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“Luís Montenegro cometeu um erro. E o erro foi não se ter desfeito por completo da empresa familiar que criou quando estava fora da política”.
Taxativo, o editor adjunto de política do Observador, Rui Pedro Antunes, aponta um erro a Luís Montenegro.
É uma opinião, perfeitamente legítima, tal como eu acho legítimo dizer que esta opinião demonstra um enorme desprezo pelos direitos individuais dos restantes membros da família Montenegro, que eram igualmente donos da empresa.
Aparentemente, Rui Pedro Antunes é contra a autonomia das mulheres num casamento, considerando que a mulher que Luís Montenegro não tem de ter opiniões nem tomar decisões que lhe dizem directamente respeito, tem de fazer o que o marido manda e ponto final.
Mais complicado, muito mais complicado, é o que, mais à frente, escreve.
A difamação é um instrumento político desde sempre e, consequentemente, as declarações difamatórias de Pedro Nuno Santos, ou doutro político qualquer, não justificam grande comentário e resolve-se em eleições.
A normalização da difamação nas redacções dos jornais, no entanto, acho que justifica um bocadinho mais de atenção.
“Era o momento para reconhecer o erro, desfazer-se por completo de uma empresa que sempre dependeu dele e dos seus contactos, pedir desculpa e seguir em frente. Reconhecer o que quase todos, incluindo no PSD e no Governo, já tinham percebido: que a família direta de um primeiro-ministro não deve continuar a receber avenças de empresas privadas que resultam única e exclusivamente da sua rede de conhecimentos e de amizades pessoais e políticas. É tão óbvio que não deveria ser preciso explicar isto”.
Vamos por pontos.
A angariação de clientes com base em amizades pessoais é o trivial nas relações humanas, todas as empresas do mundo têm, em maior ou menor grau, esta componente, portanto, sobre isto não há nada a dizer.
Mais complicado é dizer que a família directa de um primeiro-ministro não deve continuar a receber avenças de empresas privadas.
Não faço ideia do que Rui Pedro Antunes acha que é uma avença. Uma avença é um pagamento certo e periódico por troca de uma prestação de serviços.
O que se diz é que toda a família directa do primeiro-ministro não pode receber pagamentos de empresas privadas em troca de trabalho que executa.
Nem a lei, nem, convenhamos, o bom senso, dizem um disparate de tal calibre, claro que a família directa do primeiro-ministro pode trabalhar e receber o justo valor desse trabalho. Se é sob a forma de avença ou outra forma contratual qualquer, se é de empresas privadas, do Estado, de fundações ou do que quer que seja, é completamente irrelevante.
Difamação é o patamar seguinte, quando se resolve dizer que a empresa sempre dependeu de Montenegro.
Não porque não possa ser verdade, mas porque é afirmado sem qualquer indício minimamente objectivo.
Montenegro diz que se afastou da empresa em 2022, portanto, a empresa não depende dele há mais de dois anos.
Rui Pedro Antunes, está, portanto, a fazer duas acusações, uma grave, a de que Montenegro está a mentir, e outra muito grave, a de que o Primeiro-Ministro não está em exclusividade de funções.
Quando Montenegro saiu, a empresa contratou dois juristas para resolver o problema de ter ficado sem competências na área que era coberta por Luís Montenegro, indiciando que a empresa se terá autonomizado dele.
Os clientes, que tinham de facto sido angariados por Montenegro numa altura em que nada faria prever que hoje Montenegro fosse primeiro-ministro, mantiveram os contratos de prestação de serviços, indiciando que estavam satisfeitas com esses contratos, sugerindo que a empresa tinha deixado de depender de Montenegro.
O que faz, então, Rui Pedro Antunes afirmar que nada disto é assim, que é tudo uma mentira de Montenegro?
Nada, nenhum indício (nem falo de ser preciso ser completamente tonto para admitir a hipótese de o exercício das funções de primeiro-ministro dão tempo e oportunidade para que se faça uma perninha como principal activo de uma empresa deste tipo).
É isto que é a normalização da difamação e um grande contributo das redacções dos jornais para a degradação do regime.
“É tão óbvio que não deveria ser preciso explicar isto”.
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