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Ainda os porcos, as pessoas e os fogos

por henrique pereira dos santos, em 29.06.18

Quando tive de escrever uma tese, acabei por produzir uma série de mapas, dos quais reproduzo aqui umas versões preliminares que servem para o que quero dizer, referentes à produção de porco por concelho.

porcos1920.jpg

No primeiro mapa está a densidade de porcos por hectare, por concelho, ali por volta de 1920.

porcos1999.jpg

 Neste segundo mapa é exactamente a mesma coisa, mas em 1999, isto é, os dois mapas comparam a densidade de porcos por hectare, por concelho, no início do século XX e no fim do século XX.

porcosporpessoa1920.jpg

 Por curiosidade este terceiro mapa mostra a número de porcos, agora já não por área, mas por pessoa, também em 1920.

O que os mapas mostram é que no início do século XX a produção de porco era estreitamente dependente do território, havendo dois sistemas diferentes de produção:

  • o porco está estabulado e funciona como a central de tratamento de resíduos orgânicos da exploração, o que acontece na metade Norte, havendo tanto mais porcos quanto mais produção e mais gente existe (isso é verificável nos mapas de densidade populacional, produção de cereais, etc.), por isso há uma densidade apreciável de porcos no Noroeste do país, a sua região mais produtiva;
  • o porco é criado de montanheira, isto é, em varas que andam livremente no montado, em especial no montado de azinho (não é visível no mapa, mas usando uma escala de cores mais fina é fácil verificar que a densidade é maior no Alentejo interior, isto é, no domínio da azinheira).

Se a diferença dos sistemas de produção não é visível quando se olha para o número de porcos por área, ela é muito evidente quando se olha para o número de porcos por pessoa, no terceiro mapa.

O que me interessa é olhar para a comparação para o fim do século XX e verificar que a produção de porco deixa de ter grande relação com o território e concentra-se no litoral, na envolvente de Lisboa, nos sítios onde hoje ouvimos as histórias das descargas de efluentes em ribeiras  e coisas que tais, porque a produção passou a ser feita com base em rações vindas de qualquer lado do mundo, e não a partir da produção do território.

Para além da peste suína africana, que em meados do século XX liquidou a produção de montanheira, com efeitos desastrosos da gestão do montado de azinho, esta alteração de modelo produtivo responde a tendências globais, quer de consumo (“Entre os quinquénios 1980-84 e 1999-03 a capitação diária de calorias aumentou 20%*; aumentou a capitação diária de proteínas (+34%), de hidratos de carbono (+11%) e de gorduras (+6%)*;… a capitação bruta anual de leite e produtos lácteos aumentou de 76 para 125 kg. * Sem bebidas” “Portugal Agrícola 1980-2006”, (INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA, 2007, pág. 4)), quer de comércio, quer tecnológicas, quer de comércio mundial, progressivamente mais aberto, quer ainda demográficas, como a emigração maciça dos anos sessenta e setenta.

Pretender que a rarefacção populacional do interior é uma consequência do abandono do Estado é não perceber nada das alterações económicas e sociais que se foram sucedendo ao longo do século XX. E não perceber que são estas alterações que induzem a falta de gestão do mundo rural onde nasce o padrão de fogo que temos (por uma evidente acumulação e disponibilidade de combustíveis) é também não perceber nada do mundo que nos rodeia.

Aqui chegados, ter uma política pública agrícola que mantém um caracter dirigista que pretende apoiar o rendimento dos agricultores só pode resultar na armadilha de fogo em que estamos: o Estado gasta os seus recursos para o mundo rural apoiando fileiras produtivas (porco, leite, regadio, etc.), em vez de usar o dinheiro dos contribuintes para resolver as falhas de mercado que existem e que induzem a falta de gestão que permite o livre curso do fogo, independentemente da nossa vontade e dos aviões que alugamos para o apagar.

Perante este quadro, o Estado legisla (é bastante conhecido o gráfico da tese de doutoramento de Tiago Oliveira que relaciona a área ardida e a produção legislativa), como se um problema de ausência de gestão fosse um problema legal.

