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A responsabilidade do jornalismo nos próximos grandes fogos

por henrique pereira dos santos, em 20.06.22

A propósito do meu post anterior, tive uma conversa agradável e muito civilizada com uma jornalista que o leu, tanto mais que habitualmente escreve sobre gestão florestal e afins.

Essa conversa é o ponto de partida para o desenvolvimento de um assunto que já estava no meu post anterior: a responsabilidade do jornalismo nos fogos.

O padrão geral de fogos que temos, isto é, fogos relativamente pouco frequentes, extensos, contínuos e intensos, é um padrão de fogo que causa impactos diferentes do padrão de fogo que tínhamos até à segunda metade do século XX, isto é, fogos muito frequentes, em mosaico e de baixa intensidade. Note-se que sempre houve grandes fogos, em situações meteorológicas excepcionais, mas, provavelmente, não com a mesma extensão e com tempos de retorno de doze a quinze anos como temos hoje.

Se o padrão de fogo dominante nas últimas centenas de anos, até à segunda metade do século XX, tinha um efeito de depauperamento dos solos das terras marginais e simplificação dos sistemas naturais, o padrão de fogo actualmente dominante, embora mais favorável para a regeneração dos solos e a recuperação dos sistemas naturais, tem custos muito elevados em perdas económicas (directas e indirectas), destruição de infraestruturas e vidas humanas.

Na base da alteração deste padrão de fogo estão razões sociais e económicas que se traduzem numa gestão das terras marginais muitíssimo menos intensa (em largas áreas, puro abandono de gestão), o que permite a acumulação e continuidade de combustíveis finos (ervas, folhas, raminhos, cascas, manta morta, tudo coisas com menos de 6mm de diâmetro, que é o que permite a progressão das chamas na frente de fogo, ou com menos de 2,5 cm de diâmetro, que é o que permite a irradiação de energia que vai alimentando o incêndio, com a ajuda de alguns combustiveis de maior calibre).

E porque é a estrutura e quantidade dos combustíveis que define o comportamento do fogo - o fogo é um produto do seu contexto, controlar o contexto é controlar o fogo, perder o controlo do contexto é perder o controlo do fogo -, sobretudo nas condições meteorológicas extremas em que ocorrem os grandes fogos, é essencialmente irrelevante a discussão sobre as espécies que temos no nosso território, sobre ignições, sobre estrutura de propriedade, sobre aviões, meios de combate, corporações de bombeiros, etc..

O que está escrito acima não são opiniões minhas, são factos demonstráveis e verificáveis, havendo dezenas de artigos científicos que o fundamentam.

Pois bem, qual tem sido a opção dominante do jornalismo (gostaria de deixar claro que não quero fazer generalizações injustas, o que vou escrever diz respeito ao que é dominante na paisagem jornalística, não inclui as excepções e os imensos tons de cinzento que existem entre o branco e o preto)?

Falar de fogo posto, com base em testemunhos da treta, como se não houvesse um registo diário de ignições que permite perceber que todos os dias há ignições, mas só em cerca de 12 dias num ano é que dão origem a fogos relevantes. E, nesses dias, a discussão sobre a ignição concreta que deu origem a um fogo de milhares de hectares é irrelevante, porque se não fosse essa, era outra mais ao lado.

Fazer reportagens na frente de fogo, falando com bombeiros e populações, como se fosse a frente de fogo o sítio mais adequado para pensar racionalmente sobre a gestão do fogo.

Ouvir uma quantidade inacreditável de alucinados, a maior parte dos quais sem qualquer curriculum profissional relacionado com ecologia do fogo e com gestão de fogo, sobre a relação entre eucaliptos e fogos (existe consenso científico sobre o assunto, mas é o que está acima: a estrutura e quantidade de combustíveis é o que interessa, a espécie dominante interessa pouco para a discussão sobre a gestão do fogo).

