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A segunda derivada

por henrique pereira dos santos, em 23.02.21

A informação sobre a epidemia a que a generalidade da imprensa tem dado importância prende-se com a pressão sobre o sistema de saúde e com as previsões de um conjunto de matemáticos.

Confesso que quando vejo pessoas responsáveis dizer que as escolas não podem abrir porque ainda há muita gente em cuidados intensivos me assaltam duas perplexidades essenciais.

Uma prende-se com o absurdo de se entender que é legítimo fechar o acesso a um serviço essencial, como é a educação, para resolver as fragilidades de outro serviço essencial, como é a prestação de cuidados de saúde, sem que se ponderem adequadamente os prejuízos e benefícios de cada opção.

Uma coisa é os serviços de saúde entrarem em colapso, deixando de ser capazes de prestar assistência aos doentes, que é uma situação limite.

Outra coisa é os gestores dos serviços de saúde decidirem que só se sentem confortáveis com 200 ou trezentas camas de cuidados intensivos ocupadas com doentes covid e, consequentemente, acharem normal ter toda a sociedade, em especial as escolas, fechadas para se atingir um número de ocupação de camas que é unilateralmente definido pelos gestores dos sistemas de saúde.

A facilidade com que se propagou a ideia de que é a sociedade que tem de se organizar para proteger os serviços de saúde, em vez de serem os serviços de saúde a organizarem-se para proteger a sociedade é, para mim, um mistério insondável.

Para evitar situações limite na saúde talvez seja razoável bloquear o acesso à educação de milhares de alunos. Para dar conforto aos serviços de saúde, francamente, tenham juízo.

A outra perplexidade prende-se com a confiança que se deposita em modelos de previsão que, dia após dia, demonstram a sua inutilidade, dado o desfasamento entre as previsões e a realidade (quer por defeito, quer por excesso, isso é irrelevante, qualquer das duas situações demonstram que a modelação feita não reflecte a realidade do processo que está a tentar modelar).

Um bom exemplo é a insistência que agora se faz no excesso de pressão que ainda existe sobre o sistema de saúde: os contágios caíram, os casos diminuíram fortemente, e evidente que os internamentos e a mortalidade irão diminuir de acordo com o que se passou nos contágios. Se ainda há muita gente em cuidados intensivos, é porque a doença tem uma evolução lenta e o desfasamento entre contágio e alta dos cuidados intensivos pode ir facilmente às três ou quatro semanas (ou mais).

Seria normal os modeladores estarem agora a dizer que realmente não faz sentido nenhum estar a prejudicar milhares de alunos à espera de uma descida de internamentos que ocorrerá de qualquer maneira nos próximos dias.

Infelizmente, uma boa parte dos modeladores, deixaram há muito de funcionar como investigadores e são meros activistas.

Por isso, quando confrontados, dizem que quem os contesta não sabe de matemática, não consegue apreender bem o que significa um processo ser exponencial (esquecendo-se que depende do valor do exponencial ser um processo lento ou rápido) e não estão a ver bem a coisa porque têm dificuldade em compreender integralmente o efeito da evolução da segunda derivada.

Meus caros matemáticos, muito antes de haver matemática, muito antes de haver segundas derivadas, já as pessoas comuns sabiam perfeitamente o efeito de uma aceleração progressivamente maior ou progressivamente menor, escusam de se esconder atrás de uma suposta sofisticação matemática para fugir à discussão substancial do que está em causa.

E o que está em causa, neste momento, é uma evolução muito favorável da epidemia e um custo desproporcionalmente alto do fecho de escolas, que não tem qualquer justificação substancial.

Amanhã a tendência pode inverter-se?

Sim, pode, as probabilidades não vão nesse sentido, mas sim, pode inverter-se a tendência.

Se a positividade dos testes desatar a subir, se aumentar o factor de contágio, se a base de casos subir de forma relevante, então discutimos outra vez confinamentos e fecho de escolas.

Mas agora, na actual situação, por favor, tenham juízo e deixem de se esconder na vossa superioridade intelectual que pretende que é preciso ter um doutoramento em matemática para saber o que é uma segunda derivada e façam lá umas contas de deve e haver, pondo de um lado os custos e os riscos sanitários, e do outro, os custos de oportunidade de manter as escolas e a economia fechados.

E deixem de ser activistas da estratégia covid zero que ninguém vos elegeu para tomar decisões pelos outros. 



8 comentários

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De António Lino a 23.02.2021 às 16:27

boa tarde


Há claramente uma influência hollywoodesca no trabalho destes supostos especialistas, com eles a sentirem-se como o cientista justo e certo, mas inicialmente incompreendido, de uma série de filmes - Tubarão, o Cume de Dante, etc. Vão salvar os semelhantes mas há sempre um bronco a questionar o seu brilho - bronco esse que acaba mal, claro.