Mas não só legisla como legisla aumentando as obrigações dos proprietários, que o mesmo é dizer, a sua despesa, ao mesmo tempo que reduz o rendimento, obrigando a compassos de plantação completamente absurdos do ponto de vista da economia e da gestão de combustíveis, agravando as causas do problema, em vez de as atacar.

O Estado faz ainda mais e vale a pena ler este bocadinho, de um desesperado consultor, sobre a forma como o Estado aplica os dinheiros disponíveis para a prevenção estrutural dos incêndios:

"Veja-se a forma como o PDR funciona , através da escolha e medição dos parâmetros, critérios, e ponderação que usa para determinar a VGO (Valia Geral de Operação), sempre com uma enorme tendência para se desviar do dificil minifúndio. E o problema é que tem sido um processo crescente de desvalorização dos, já de si dificeis de elaborar e concretizar, projectos em minifúndio, como se pode constatar por exemplo, pelo facto de que as mesmas candidaturas teriam uma pontuação muito alta com os critérios do PRODER e muito baixa com os do PDR, como se vê para o caso concreto da candidatura XPTO:

  • 2010-2014 – PRODER – VGO = 19,5 com critérios:90% risco de incêndio, 10% outros: dimensão, pertença a ZIF, áreas críticas
  • 2015-2017 –primeiros concursos PDR2020 – VGO = 14 com critérios: 50%! maior que 1 ha (irrelevante já que não existirão candidaturas menores que 1 ha), 20% pertença a ZIF,(sendo muito mais facil a criação de ZIF fora do minifúndio ), 20% pertença a rede natura, 10% ter certificação florestal,(especialmente dificil em minifúndio)
  • 2018 – actual concurso PDR2020 – VGO = 7 com critérios: 40% (perigosidade – utiliza uma carta extraordinária que classifica grande parte dos concelhos de Centro e Norte de inequívoca perigosidade alta, na mesma classe que todo! o Alentejo, ver mapa em anexo), 30% em rede primária ( exclui mais de metade das áreas minifundiárias onde a rede Primária da responsabilidade do ICNF nunca foi traçada), 15% pertença a ZIF, sendo muito mais fácil a criação de ZIF fora do minifúndio, 20%pertença a rede natura, 10%território de baixa densidade ( é um critério quase oposto ao grau de minifúndio, já que a maior parte das áreas de baixa densidade surgem nos territórios de grande propriedade)"

O que seria normal, reconhecendo que o país tem um problema sério de falta de gestão em grande parte do país e que isso gera um padrão de fogo social e economicamente insustentável, reconhecendo que essa falta de gestão decorre da falta de competitividade das actividades que podem gerir combustíveis e reconhecendo o papel dos poucos que ainda gerem o território, é que o Estado em vez de traçar redes primárias que não se sabe como, por quem e com que custo serão geridas, fosse simplesmente ter com as pessoas que estão no mundo rural, e gerem território, e lhes perguntasse o que seria necessário para gerir mais 10% da área que gerem actualmente.

O que seria normal seria o Estado desenhar programas simples, usando o dinheiro dos contribuintes para pagar a gestão de combustiveis em função de resultados pré-estabelecidos, trabalhando com as pessoas que existem, e não com abstracções que fazem lembrar a célebre reposição da circulação de comboios exigida pelas populações, dando origem à circulação de comboios completamente cheios de ausentes.

Mas para isso o Estado teria de ter o mínimo de interesse e respeito pelas pessoas e pela sua vida quotidiana.

O que é muito duvidoso que seja o caso.



2 comentários

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De Anónimo a 30.06.2018 às 10:07

algumas varas de porcos andam pelos tribunais
ao 'bácaro' alentejano o marketing chama porco preto
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De Caravelle a 01.07.2018 às 20:08

Bom dia Henrique,
Tem comentários a fazer a esta notícia?
http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2018-07-01-Os-dez-mandamentos-do-homem-do-fogo (http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2018-07-01-Os-dez-mandamentos-do-homem-do-fogo)

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