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A pretexto de futebol

por henrique pereira dos santos, em 02.07.24

Não sei o suficiente de futebol para escrever sobre futebol.

Tenho ideia de ler uma entrevista a Eugénio de Andrade a quem perguntavam por que razão, sendo ele um grande melómano e tão empenhado na musicalidade da sua poesia, nunca escrevia sobre música, ao que ele respondia que sobre a música se exigia que se escrevesse com um conhecimento técnico que ele não tinha.

Assim estou eu com o futebol.

Mas posso escrever sobre a extraordinária arrogância das opiniões públicas (não estou a falar das discussões em rodas de amigos ou no táxi, não as compreendo mas percebo que sejam mecanismos de socialização e integração comunitária) que vou ouvindo e lendo, vindas de uma espécie de especialistas que são os comentadores desportivos.

Eu não sei que qualificações é preciso ter para ser comentador desportivo, que nascem como cogumelos e, coisa espantosa e impensável noutras áreas do conhecimento, pode-se estabelecer uma reputação profissional de comentador desportivo a partir de uma assumida parcialidade de pontos de vista.

Eu sei que o mesmo acontece no comentariado político mas, ao menos, a generalidade dos comentadores políticos que assumem a parcialidade do ponto de vista não enganam ninguém, não estão ali para avaliar de forma mais ou menos objectiva se Ronaldo jogou bem ou mal, estão ali para substituir os outros Ronaldos da política.

Não faltam comentadores desportivos que têm absolutas certezas dos resultados que a selecção portuguesa alcançaria se se mudasse este ou aquele, ou o esquema de jogo ou seja o que for, nem o famoso jogo do campeonato do mundo, entre a Itália e o Brasil, ganho pela Itália, lhes serve para explicar que o resultado de um jogo é tão imprevisível que até inventaram o totobola, em que raramente se acerta no resultado final de meros treze jogos de equipas conhecidas, apesar de serem milhares os apostadores.

Um seleccionador, como qualquer jogador, fará erros, com certeza, uns fazem mais que outros, mas confesso que fico mesmo espantado com os comentários que ouço sobre Ronaldo, sobre a selecção ou sobre o seleccionador, lembrando-me sempre do letreiro que havia numa oficina de automóveis das Caldas: "aqui não se aceitam conselhos de quem sabe fazer melhor, só de quem já fez melhor".

Claro que a crítica é livre e o direito à asneira deve ser defendido com unhas e dentes, o que me espanta é mesmo o empenho e o desconchavo de muitas dessas críticas, vindas de gente cujo curriculum desportivo se reduz a ver muitos jogos, achando normal qualificar como evidentemente incompetente gente que põe uma equipa nos quartos de final de um campeonato europeu.

Imagino que, por exemplo, nenhum promotor de programas de cozinha aceitasse que o critério para escolher o júri fosse o peso dos jurados, no pressuposto de que comer muito é o mesmo que saber avaliar um cozinhado.

Aparentemente, o critério para escolher comentadores desportivos, no entanto, não parece ser muito diferente.


3 comentários

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De Silva a 02.07.2024 às 19:48

Há aí um equívoco.
O que se joga actualmente não é futebol.
O futebol foi assassinado (não sei exactamente a data certa), mas já lá vão uns anos.
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De Anonimus a 03.07.2024 às 07:04


Nasceram e cresceram, desde os comentadores peritos tipo Freitas Lobo até aos "notáveis ", estilo Seara ou blind zero man.
Entre esses e os peritos das redes, venham o diabo ou o musk e escolham.Faz parte do espectáculo. 
É a terceira parte do jogo, nas jogatanas era o convívio a falar mal uns dos outros,  a rir e brincar, isto é a versão televisiva.
Quem gosta, come.
Já dei para o peditório, e quem diz isto diz aqueles degredos com Guerras e Serrões, entretanto uma pessoa evolui. Aplica-se o mesmo à política. 
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De vv a 03.07.2024 às 18:10

Os milhões de euros gerados por esta atividade desportiva, tal como outras do mesmo género e também outras do mundo da arte e espetáculo, são um atrativo para todo o tipo de profissões é a chamada atividade económica.
As receitas permitem a proliferação de profissionais. 
Neste momento os comentadores de futebol são sobretudo ex jogadores e treinadores ou figuras públicas.

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