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A "verdade factual" de Pacheco Pereira

por João Távora, em 05.03.18

jpp-marx.jpg

Tenho algumas dúvidas quanto à objectividade das conclusões de Pacheco Pereira neste artigo quando reflecte sobre o triste encerramento e decadência das livrarias e as suas causas. Há números que indiquem a redução das vendas de livros e da actividade editorial? Parece-me que não: a facilidade que as novas tecnologias proporciona para a produção e distribuição de obras especializadas para públicos muito específicos constitui no meu entender um grande avanço. Na minha casa, em que se consomem bastantes livros, estamos a adquiri-los maioritariamente online, seja pela Amazon ou pela Wook, por exemplo. Recentemente, fiz a pesquisa de um livro antigo no Google, e fui parar a um site de um alfarrabista, onde o adquiri - não precisei de me deslocar à loja (que nem sei se existe). Pacheco Pereira dá-se ao direito de "achar coisas" nos jornais e televisão, e eu atrevo-me ao mesmo aqui neste modesto blog: a minha intuição leva-me a diferentes conclusões das suas. Pela minha experiência de vida, hoje como ontem, tenho a viva impressão que resulta impossível incutir sólidos hábitos de leitura (tenho 4 filhos e sou um de 5 irmãos) a quem não tem apetência para tal - e não é por falta de dedicação à "causa". Julgo que o problema do Pacheco Pereira está no desconforto causado pela desilusão com a ausência de efeitos na erudição das massas por via da alta taxa de escolarização. Acontece que o sonho de democratizar a erudição resultou numa falácia porque ela provém mais de dons que nascem com as pessoas que por outros factores, e o ensino democrático pouco mais poderá fazer do que mitigar os danos da boçalidade natural das gentes. É verdade que nunca como hoje a alienação pelo entretenimento esteve tão acessível, ou mesmo invasiva, principalmente através dos videojogos e das redes sociais. Mas apesar de tudo tendo a acreditar que nunca como hoje se leu tanto (em termos meramente quantitativos, evidentemente) justamente por causa do acesso extremamente facilitado aos mais variados conteúdos na Internet - que também os há de qualidade, sejamos justos. Melhor que nada. Quanto à valorização do “conhecimento, do silêncio, do tempo lento, da leitura e da 'verdade factual'” (o que será isso de 'verdade factual' afinal?) desconfio que será sempre apanágio de uma pequena minoria de privilegiados por Deus (ou pela natureza). Ontem como hoje ou amanhã, desfrutar de Schubert ou Dostoievski será privilégio de muito poucos. E já todos percebemos que os escritos de Pacheco Pereira por este caminho estão longe de se tornarem clássicos. Escusa é de se armar aos cucos, que não lhe fica bem.

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4 comentários

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De Anónimo a 06.03.2018 às 05:08

O Pacheco Pereira dá a ideia de que vive na Idade das Trevas...  (sorrio)
A Internet tornou-se um bom veículo para o conhecimento. E quem gosta de livros (e tem orçamento para os comprar) não deixa de os adquirir. Agora está à velocidade de um "enter" descobrir a literatura que nos apetecer ler, sem sair de casa. Já comprei livros até pelo Facebook e nem paguei portes, que os oferecem...
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De Luís Lavoura a 06.03.2018 às 09:46

Excelente post.
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De Rogerio Castro de Seixas a 06.03.2018 às 13:10

Também eu compro livros pela net, seja na Wook ou por vezes em Alfarrabistas.  Mas confesso que aprecio mais o comprar em livrarias, após folhear os livros, e ler comentários sobre  a obra. Só que, não vivo perto de nenhuma livraria e as deslocações a Lisboa são cada vez menos frequentes. Quanto à FNAC, cheguei à conclusão de que com o que gastava com cartão para obter desconto, podia comprar um livro ou dois, que das restantes ofertas não sou comprador assíduo e na família há mais quem tenha o cartão se for necessário. Na Bertrand entendo ser negativo o facto de com cartão obter desconto de 10 pc numa compra futura, que obrigatoriamente tem prazo ( e curto). Normalmente perdia sempre  o direito ao desconto.
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De Anónimo a 06.03.2018 às 21:34

sabe muito sobre o passado
mas cristalizou no espirito de mercearia

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