdade é que o jornal nunca procurou ter, nas suas páginas, representação de opinião liberal, de opinião nacionalista, de opinião populista de direita, de opinião monárquica, etc..

A questão do valor para o jornal é secundária: o jornal vive da caridade da família Azevedo e por isso é-lhe indiferente o respeito pelos leitores e a criação de valor associada.

O jornal, como a generalidade dos jornalistas em Portugal (talvez a classe profissional mais corporativa que conheço, e o campeonato é muito competitivo em Portugal) são mesmo anti-capitalistas primários - basta ver a forma como noticiaram o aumento de 500% dos lucros da GALP, que não tem nenhuma relação com a sua operação de distribuição em Portugal e muito menos com o preço dos combustíveis nas bombas de gasolina portuguesas - e fazem questão de marcar muito bem essa fronteira.

Uma das maneiras é criarem um desequilíbrio manifesto na opinião que publicam, não se importando de contratar cronistas medíocres, desde que seja a mediocridade do bem, que evidentemente inclui o anti-capitalismo primário.



7 comentários

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De setepartidas a 06.05.2022 às 18:46

Gosto bastante dos posts de henrique p. dos santos :). No entanto, peço desculpa, até por eu estar a anos-luz das qualidades literárias de que é possuidor, mas surpreendeu-me ler «...o artigo de Carmo Afonso», certo de que ficaria muito melhor «da Carmo Afonso», coisa que não colide com absolutamente nada e agradaria v. g. a um João de Araújo Correia. Cumprimentos.
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De henrique pereira dos santos a 07.05.2022 às 07:28

As duas fórmulas estão correctas, mas eu não andei na escola com Carmo Afonso e portanto uso de Carmo Afonso
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De Carlos Guerreiro a 07.05.2022 às 00:33

O Público é a taxa que a família Azevedo paga para ter paz social nas suas empresas. Alguém se lembra de protestos em frente do Continente como é costume com o Pingo Doce?
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De Ricardo a 07.05.2022 às 11:33

Os capitalistas financiam o jornalismo esquerdista(supostamente anti-capitalista)?(pergunta retórica). Devíamos é estar atentos ao seguinte : "Há outras associações com agentes de Putin a "colaborar" com mais autarquias(além de Setuúbal).Isto mostra o nível de desantenção dos nossos serviços de informação,mais interessados em espiar portugueses para informarem o governo do que em espiar agentes estrangeiros.A situação é tão absurda que só se entende pela total falta de sentido de Estado e pela bandalheira em que o governo colocou serviços de informação e SEF,que está à beira do colapso institucional e não cumpre serviços mínimos.Torna-se fácil ao KGB de Putin colocar agentes a "colaborar" com autarquias.A denuncia do ps em Setúbal fez ricochete: a bandalheira de instituições dirigidas pelo governo ficou também à vista.Esta falta de cultura nacional que vigora no país é a mesma que leva canais de TV a contratar militares portugueses agentes de Putin mentindo e putinizando sobre a Ucrania.Uma coisa é exercer a liberdade de opinião,outra é exercer a estupidez: entregar "comentário" militar a agentes estrangeiros é resultado dessa falta de cultura nacional.A invasão da Ucrania tem permitido ver como é grande a influência da ditadura russa em Portugal." (Do artigo Panóptico de Cintra Torres no CM)
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De Vasco Silveira a 09.05.2022 às 11:27

..."desde que seja a mediocridade do bem, que evidentemente inclui o anti-capitalismo primário."



Caro senhor


Esta sua frase, que transcrevo  acima, é lapidar: descreve na perfeição o jornal  O Público, a generalidade dos meios de comunicação, tal como  a "novilíngua" política e cultural (???) que domina o debate público.
Estamos condenados a uma mediocridade beata, não de Deus, mas de pequenas causas: como disse Chesterton," quando o homem deixa de acreditar em Deus, passa a acreditar ... em tudo!"


Muito obrigado, e cumprimentos


Vasco Silveira



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De Augusto Faria a 12.05.2022 às 14:01

Então e aqui no Corta-fitas não há ninguém de esquerda?

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