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A suspensão da democracia

por henrique pereira dos santos, em 08.02.26

Hoje há um número relevante de pessoas que não podem votar.

Nalguns casos, por razões reais, há constrangimentos sérios que impedem a formação de mesas de voto ou que impede um número relevante de eleitores de uma mesa de voto lhe acederem.

Há outros casos em que eleitores de mesas de voto sem nenhum problema estão impedidos de votar por decisão praticamente discricionária de presidentes de câmara, o concelho está em estado de calamidade, por acontecimentos que afectam parte dos eleitores e os senhores presidentes de câmara acham que, sendo assim, ninguém vota, mesmo naquelas zonas do concelho onde não há qualquer constrangimento.

O exemplo mais evidente, para quem conhece o território, é a suspensão das eleições na freguesia do Torrão, no concelho de Alcácer do Sal.

Pelo menos desde que se formou a convicção de que Manuela Ferreira Leite defenderia uma suspensão da democracia por seis meses para se conseguir fazer algumas reformas necessárias  - convicção errada, note-se, criada pela comunicação social e a esquerda (seria agora a altura de falar de pleonasmos, mas não vale a pena estar sempre a repetir a mesma piada) - que a ideia de que a democracia e os seus formalismos são burocracias que não devem sobrepor-se à realidade tem feito o seu caminho.

A expressão mais concreta dessa ideia foi a famosa frase de António Costa sobre a gestão da epidemia de Covid - far-se-á isto e aquilo, diga a constituição o que disser - e materializou-se num conjunto de decisões ilegais ao abrigo de uma utilização manifestamente abusiva do estado de emergência.

Sem surpresa, dois dos maiores demagogos que o país tem actualmente, Marcelo e Ventura (a ordem não é arbitrária) são dois dos maiores defensores desta ideia de que havendo pessoas em sofrimento, as eleições não devem fazer-se normalmente, seria estarmos a preocupar-nos com uma minudência burocrática quando o que é preciso é acudir às pessoas.

O erro central desta tese é o de que as eleições - a democracia e os seus rígidos procedimentos que visam garantir que os processos são respeitados, independentemente dos resultados que deles decorram - são um empecilho ou um pormenor burocrático, que dificulta a resolução dos problemas reais das pessoas.

Quando os eleitores do Torrão, onde não há nenhuma questão relevante relacionada com as cheias do Sado, são impedidos de votar nos tempos e modo que está definido, como é seu direito, isso não altera rigorosamente nada a vida das pessoas afectadas pelas cheias ao ponto de, eventualmente, ser sensato adiar as eleições em algumas mesas de voto, mas enfraquece a coesão social decorrente da confiança nos mecanismos institucionais que nos fazem participar das decisões colectivas.

E isso, por mais voltas que se dê, não é um pormenor.


19 comentários

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De Filipe Costa a 08.02.2026 às 10:45

Eu posso ir votar, em Matosinhos ainda não houve calamidade relevante (excepto a gestão autarquica). Mas sabe, os 2 candidatos ou nenhum é-me indiferente. Até está Sol à hora que escrevo, mas para votar nulo, fico em casa.
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De Anónimo a 08.02.2026 às 11:05


Em vez de falar na suspensão da democracia devia questionar se somos uma democracia e se realmente muitos portugueses querem saber dos problemas do país ou apenas dos problemas deles. Nos blogues muitos apenas querem saber dos problemas deles e por isso só querem saber do que escrevem para os outros lerem.
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De cela.e.sela a 08.02.2026 às 11:49

si vas a emprender el viaje a Ítaca, Pide que tu camino sea largo, Rico en conocimientos, en conocimiento. … Ten siempre a Ítaca en la memoria. Llegar allí es tu meta. Mas no apresures el viaje.
C. Kavafis. “Ítaca”. Poesías completas. Madrid: Hyperion, 2007, pp. 46
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De Anónimo a 08.02.2026 às 12:19

Dito de outra maneira; há lugares onde o "Regular Funcionamento das Instituições" já viu melhores dias.


