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A oligarquia nas ruas fechadas, no mosteiro e no cemitério

por José Mendonça da Cruz, em 09.01.17

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A Mário Soares, que em relação à área política que defendo era um adversário, devemos em muito o caminho da democracia, contra o caminho da servidão comunista. A Mário Soares devemos a admiração que merece qualquer político de talento, qualquer homem que respira, come, vive política, a quem a política corre no sangue e no cérebro, mesmo quando é contraditório, ou grosseiro, ou um pouco perdido.

A João Soares, antigo e bom colega de direito, «tipo porreiro», pessoa estimável, devo sentidos pêsames. Como a Eduardo Barroso, que não conheço, mas cuja atitude sempre humorada e cavalheiresca me encantava num defunto programa de futebol.

Dito isto:

O espectáculo a que assistimos hoje, em Lisboa e nas televisões, é obsceno. Hoje, em Lisboa e nas televisões, a oligarquia (que a si própria se intitula «Estado») declarou sonoramente a total indiferença a que vota os portugueses, as pessoas a que as televisões chamam «anónimos», ou «populares», ou «povo». Hoje temos aqui um teatro nosso em que se exige que participemos todos. Vocês, não. Trabalhem ou não trabalhem, andem pelas ruas ou não andem, fiquem em casa se sentirem as ruas tolhidas, adiem afazeres e compromissos que tenham, vão à merda com as vossas pequenas ocupações e os vossos incompreensíveis horários, estamo-nos cagando (assim mesmo), hoje as ruas são nossas, as ruas são sempre nossas.

Usaram para esta declaração o cadáver de Mário Soares, que foi enviado confrangedoramente, tontamente, a passear dentro de um caixão por Lisboa, para Norte e para Sul, agora para Oeste, agora para Norte outra vez, agora para Sul, agora para Sul e Sueste, agora para Leste, para Norte outra vez agora. Foi ao ralenti ou a passo de cavalo pelo meio de ruas vazias, que as televisões unanimemente declaravam pejadas de gente, de «populares», de «povo», de «anónimos», mesmo quando as imagens brutalmente as desmentiam. Hoje a oligarquia juntou-se para chorar umas lágrimas de crocodilo, dar uns abraços e aprazar negócios, e demonstrar a sua importância perante as serviçais câmaras. As «multidões» com que as televisões sonhavam, abstiveram-se. A abstenção cresce, cresce a apatia. Mas para isso, também, a oligarquia está-se cagando.

Menos mal que tenha estado ausente o primeiro-ministro António Costa. Aquilo que Soares combateu com risco da pele e da vida em defesa da democracia e do país, este acolheu e presenteou em nome da sobrevivência política. 



8 comentários

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De João Távora a 09.01.2017 às 21:46

Vai para dois dias que não vejo telejornais. Só música, jornais, livros e séries. Benditos tempos estes da Internet e da televisão por cabo. 
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De jcd a 09.01.2017 às 22:29

Tem razão João Távora, eu também não. Mas garanto que é bem pior de cada vez que o Benfica ganha um campeonato. E há que registar que os programas de futebol não têm sido interrompidos. Um dia de inconveniência de trânsito por Mário Soares? Posso bem com isso. Já me custa mais tantas e tantas greves de transportes que abundaram noutros tempos. Um Funeral de Estado é um Funeral de Estado. 
jcd
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De Anónimo a 09.01.2017 às 23:32

É um contraste total. Quando o Benfica ganha um campeonato Lisboa fica em estado de sítio, com o maralhal a cair todo no centro da cidade. É pancadaria nas ruas com fartura, mesmo entre eles. Com o funeral do Soares até parece que estamos num dia de "Agosto", porque toda a gente evitará vir à cidade. Aproveitem.
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De Anónimo a 09.01.2017 às 23:27

Ámen! Já somos dois.
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De JMS a 09.01.2017 às 22:40

Na RTP3 estão a dizer que milhares de pessoas anonimas se juntam à escumalha de hipócritas que, desde sábado, não dormem... são 22:26 de segunda feira, dia 9 de Janeiro de 2017. 


A RTP3 antecipou as comemorações do centenário da "revolução" de 1917, só pode.


As ruas vazias provam-no. 


Como é que é possível tanta demagogia em directo? Os "merdia" perderam totalmente a vergonha. Lá porque lhes correu mal este "evento", não era necessário fazerem estas tristes figuras. 


E ainda não entenderam porque é que estão a perder audiências. É preciso serem muito estúpidos...
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De Anónimo a 09.01.2017 às 23:23

Mas estavam à espera de recriar em Lisboa as ruas de Londres aquando das celebrações da Monarquia britânica? Vamos ser francos. Os portugueses estão-se borrifando para o Soares e para o regime, porque não sentem nenhum orgulho no Estado. O Estado português não tem poder, não tem prestígio internacional, e mesmo a memória de quando tinha já é longínqua. Acresce que a imagem dos políticos é negativa.
O presidente dos EUA projecta o poder da República imperial americana. A Rainha de Inglaterra tem a mística do Império e simboliza a memória de resistência britânica na II Guerra Mundial. É uma mulher que até os republicanos britânicos apreenderam a respeitar, devido ao seu exemplo de serviço ao país. 
O Soares era boçal, intriguista e preguiçoso. Portugal continua a ser um país pobre e com pouca liberdade, por ser um país pobre. Queriam que os portugueses "adorassem" o regime nestas condições? Os portugueses não pertencem à oligarquia que chora a morte do seu "padrinho". É uma realidade que nada diz às pessoas, e com razão.
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De Vasco Silveira a 10.01.2017 às 09:59

..."vão à merda com as vossas pequenas ocupações e os vossos incompreensíveis horários, estamo-nos cagando (assim mesmo), hoje as ruas são nossas, as ruas são sempre nossas."

Caro José Mendonça da Cruz


A Oligarquia que refere, herdeira exclusiva do dito pai da democracia, limitou-se a seguir a atitude que ele tinha para com os Portugueses- desapareçam!, pois a vossa existência incomoda a minha realidade.


Cumprimentos


Vasco Silveira
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De Ribas a 10.01.2017 às 15:27

Pelo máximo respeito de quem parte e mais no sofrimento de quem fica os meus mais que sinceros votos de gratidão.Respeito , por que um dia o meu nome em letras garrafais na lista aparecerá. Mas incomoda-me muitas das críticas, principalmente quem ainda é criança, mas se acha conhecedor, do bom, do patriota que acaba de partir.
Dizia um palrador das Tvs, daqueles que acha que sabe tudo. O homem foi bom e tudo fez por Portugal. Ele conhecia tudo e todos, pensava eu...dizia o dito, ele conhece o Manel, o Zé e a Maria e até foi dormir a uma humilde casa a pensar com os colares que um dia o levariam a Presidente... Acabou o diálogo com esta triste frase: O dito que nos deixa estava-se burrifando para aqueles que diziam mal deles.
Foi nesta última frase que ao longo dos anos interiorize: onde está o verdadeiro amigo dos pobres, dos denutridos, dos desempregados? Puramente nas tintas

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