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Ainda o estranho consenso sobre limpezas de matas

por henrique pereira dos santos, em 12.02.18

Tenho imensa dificuldade em aceitar o largo consenso em relação à responsabilização legal dos proprietários na gestão do fogo, em especial esta paranóia inútil da obrigação legal da "limpeza" dos terrenos em volta das casas e povoamentos.

Não porque discorde da necessidade de fazer essa gestão de combustíveis como instrumento de defesa de pessoas e bens em redor de casas e povoações mas por não entender por que razão se considera normal que esse resultado seja obtido por via legal e repressiva e não pelo envolvimento dos principais interessados, começando por entender que as razões para a acumulação de combustíveis são essencialmente económicas.

Ou seja, as soluções terão de ser económicas e sustentáveis, servindo os proprietários (incluindo o Estado) e a sociedade.

Não se trata de subsidiar proprietários, criando rendas pela mera posse, trata-se de pagar serviços efectivamente prestados pelos gestores do território.

Há uma parte desse pagamento que pode ser obtida no mercado, por exemplo, quando é possível aumentar o consumo de produtos que incorporem no preço o pagamento desses serviços ou quando é possível aumentar o preço do produto para incluir esses serviços (tipicamente, criar mercados de nicho para os cabritos dos rebanhos que sofrem ataques de lobo, ou fazem gestão de combustíveis, coisas desse tipo).

Também é possível gerar economias de serviços associadas à prestação desses serviços (por exemplo, quando organizações como a Montis gera visitas de pessoas e grupos que vão ver o que andamos a fazer).

Há outra parte desse pagamento que pode ser gerada pelos mercados públicos, por exemplo, quando escolas, hospitais, centros de dia, etc., incluem a obrigatoriedade de ter 5 ou 10% dos seus produtos provenientes de economias que façam gestão de combustíveis.

Há outra parte que pode ser proveniente dos apoios ao mundo rural, que deveriam ser desviados do apoio à produção para o apoio à produção de serviços não apreensíveis no mercado.

E há ainda uma outra parte que pode ser gerada pelo mercado da paz de espírito, que é o mercado central de organizações como a Montis.

Tudo isso são pagamentos de serviços, não são subsídios.

A questão central é que a sociedade não quer pagar mais pelos produtos e serviços que consome, acha muito bem que os dinheiros do mundo rural sejam para apoiar a produção e desconfia das organizações que vivem do mercado da paz de espírito.

E portanto escolhe a via de castigar as principais vítimas do problema, acusando os proprietários de burros, ignorantes e impondo-lhe, por via repressiva, obrigações iníquas como a de garantir a segurança das casas de terceiros que muitas vezes têm muito mais recursos que aqueles a quem exigem que lhes garantam segurança de pessoas e bens.

Isto é de tal forma iníquo que só o peso dominante das culturas urbanas no espaço público, e a sua grande incompreensão em relação ao funcionamento do mundo rural, pode explicar o enorme consenso político e mediático em relação ao assunto.



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