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Onde escrevi alterações climáticas, poderia ter escrito ordenamento do território, por exemplo, isto é, questões gerais que servem essencialmente para tirar o foco do que realmente interessa quando se discutem respostas a situações excepcionais.
Para fechar o assunto do ordenamento do território, vir dizer que com uma verdadeira política de ordenamento do território, vontade política e recursos era possível evitar os efeitos negativos das cheias em Alcácer do Sal é o mesmo que dizer que se está a propor retirar o aterro que foi feito sobre o rio, destruir grande parte da zona velha de Alcácer que está em leito de cheia, desmantelar a praça de toiros que, com aquela localização e as actuais circunstâncias, será sempre mais fácil de encher com água que com espectadores e, talvez, aproximarmo-nos do que era a zona ribeirinha de Alcácer no fim do século XIX e princípio do século XX (e que, ainda assim, não a livrava de cheias).
A questão das alterações climáticas, invocadas a cada novo fenómeno meteorológico que capta a atenção de todos nós, em especial quando dele resultam consequências negativas relevantes (um dia destes ainda escrevo sobre o facto das cheias serem uma benção, com custos, mas uma benção) é especialmente irritante porque é frequentemente feita por quem tem a obrigação de saber perfeitamente (e, frequentemente, sabe) que clima é o estudos dos padrões de ocorrência dos fenómenos meteorológicos e, consequentemente, nenhum fenómeno meteorológico, por mais raro que seja, serve para demonstrar um padrão que é definido com trinta anos de observações.
O máximo que um fenómeno meteorológico pode fazer é dar indícios sobre alterações de padrão, mas isso só tem relevância quando se confirmar a alteração de padrão, muitas observações depois.
A propósito de fenómenos meteorológicos extremos, das suas consequências e da resposta da sociedade a essas consequências, vir falar de alterações climáticas, tem apenas um efeito prático: desviar atenções do que os gestores chamariam KPI, ou seja, em português menos gestionário, os factores essenciais que explicam os processos que estão a ocorrer.
Para mim é muito mais fácil falar dos fogos, em que é perfeitamente claro que o KPI relevante é a gestão dos combustíveis finos, quer esteja ou não esteja a haver alterações de padrão de ocorrência de condições meteorológicas que sempre ocorreram e que vão sempre ocorrer, mesmo que em padrões diferentes.
Mas mesmo na resposta à tempestade do dia 28, que convém não confundir com o episódio de cheias em curso, ou a um provável sismo qualquer dia, é para mim relativamente fácil perceber que não é na discussão sobre a previsibilidade do fenómeno, ou na discussão sobre os avisos e alertas (ponho avisos e alertas para evitar comentários inúteis sobre a diferença entre aviso e alerta, uma tecnicalidade que só interessa a quem tem de gerir o sistema de avisos e alertas) que está a discussão fundamental.
Há duas discussões fundamentais nestas matérias.
Uma, a ser feita com tempo, fora da situação de catástrofe, prende-se com a avaliação do que aconteceu para que se identifiquem os erros que podem já ser evitados da próxima vez, e os problemas que precisam de um esforço maior para que sejam mais bem geridos no futuro (aí sim, ordenamento do território, alterações climáticas e matérias afins, devem estar à volta da mesa da discussão, juntamente com a discussão sobre custos, eficiência económica e social, exequibilidade política e essas minudências a que se costuma chamar vontade política quando se quer evitar a discussão concreta sobre o "como" actuar).
Outra, a ser feita de forma contínua, prende-se com a forma como a sociedade se organiza para responder à incerteza sobre o futuro, que é uma forma complicada de designar a protecção civil e coisas afins.
Não sei o suficiente sobre protecção civil, resposta a catástrofes e coisas que tais, mas tenho a intuição, uma intuição informada e com muitas horas de discussão no caso dos fogos, de que se continuarmos a assentar a resposta a catástrofes e à incerteza numa estrutura institucional assente em corpos de bombeiros que prestam poucas contas e alimentam carreiras profissionais que desaguam nos lugares de decisão dessa protecção civil, sem grande preocupação com o mérito e as provas dadas, com uma cultura de reacção em detrimento de previsão, organização e avaliação constante que permita aprender com cada intervenção, não vamos melhorar muito, durante muito tempo.
Nestas circunstâncias, falar de alterações climáticas ou ordenamento deo território nestas alturas, por melhores intenções que se tenham, só serve para desviar a atenção para a necessária discussão institucional que, essa sim, é um factor chave do processo a que precisamos de dar atenção.
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