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Frequentemente me dizem não compreender por que razão desvalorizo a questão da propriedade na discussão sobre fogos, em especial o problema da dimensão da propriedade e da escala de gestão.

A minha questão começa no facto de, há pelo menos 150 anos, os florestais (desconte-se a generalização, que é abusiva como todas as generalizações) defenderem a necessidade de ganhar escala na produção florestal, mas raramente o terem conseguido demonstrar na prática.

As demonstrações da relavância da escala na exploração florestal que conheço são em condições muito particulares: basicamente feitas pelas celuloses em terrenos especialmente escolhidos para isso. Quando as mesmas celuloses avançaram sem fazer bem contas à produtividade, confiando cegamente na ideia de que os ganhos de escala eram suficientes para justificar os investimentos, nos anos 80, fartaram-se de demonstrar o contrário, como na serra de Ossa, no Tejo Internacional ou em Mogadouro, só para dar exemplos bem conhecidos, ou como demonstra a Floresta Atlântica, para dar um exemplo menos conhecido.

Vejamos os meus argumentos:

1) A economia de escala é especialmente útil quando o investimento é muito elevado mas a operação é barata e rentável;

2) No caso da generalidade dos países europeus (e em muitas outras partes do mundo) esse é o caso da exploração florestal, na medida em que a instalação de povoamentos é muito cara, mas a gestão operacional é bastante barata (podendo mesmo não ser nenhuma, em muitos casos);

3) Em zonas de elevada produtividade (como é o caso de Portugal), em especial quando coincidem com condições climáticas que propiciam meteorologias extraordinariamente favoráveis ao fogo (como é o caso de Portugal), as operações de gestão assumem uma dimensão totalmente diferente, com custos elevadíssimos, que só as produções mais competitivas podem pagar;

4) Nos terrenos em que é possível a mecanização (que em Portugal representam áreas relativamente contidas), os custos de operação podem ser diminuídos com aumento do investimento em florestação (quer em conhecimento, quer em perda de densidade de árvores produtivas), ao ponto de, em fileiras com remunerações razoáveis (o caso do eucalipto, em Portugal), a escala poder ser um factor limitante, isto é, abaixo de determinada área a mecanização deixa de ser interessante e os custos de operação disparam. Acima de uma determinada área, relativamente pequena, deixa de haver ganho de escala por cada novo hectare, estabilizando a rentabilidade por hectare;

5) Ou seja, na generalidade das condições de Portugal, fora da fileira do eucalipto e em algum pinho já instalado e adulto, é muito pouco provável que a escala seja um factor relevante de rentabilidade porque a operação é inerentemente deficitária e aumentos de escala só conduzem a aumento do prejuízo. O que conduz ao abandono generalizado que conhecemos e que é retroalimentado pelo padrão de fogo daí decorrente;

6) Se os cidadãos que não são donos dos terrenos quiserem reintroduzir gestão onde foi abandonada, terão de pagar aos gestores de modo a que tenham retorno, o que é diferente de pagar pela disponibilidade de serviços: o que se remunera é a gestão e não a existência de quaisquer valores que existam nas propriedades, evitando a criação de rendas injustificadas;

7) Significa isto que o que defendo não tem nenhuma relação com minifúndio ou latifúndio, independentemente do maior Valor Acrescentado Florestal ser produzido no minifúndio, não por ser minifúndio, mas por haver uma estreita relação entre a dimensão da propriedade e a produtividade primária.

Enquanto continuarmos a agitar espantalhos sobre o sector florestal em vez de assumir claramente que há um défice de competitividade que tem de ser suprimido pelo resto da economia para podermos gerir o fogo de forma socialmente útil ou, em alternativa, aceitar o agravamento do padrão de fogo actual, com períodos de dez a quinze anos de relativa acalmia seguidos de tragédias como as de 2003 ou 2017, temo bem que vamos continuar a gastar dinheiro inutilmente em reformas florestais, da protecção civil, limpezas jamais feitas pelo menos desde a última glaciação, sem qualquer retorno social associado.

Mas vale pegar no dinheiro e distribuí-lo de helicóptero.



1 comentário

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De Luís Lavoura a 24.04.2018 às 10:03

há um défice de competitividade que tem de ser suprimido pelo resto da economia

suprimido --> suprido

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