Segue a pergunta lógica:


Não há uma Instituição, ou Instituições, com o dever e função de vigia e fiscalizar o "Regular Funcionamento das Instituições" ??
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De Francisco Almeida a 08.02.2026 às 13:07

Apoiantes de Seguro como Ricardo Sá Fernandes, defendem o adiamento por acreditarem que diminuirá a abstenção e que esta prejudica Seguro. Já Ventura - não o disse mas eu acredito - entende que Seguro, que começou por 70 % e já não chega aos 60, quantos mais tempo tiver para falar, mesmo tendo recusado mais frentes-a-frente, mais votos perde.
E Ventura não pretende ser presidente. Seguro abaixo de 55% e ele acima de 40 já seria uma vitória retumbante.
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De Anónimo a 08.02.2026 às 15:25

Hoje há um número relevante de pessoas que não podem votar.


Obrigado por expor o óbvio 
Há uns dias um qualquer comentador desdenhava dessa afirmação, contrapondo com um arrogante "mas ao certo quem não pode votar?". Estas eleições deviam ser adiadas, uns estão logisticamente impedidos, outros terão coisas mais urgentes a fazer.
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De henrique pereira dos santos a 08.02.2026 às 15:49

Exacto, mas ao certo, quem é que não pode votar?
Sabe responder?
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De Anónimo a 08.02.2026 às 20:33

Um número relevante de pessoas.
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De Anónimo a 08.02.2026 às 20:35

Um número relevante de pessoas, por razões reais, havendo constrangimentos sérios que impedem a formação de mesas de voto ou que impede um número relevante de eleitores de uma mesa de voto lhe acederem.

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De Anónimo a 08.02.2026 às 20:39

Que tolice. Ninguém está impedido de votar, a não aqueles impedidos pela autarquia de Torrão. Fatual. Coloque nomes e locais, se quiser provar o Irrefutável. 
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De Anónimo a 08.02.2026 às 17:38

Uma coisa é adiar eleições,  quando e nos casos em que motivos de força maior (desastres naturais p.ex.), assim o aconselhem.


Outra bem diferente é suspender a Democracia, coisa muito difícil de entender, mesmo em caso de guerra.
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De Anónimo a 08.02.2026 às 22:08

António José Seguro 


Eleito com mais votos que aquele de Boliqueime 


Para aquele, acho que se chama Artur Santos Silva; Toma e Embrulha 
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De Anónimo a 09.02.2026 às 10:57

Tá visto que esse Artur era o único a marchar com o passo certo.


Artrites mentais, arritmias do sono, perturbações avulso, etc
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De Nelson Gonçalves a 09.02.2026 às 07:17


Desde 2019 (pelo menos) que há um milhão e meio de portugueses a quem é muito complicado votar. Em especial nas presidenciais, em que o voto é presencial (um dia talvez eu consiga perceber porquê), a imensa maioria não o faz.


São os emigrantes portugueses. 


Nunca vi choro nenhum nas TVs por causa disto. Antes pelo contrário, continuamos com uma lei e processos eleitorais do século passado quando se poderia fazer muito mais (e não digo o voto electrónico, já me contentaria com a possibilidade de votar em qualquer mesa).


Se eu estou de acordo que isto não é motivo para não se realizarem eleições, ou mesmo serem adiadas, também tem o condão de esconder os rios de gente que escolheu desaguar noutros países. Gente que não se vê nem houve, mas que são (mais outro) sintoma de que o país não vai bem.


Estamos presos no meio da ponte. Não facilitamos o voto (como deveria ser a norma numa democracia saudável) e quando há borrasca, proibimos tudo e todos na esperança de que fingidos de mortos, passamos desapercebidos.
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De Anónimo a 09.02.2026 às 11:21

Se me permite; "eles" proíbem para existir
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De rafael a 09.02.2026 às 11:29


não houve nenhuma suspensão de democracia.
o que houve decerto foi a suspensão aqui do blog......lá para 5ª feira aparecerá algum poste novo....
a última vez que houve uma cabazada destas era o pintinho o presidente e o conceição o treinador

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