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Parece que há por aí alguma esquerda que anda aos saltinhos a dizer que se tem de fazer uma barreira ao regresso do fascismo, da extrema-direita e esses moinhos de vento habituais e com uma longa história (já quando Cunhal deu a famosa indicação de voto para se tapar a cara do candidato e votar em Soares, o problema era o risco de eleger o fascista Freitas do Amaral, posteriormente ministro de José Sócrates, como se sabe, e cujos esforços para o regresso o fascismo continuam desconhecidos de toda a gente).
Do outro lado, há proclamações igualmente delirantes sobre a liderança da direita que resulta do nível de votação de um ou outro candidato, mas Freitas teve 46,31% na primeira volta, 48,8% na segunda, e chegou mais depressa a ministro de Sócrates (e, em 2015, apoiou Costa contra Passos Coelho) que a líder da direita.
Vamos lá, então, falar do Chega e de Ventura (perdoem-me o pleonasmo).
Tinha um boneco feito com um gráfico que não consigo carregar, de maneira que escrevo o que está o gráfico.
O Chega chega em 2019 às eleições onde tem uns 60 mil votos e elege um deputado. Ao contrário do apocalipse anunciado com a esquerda com a entrada do fascismo na Assembleia da República, a legislatura correu normalmente.
A eleição desse primeiro deputado segue-se a uma legislatura dominada pela geringonça, isto é, a coligação de perdedores que dinamitou as regras não escritas anteriores sobre a formação de governos a partir da Assembleia da República e é exactamente o caldo institucional criado pela geringonça (que inclui a defenestração de Passos Coelho no PSD para o substituir por Rui Rio) que gera o contexto que permite, quer ao Chega, quer à IL, quer ao PAN (neste caso, tinha entrado em 2015, mas passa de um para quatro deputados), quer ao Livre, entrar no parlamento, por haver muitos eleitores órfãos de representação pelos partidos mais antigos.
Nas eleições seguintes, em 2022, as que dão origem à maioria absoluta de Costa, que concentra os votos dos que estão convencidos de que o fascismo vem aí pela mão do Chega e o PSD de Rui Rio não lhe consegue fazer frente, o Chega demonstra a utilidade da cerca sanitária passando dos tais sessenta mil votos para quase 400 mil votos.
É então que com uma maioria absoluta de esquerda que se dá o movimento mais relevante do CHEGA, passando desses 400 mil votos para um milhão e quase duzentos mil votos, em menos de dois anos, nas eleições de 2024, ganhas, por uma unha negra, por Montenegro. O esplendor da utilidade da esquerda inventar moinhos de vento contra quem investir, em vez de tratar o Chega como um partido normal, com propostas políticas que são o que são, cuja discussão e escrutínio pelos outros partidos ajudam os eleitores a fazer opções (o Chega tem sido exímio no toureio, conseguindo que grande parte da esquerda e do jornalismo passe o tempo a investir contra questões imaginárias sobre o Chega em vez de discutir a suas propostas reais).
Mas, e essa é a questão central, desde 2024, ao contrário do que se está sempre a ver, ouvir e ler, o Chega não está num crescimento galopante, nas eleições seguintes, em 2025, tem um milhão e 450 mil votos, um aumento relevante de cerca de 200 mil votos (que se deve comparar com o crescimento de quase um milhão no tempo da maioria absoluta de Costa) e Ventura obtém agora pouco mais de um milhão e trezentos mil, isto é, menos cem mil que nas legislativas de 2025.
E este é o ponto em que estamos, com o Chega e Ventura num dilema estratégico: desde 2024 está mais ou menos atolado em 25% dos votos, o que é um resultado muito bom para um partido que tem uns seis anos, mas não sabe como crescer, isto é, apresentar propostas que seduzam eleitorados novos, sem perder os eleitores fidelizados, que tenderão a cansar-se da falta de poder real do Chega (André Ventura, na sua declaração de vitória nestas eleições presidenciais, disse, e aparentemente ninguém deu importância a essa afirmação, que o aumento de votação do Chega se estava a traduzir numa melhoria do país, o que para mim significa que tem uma consciência muito clara do perigo que representa para o Chega a acção do governo de Montenegro na migração e outras bandeiras do Chega).
O Chega não é nenhum papão, é só um partido que, na minha opinião, tem falta de consistência política, investe quase tudo nas componentes emocionais da política em detrimento da racionalidade das propostas de governação e incorpora aspectos messiânicos que a mim não me interessam nada, isto é, é um partido como os outros, que captou um eleitorado que não tinha representação ao falar de problemas de que os outros não queriam falar. Mas que segue o padrão dos populistas em todo o lado: diagnósticos razoáveis, soluções abaixo dos mínimos de qualidade, em grande parte porque a simplificação retórica dos problemas não contribui para os resolver melhor.
Ventura ser eleito presidente no dia 8 de Fevereiro só seria uma tragédia para o Chega, não para um país que aguentou dez anos de Marcelo Rebelo de Sousa e por isso não seriam dez anos de Ventura que o iriam abalar.
Por mim, prefiro de longe a solidez institucional de Seguro ao "much ado about nothing" que caracteriza Ventura e o Chega, mas não vale a pena atribuir-lhe mais importância que a que tem, inventando moinhos de vento contra quem é imprescindível investir, como faz boa parte da esquerda.
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