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Agora o 23 de Abril

por henrique pereira dos santos, em 28.04.19

"Os meus avós, na sua aldeia, nasceram e passaram 40 anos sem saneamento básico e a beber água das fontes e de poços. Só após o 25 de Abril o tiveram. E eletricidade, nas vésperas, muitos ainda não tinham. Na saúde, recorria-se aos médicos de aldeia, ou melhor das sedes de freguesia, que serviam tanto para pôr pensos, como para tirar dentes. Ir às sedes do concelho para tratamento mais complicados era uma aventura, porque os acessos e transportes eram maus. A grande maioria das crianças nascia em casa, o que provocava uma mortalidade infantil das mais elevadas da Europa. A imensa maioria ficava-se pela escola primária. A maior parte do mundo rural manteve-se primitiva, sem grandes mudanças, durante quase 50 anos de Estado Novo. O salto, nesse mundo, que era a maior parte do país, foi gigantesco em poucos anos. Não me lixem".

Este comentário ao meu post anterior é muito interessante e ilustra bem a dificuldade da racionalidade nesta matéria.

Que na generalidade das aldeias não havia saneamento básico, água corrente e electricidade no dia 24 de Abril de 1974 é um facto. Que Portugal era um país pobre e dos mais atrasados da Europa (se descontarmos vários de Leste), é também um facto. Que a assistência na saúde era frágil, quando existente, é ainda um facto. E que as estradas eram más, é mais um facto.

O problema do comentário aparece quando se conclui: "A maior parte do mundo rural manteve-se primitiva, sem grandes mudanças, durante quase 50 anos de Estado Novo".

É que todos os factos enunciados anteriormente sobre o Portugal do dia 24 de Abril de 1974 dizem muito pouco sobre os dias anteriores, isto é, de onde vínhamos e para onde se estava a andar.

Saltemos por cima do absurdo de se dizer que o mundo rural não teve mudanças durante os quase cinquenta anos do Estado Novo quando é exactamente nesse período que Portugal deixa de ser o último país da Europa em que o PIB agricola era maior que o PIB industrial e em que se esvazia o mundo rural com o movimento migratório dos anos cinquenta e sessenta.

Não percamos tempo a demonstrar o programa de obras públicas, incluindo estradas, do Estado Novo, de tal maneira é conhecido. Saltemos ainda pelo facto de se dizer que a grande maioria se ficava pela escola primária, quando esse é um avanço mais de documentado: antes do Estado Novo a grande maioria nem sequer ia à escola.

Centremo-nos apenas na famosa evolução da mortalidade infantil, que tem nesta ligação dois gráficos muito interessantes.

O que os gráficos mostram é que em 1974 os números portugueses ainda eram maus, mas que mortalidade infantil vinha a cair expressivamente desde o fim da segunda guerra mundial, em especial com uma queda muito rápida na segunda metade dos anos 40, e que não é visível nos gráficos nenhuma ruptura da tendência em 1974, isto é, havia um processo de melhoria e continuou num ritmo semelhante depois de 1974.

É absurdo atribuir esta melhoria ao Estado Novo em si, grande parte desta melhoria resulta do progresso social e da medicina, e ocorreria com ou sem Estado Novo, mas mais absurdo ainda é pretender negar que esta melhoria ocorreu durante o Estado Novo.

Negar factos perfeitamente comprováveis não parece ser o melhor caminho para compreender de onde vimos e para onde poderemos ir no futuro.

O que nos deveria verdadeiramente ocupar era o estudo das razões pelas quais se manteve uma ditadura em Portugal quase cinquenta anos, sem grandes convulsões e sem grande oposição. E mais ainda, por que razão o essencial dessa oposição não provinha de uma crítica liberal e da procura de liberdade, mas de uma outra opção de ditadura e de um caminho alternativo igualmente iliberal.

Que características sociais tem a nossa sociedade que a faz aceitar tão facilmente trocar a liberdade por um pouco de segurança ou de previsibilidade do futuro?

Isso sim, é o que nos devia preocupar, e não a repetição permanente de lugares comuns errados sobre a sociedade que viveu num regime que acabou vai para 45 anos.



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