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A normalidade do Chega

por henrique pereira dos santos, em 20.01.26

Parece que há por aí alguma esquerda que anda aos saltinhos a dizer que se tem de fazer uma barreira ao regresso do fascismo, da extrema-direita e esses moinhos de vento habituais e com uma longa história (já quando Cunhal deu a famosa indicação de voto para se tapar a cara do candidato e votar em Soares, o problema era o risco de eleger o fascista Freitas do Amaral, posteriormente ministro de José Sócrates, como se sabe, e cujos esforços para o regresso o fascismo continuam desconhecidos de toda a gente).

Do outro lado, há proclamações igualmente delirantes sobre a liderança da direita que resulta do nível de votação de um ou outro candidato, mas Freitas teve 46,31% na primeira volta, 48,8% na segunda, e chegou mais depressa a ministro de Sócrates (e, em 2015, apoiou Costa contra Passos Coelho) que a líder da direita.

Vamos lá, então, falar do Chega e de Ventura (perdoem-me o pleonasmo).

Tinha um boneco feito com um gráfico que não consigo carregar, de maneira que escrevo o que está o gráfico.

O Chega chega em 2019 às eleições onde tem uns 60 mil votos e elege um deputado. Ao contrário do apocalipse anunciado com a esquerda com a entrada do fascismo na Assembleia da República, a legislatura correu normalmente.

A eleição desse primeiro deputado segue-se a uma legislatura dominada pela geringonça, isto é, a coligação de perdedores que dinamitou as regras não escritas anteriores sobre a formação de governos a partir da Assembleia da República e é exactamente o caldo institucional criado pela geringonça (que inclui a defenestração de Passos Coelho no PSD para o substituir por Rui Rio) que gera o contexto que permite, quer ao Chega, quer à IL, quer ao PAN (neste caso, tinha entrado em 2015, mas passa de um para quatro deputados), quer ao Livre, entrar no parlamento, por haver muitos eleitores órfãos de representação pelos partidos mais antigos.

Nas eleições seguintes, em 2022, as que dão origem à maioria absoluta de Costa, que concentra os votos dos que estão convencidos de que o fascismo vem aí pela mão do Chega e o PSD de Rui Rio não lhe consegue fazer frente, o Chega demonstra a utilidade da cerca sanitária passando dos tais sessenta mil votos para quase 400 mil votos.

É então que com uma maioria absoluta de esquerda que se dá o movimento mais relevante do CHEGA, passando desses 400 mil votos para um milhão e quase duzentos mil votos, em menos de dois anos, nas eleições de 2024, ganhas, por uma unha negra, por Montenegro. O esplendor da utilidade da esquerda inventar moinhos de vento contra quem investir, em vez de tratar o Chega como um partido normal, com propostas políticas que são o que são, cuja discussão e escrutínio pelos outros partidos ajudam os eleitores a fazer opções (o Chega tem sido exímio no toureio, conseguindo que grande parte da esquerda e do jornalismo passe o tempo a investir contra questões imaginárias sobre o Chega em vez de discutir a suas propostas reais).

Mas, e essa é a questão central, desde 2024, ao contrário do que se está sempre a ver, ouvir e ler, o Chega não está num crescimento galopante, nas eleições seguintes, em 2025, tem um milhão e 450 mil votos, um aumento relevante de cerca de 200 mil votos (que se deve comparar com o crescimento de quase um milhão no tempo da maioria absoluta de Costa) e Ventura obtém agora pouco mais de um milhão e trezentos mil, isto é, menos cem mil que nas legislativas de 2025.

E este é o ponto em que estamos, com o Chega e Ventura num dilema estratégico: desde 2024 está mais ou menos atolado em 25% dos votos, o que é um resultado muito bom para um partido que tem uns seis anos, mas não sabe como crescer, isto é, apresentar propostas que seduzam eleitorados novos, sem perder os eleitores fidelizados, que tenderão a cansar-se da falta de poder real do Chega (André Ventura, na sua declaração de vitória nestas eleições presidenciais, disse, e aparentemente ninguém deu importância a essa afirmação, que o aumento de votação do Chega se estava a traduzir numa melhoria do país, o que para mim significa que tem uma consciência muito clara do perigo que representa para o Chega a acção do governo de Montenegro na migração e outras bandeiras do Chega).

O Chega não é nenhum papão, é só um partido que, na minha opinião, tem falta de consistência política, investe quase tudo nas componentes emocionais da política em detrimento da racionalidade das propostas de governação e incorpora aspectos messiânicos que a mim não me interessam nada, isto é, é um partido como os outros, que captou um eleitorado que não tinha representação ao falar de problemas de que os outros não queriam falar. Mas que segue o padrão dos populistas em todo o lado: diagnósticos razoáveis, soluções abaixo dos mínimos de qualidade, em grande parte porque a simplificação retórica dos problemas não contribui para os resolver melhor.

Ventura ser eleito presidente no dia 8 de Fevereiro só seria uma tragédia para o Chega, não para um país que aguentou dez anos de Marcelo Rebelo de Sousa e por isso não seriam dez anos de Ventura que o iriam abalar.

Por mim, prefiro de longe a solidez institucional de Seguro ao "much ado about nothing" que caracteriza Ventura e o Chega, mas não vale a pena atribuir-lhe mais importância que a que tem, inventando moinhos de vento contra quem é imprescindível investir, como faz boa parte da esquerda.