Foi William F. Buckley que disse que preferia ser governado pelos 2.000 (ou parecido) primeiros nomes de uma qualquer lista telefónica do que pelo corpo docente de Harvado - ele sabia bem que ser especialista numa área e ter bom senso não são concomitantes. Para além do mais, quem se põe no alto dos seus tamanquinhos e invoca a especialidade dos seus conhecimentos para descaracterizar os críticos tem uma noção muito bizarra de si próprio, no mínimo...
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De pitosga a 23.02.2021 às 18:13


HPS, o seu último parágrafo neste texto é, somente, o que é importante. O resto é vaidade, tal como correr atrás do vento...
Abraço
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De Anónimo a 23.02.2021 às 18:25

"...deixem de se esconder na vossa superioridade intelectual que pretende que é preciso ter um doutoramento em matemática para saber o que é uma segunda derivada"...


Caro Senhor
Outrora era uso dizer-se " se queres ver o vilão, mete-lhe um pau na mão."
Os tempos mudaram, e hoje em dia eu adaptaria o adágio anterior para "se queres ver um sabichão mete-lhe um canudo na mão".
Se ao vilão de antanho  era novidade a oportunidade de mostrar a sua crueldade sobre os outros, o sabichão de hoje vê, nas suas culturalmente recentes letras, uma promoção social, e um direito de ser ouvido na "sua área" ( em tempos que já lá vão( 1ª vaga) ironizei sobre o Dr Exponencial Buesco, que previa o fim dos tempos que aí vinham baseado nos seus "modelos")
E, num abastardamento do que já em si tem laivos de perversidade, considera-se que se tem mérito por ter um canudo, não por actos e provas dados da sua vida pessoal e profissional tornando-se a meritocracia uma passarela de títulos académicos, sem qualquer fundamento na realidade.


Melhores cumprimentos


Vasco Silveira
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De Anônimo a 23.02.2021 às 22:53

"E deixem de ser activistas da estratégia covid zero que ninguém vos elegeu para tomar decisões pelos outros. "
Quem tomou decisões foi o governo. Sempre.
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De balio a 24.02.2021 às 10:18


Quem tomou decisões foi o governo. Sempre.


É verdade. Mas o governo tem utilizado diversos fantoches detrás dos quais se oculta. Ao princípio usava a Graça Freitas da DGS, a qual aparecia em conferências de imprensa a falar como se fosse ela quem tomasse as decisões. Agora o governo usa alguns "especialistas" ou "médicos", os quais falam como se fossem eles quem determinasse o que se pode e deve fazer. Não somente essas pessoas (a Graça Freitas, os "especialistas") se prestam a fazer esse serviço ao governo, como o governo lhes pede que o façam, para se desresponsabilizar dos efeitos nefastos das decisões que toma.
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De Anônimo a 24.02.2021 às 12:44

Quem escolhe os especialistas é o governo (reuniões Infarmed, ...), quem manipula a opinião pública com especialistas é o governo. Se o governo quisesse outra coisa que não o que temos agora já tinha escolhido outros especialistas. 
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De Tiro ao Alvo a 24.02.2021 às 10:02

Dizia-se, pelos anos sessenta do século passado, que os sábios tinham acabado, a significar que tinha havido uma grande evolução e que, por isso, não fazia sentido classificar as pessoas com formação mais elevada, como sendo sábios. Mas agora, em 2021, apareceu uma caterva de gente a ser apresentada como cientistas, a quererem e a serem aceites, como donos de todo o conhecimento e capazes de prever o futuro. Não será essa moda uma forma dos políticos se desresponsabilizarem?

Outra questão: se pretendem estabelecer o limite de 200 camas em UCI, ocupadas com doentes covid, para que é querem as muitas centenas de outras camas?

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De balio a 24.02.2021 às 10:23


Não será essa moda uma forma dos políticos se desresponsabilizarem?


Claro que é.


para que é querem as muitas centenas de outras camas?


O problema não são as camas nem o lugar onde elas se encontram. O problema é o pessoal que toma conta de quem está nas camas. Um doente em enfermaria raramente é visitado por um enfermeiro ao longo do dia. (E em Portugal coloca-se em enfermaria montes de pessoas que num qualquer outro país seriam deixados em ambulatório, isto é, fora do hospital. Sei isto também por experiência própria. Em Portugal interna-se pessoas por motivos muito ligeiros, e depois deixa-se essas pessoas nas enfermarias com relativamente pouco atendimento.) Um doente em cuidados intensivos tem sempre um enfermeiro por perto a vigiá-lo.

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