Dar espaço e publicidade a teorias conspirativas várias sobre o preço da madeira - sim, há uma discussão séria a fazer sobre a eficiência e a transparência do mercado das madeiras e, dentro deste, da rolaria de eucalipto, em que a existência de um duopsónio nos deve levar a ter alguma cautela na avaliação da existência, ou não, de posições dominantes que se traduzam na manipulação dos mercados - em vez de discutir seriamente o assunto investigando os factos.

Fascinar-se, permanentemente, com planos, estratégias, decisões futuras que um dia vão resolver problemas como a atomização da propriedade - francamente, o problema da propriedade é só um sintoma da ausência do seu valor, não é por uma coisa sem valor mudar de dono que passa a ter valor -, a falta de ordenamento - muito gosta o jornalismo português de metafísica - e outros problemas intangíveis e sem qualquer utilidade prática.

E, mais que tudo, o julgamento moral permanente dos malandros do proprietários que, estúpidos, têm minas de diamantes nas suas mãos mas insistem em ficar mais pobres que ricos.

Meus caros jornalistas, o país, a manter-se o rumo actual, vai ter fogos trágicos ali por 2030, mais ano, menos ano, mas escusam de fugir da vossa responsabilidade: a forma como olham para o assunto, as pessoas que escolhem ouvir, a verificação de factos que fazem, a ideologia que contrabandeiam disfarçada de conhecimento técnico, é um dos principais problemas da gestão florestal do país.

E dessa responsabilidade não podem fugir, é vossa e só vossa.



15 comentários

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De Anonimo a 20.06.2022 às 15:10


" a forma como olham para o assunto, as pessoas que escolhem ouvir, a verificação de factos que fazem, a ideologia que contrabandeiam disfarçada de conhecimento técnico, é um dos principais problemas ///da gestão florestal//// do país."



Bastava retirar o texto em itálico
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De passante a 21.06.2022 às 21:02

Fazer os passadores de notícias tomar responsabilidade pelo que instigam - desde guerras à má saúde mental dos consumidores - é pior do que o castigo do Sísifo.


Na modesta opinião deles, só deixam perfume de rosas e benções culturais.
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De Sofia a 20.06.2022 às 17:48

Olá Henrique, existe alguma reportagem ou artigo sério que fale sobre os números de fogos de origem criminosa ou natural? Sobre o negócio das madeiras? O assunto dos Kamov de vez em quando vem ao cima, mas como sempre neste país fica tudo em águas de bacalhau e é sempre o mesmo a pagar a fatura.
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De henrique pereira dos santos a 20.06.2022 às 17:51

Existe muita informação sobre esses aspectos.
Por exemplo, os relatórios anuais sobre incêndios
Capa do relatório (icnf.pt)
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De Sofia a 20.06.2022 às 17:58

Obrigada. Vou espreitar.
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De henrique pereira dos santos a 20.06.2022 às 18:04

Esqueci-me de dizer que entre as causas naturais e as criminosas, há um grande saco onde cabe a negligência.
Em qualquer caso, 1% das ignições correspondem a 90% da área ardida.
O país diminuiu em dois terços o número de ignições e isso nem sequer se nota na área ardida.
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De Sofia a 20.06.2022 às 18:06

Sim, eu sei!
Esse simples 1% é desastroso!
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De henrique pereira dos santos a 20.06.2022 às 18:08

Não há nada de desastroso nesses 1%, apenas demonstram que a questão não está em saber como começa um fogo mas sim por que razões não o conseguimos parar.
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De Sofia a 20.06.2022 às 18:13

Ah! Entendi.
Bem o fogo tem vida própria, dos documentários que já vi e filmes num minuto tudo pode mudar.
Estou a ler o relatório não sabia que o público podia consultar.
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De henrique pereira dos santos a 20.06.2022 às 17:54

Sobre o que chama "negócio das madeiras" existem muitas teorias de conspiração, existe alguma informação mas, essencialmente, é um não assunto: pretender que existe uma relação sólida entre fogos e comércio de madeiras é o mesmo que dizer que poderia haver um negócio de fogos de casas para as fazer baixar o preço.
Ora isso não faz sentido porque de facto o preço de uma casa ardida é mais baixo que o de uma casa em bom estado de conservação porque realmente vale menos.
É exactamente igual com as madeiras.
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De balio a 22.06.2022 às 16:55