14 comentários

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De Anónimo a 20.01.2026 às 11:40


O problema das "regras não escritas" é que elas só existem na cabeça de quem consegue ler tinta invisível.
Se não estão escritas, então não existem - a não ser na imaginação de alguns.
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De passante a 20.01.2026 às 19:50

Por amor da santa, desde os jogos de crianças à "unwritten constitution" inglesa o que falta é direito consuetudinário - olha, até há uma palavra para isso, quem diria.
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De JPT a 21.01.2026 às 10:55

As regras da educação e da ética não são escritas, mas, inevitavelmente, isso é coisa que que não as tem (ou porque não as recebeu ou porque não as aceitou) não percebe.
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De Anónimo a 20.01.2026 às 12:14

Inteiramente de acordo com a totalidade deste post.


A Esquerda exceptuando o PCP e o Partido de Garcia Pereira, no seu zelo missionário e na defesa da fé verdadeira, mais não tem feito que publicitar, promover e sustentar o Partido de André Ventura e a ele próprio.


Menção honrosa para Augusto Santos Silva e a altíssima ideia 💡 da Porta Lateral na AR para entrar e sair, André Ventura.


Tudo isto já tem anos mas seja por curteza de vistas, pequenez mental ou estupidez crassa, pura e simples, o facto é que aquela malta não desarma.


E o Chega nem tem de lhes pagar  avença.


Para descanso e proveito de André Ventura, os desgraçados suam e dão ao litro só por amor á camisola.


Que gente triste 
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De Anónimo a 21.01.2026 às 01:48

É verdadeiramente voluntariosa a sua descrição do gráfico e a forma como aconchega o chega. Continua é a enganar-se no título do seu próprio post. Não será ‘Anormalidade do chega’?
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De Anónimo a 21.01.2026 às 18:41

Olhe que essa é a abordagem típica de certa "Esquerda," que mais tem promovido o Chega.


Dito de outra forma, em grande medida o Chega chegou a onde está,  ajudado pelas "mentes brilhantes" da  Esquerda.


É preciso ter esperto na cabeça 












Sobretudo pela extrema esquerda
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De Anonimo a 21.01.2026 às 18:47

Está a insinuar que o escriba apoia as políticas e ideias desse partido?
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De Anónimo a 21.01.2026 às 08:50

A esquerda, quando suspeita de uma possível contestação ou quando pressente uma ameaça à sua hegemonia,  costuma usar o velho truque, da "táctica do salame". Então, ardilosamente, começam a agitar papões assustadores que nos vão engolir ... Será preciso afiar as facas, combatê-los! Destrui-los! E ala! Vamo-nos a eles!!
No fim, engasgam-se... 
Lembrei-me deste texto imperdível do Miguel Pinheiro onde explica bem como tem sido usada a "táctica do salame":


 https://observador.pt/opiniao/pedro-nuno-santos-aplica-a-tatica-do-salame/
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De VO a 21.01.2026 às 08:55

O PS é um milagre permanente, chafurda no pântano, mas logo aparece uma providência a perfumar o lodo...
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De Francisco Almeida a 21.01.2026 às 10:02

O grande vencedor destas eleições e de que ninguém fala é José Luís Carneiro. Montenegro está fragilizado. Viu fugir-lhe dois terços do eleitorado e sensível número de barões. Isto não se reflecte na AR mas, no mínimo, abala convicções e diminui a confiança. Não me é difícil adivinhar Montenegro na mesma situação de António Costa, que não conseguia remodelar o governo porque não encontrava quem quisesse assumir.
Um aparte par lembrar que Cotrim acusou Montenegro de pôr o partido à frente do país. Eu já me pergunto se, para se manter como líder e primeiro-ministro, Montenegro vai pôr-se, ele mesmo, à frente do partido.
Estas eleições e a segunda volta, confirmarão a oposição de Ventura a Montenegro que, aliás, ele não esconde em declarações de que o resultado foi uma derrota do montenegrismo. Por aí não vão existir entendimentos. Assim José Luís Carneiro, ganhou o lugar de árbitro da política nacional. Serão aprovadas as leis que ele deixar passar e o governo ficará em funções enquanto ele quiser. Nada mal para um cinzentão que toda a gente via como um interregno.
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De Anónimo a 21.01.2026 às 14:32

Está a delirar, não está? Percebo-o, às vezes o entusiasmo tolda o juízo.
São assim os socialistas... já vão sonhando com o Sampaio e lambendo os beiços. 
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De Anónimo a 21.01.2026 às 20:52

Concordo que lhe pareça delírio mas o comentário do colega Francisco Almeida 21-20:02 é inteiramente justificado.


O José Luís Carneiro está já na antecâmara do Gabinete de Primeiro Ministro.


Próximo Primeiro Ministro 
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De Marques Aarão a 21.01.2026 às 10:54

Entre lavar pratos e partir a loiça ficamos pelo menos mal, assim vamos em Portugal. Está pronto o terreno para campo de concentração politico sem escapatória.
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De Anónimo a 21.01.2026 às 23:45

Caro Henrique Pereira dos Santos,


Leio as suas crónicas com grande interesse pois mostram-me sempre perspectivas novas. 
Também prefiro a solidez institucional de Seguro, mas confesso que a ideia de votar em André Ventura me tem assaltado. Não por lhe reconhecer talento - o que o põe em pé de igualdade com vários PR - mas tão somente por curiosidade. Chega sem o A. Ventura? O A. Ventura quer mesmo a presidência? Conseguiria estar 5 (ou 10) anos confinado à presidência, ou seria um Marcelo II (ainda) mais estridente?


Cumprimentos,
Catarina Silva

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