O Henrique Pereira dos Santos tem um trauma qualquer contra os jornalistas, que passa a vida a exigir deles coisas que estão, manifestamente, para além das suas obrigações.
Já fez isso no caso da covid, agora faz isso no caso dos incêndios.
Os jornalistas (tal como os professores) são classes profissionais cheias de problemas próprios e que não têm a obrigação de endireitar todos os outros problemas que o resto da sociedade cria.
O Henrique Pereira dos Santos parece pensar que os jornalistas (outras pessoas pensam coisas similares em relação aos professores) devem ser uma espécie de gente pura, dotada de uma visão límpida e transcendental, cuja missão é corrigir a pobre sociedade transviada.
A sociedade somos todos nós e todos temos que ajudar a corrigir os defeitos dela. Não devemos alijar essa obrigação para cima de profissionais específicos, como os jornalistas.
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De henrique pereira dos santos a 22.06.2022 às 22:52

Luís,
Eu não tenho trauma nenhum com jornalistas, o que acho é que o jornalismo é demasiado importante para ser entregue aos jornalistas.
No caso, eu limitei-me a dizer que a cobertura jornalística dos fogos é miserável e contribui para políticas públicas ineficientes.
Não estás de acordo? Fundamenta.
Estás de acordo? O teu comentário não faz sentido.
Não percebo a utilidade de fazeres processos de intenções sobre mim ou análises psicológicas sobre um post bastante simples.
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De Anonimo a 23.06.2022 às 08:29


Normalmente pede-se a alguém de uma certa classe profissional que desempenhe a sua função. Com qualidade. Classes de cheias de problemas são todas. Não há classe que não seja mal paga, trabalhe demasiadas horas e com condições abaixo do exigível. Sendo assim, acabem-se com as críticas.



Se a função de um jornalista é simplesmente servir de correia de transmissão, acabe-se com a profissão como ela é, ou devia ser. Passam os assessores dos Costas a escrever e publicar as notícias.
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De Anónimo a 26.06.2022 às 07:55

Subscrevo este último comentário. O jornalismo não deve servir para disseminar ideologias e muito menos ser o pau-mandado  "da" ideologia oficial ou dominante. Pelo contrário, o papel do jornalismo é ser "contra-poder", ou seja,  controlar o poder e estar do lado da sociedade a representar os interesses dos cidadãos. É portanto o Cão de Guarda (watchdog) vigilante dos nossos interesses fazendo o equilíbrio entre os vários poderes (checks and balances). O sistema de "pesos e contrapesos" é importante numa democracia. Cabe ao jornalismo esse papel e por isso se considera o 4º Poder, na medida em que, além de cumprir o dever de informar, tem também o dever de denunciar e criticar os desmandos e os excessos de poder, com inteira liberdade para o fazer sem que sinta limitações ou constrangimentos.
"Neste conceito de quarto poder, o papel da imprensa está em servir de guardião dos propósitos dos cidadãos contra os abusos de poder. Para cumprir esse papel, é necessário que a imprensa adote uma postura independente em relação aos grupos dominantes."
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De Anónimo a 26.06.2022 às 08:22

Diz o Balio:  "A sociedade somos todos nós e todos temos que ajudar a corrigir os defeitos dela. Não devemos alijar essa obrigação para cima de profissionais específicos"

Pois é! Mas quando alguém está a cumprir esse papel de cidadão, no exacto instante em que escreve  como acaba de fazer o HPS,  para "ajudar a corrigir os defeitos" da sociedade, certamente por achar que é sua obrigação e não um exclusivo dos "profissionais específicos", o Balio diz
que o HPS "exige" demasiado dos jornalistas! Não acha que há uma contradição nas suas palavras? Em que ficamos?

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