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A neo-antiglobalização

por Convidado, em 11.05.20

Multiplicam-se na comunicação  social notícias que são o prelúdio da neo-antiglobalização. A diferença, agora, é que ao contrário do usual e erróneo argumento, de que o comércio internacional produz vencedores e vencidos, parte de uma premissa verdadeira, que será extrapolada e distorcida até permitir tirar conclusões erradas.

A pandemia (sempre ela), veio tornar evidente, nalguns sectores, a dependência internacional (do Ocidente) de fornecedores não amigos (a China). A questão começou a colocar-se quando a procura de máscaras e ventiladores, entre outros productos, aumentou subitamente e de repente não havia oferta suficiente para atender às necessidades. Ao mesmo tempo, muitos países (sobretudo no Ocidente) impediram as exportações e guardaram para seu uso esses produtos, que se tornaram escassos em face à crescente necessidade.

Multiplicaram-se também notícias de paralisações de industrias causadas pela implosão das cadeias logísticas internacionais, ou seja, porque algures no planeta (na China) alguém não tinha produzido o que devia.

Verificada a extensão dos danos, começou-se a olhar para a enorme quantidade de outros bens em que existe dependência internacional. Ainda no outro dia li um artigo que alertava para o perigo da maior parte dos analgésicos consumidos nos EUA serem fabricados na China, tal como a maior parte de outros medicamentos baratos (os caros continuam a ser produzidos localmente).

Imediatamente a imaginação dos saudosistas de mercados protegidos começou a funcionar. Empresários e Sindicalistas, darão as mãos, no futuro próximo, em prol da criação de reservas de mercado. O sonho de uma vida sem concorrência é realmente sedutor. Em Portugal, já se especula que, a necessidade do Ocidente ser menos dependente de terceiros (da China), vai catapultar a sua mão-de-obra barata ou a sua privilegiada memória de como se fazem os produtos de baixa tecnologia, para um novo período de glória industrial subsidiada.  

É verdade que a realidade importa bem menos do que percepções e convicções políticas. E,  por isso, a ameaça à globalização é real, tal como já acontecia antes desta crise. Mas o que acontece, é muito diferente da narrativa com que vamos ser invadidos.

As faltas de material médico que ocorreram, iriam verificar-se qualquer que fosse o pais que os produzisse antes. Nenhuma industria está preparada para dobrar a produção de um dia para a noite, quanto mais multiplica-la por 5, 10 ou 100, em função de uma procura imediata e inesperada.

Espantosa foi a velocidade com que mascaras e ventiladores apareceram, não se sabe muito bem de onde. O mercado livre é mesmo extraordinário!

Não tenho conhecimento de existirem faltas e roturas de outro tipo de bens e serviços não ligados à pandemia. Os tais comprimidos baratos e outros artefactos mais ou menos imprescindíveis, continuaram a ser disponibilizados pela China. Como de resto aconteceu de forma geral com tudo o que continuou a poder ser comprado, em lojas que continuaram abertas ao público.

As industrias que pararam fizeram-no, mais por falta de procura dos seus produtos do que por rotura das cadeias de distribuição. Que obviamente também ocorreram, como poderiam ter ocorrido mesmo que toda a cadeia de produção estivesse instalada no mesmo país.

A possibilidade de haver problemas quando haja uma interdependência global é muito maior, já que há que somar dificuldades que podem ocorrer em todo o globo. Mas problemas com sérias implicações no comércio internacional não têm acontecido. Pandemias graves, na história dos últimos séculos, são menos de uma a cada cem anos. Não parecem elas ser, por isso, um critério relevante para decisões estruturais contrarias á globalização.

É evidente que a extraordinariamente complexa rede de relações num mundo globalizado, causa interdependências. É evidente que considerações geoestratégicas criam a necessidade de salvaguardas que em muito transcendem a lógica económica. A caríssima política agrícola comum, é um exemplo poderoso. Mas não é menos verdade que reservas estratégicas que compensem um período de quebra de cadeias logísticas, sempre foram consideradas suficientes para salvaguardar dependências. Até porque estas são sempre em dois sentidos: todos dependem de todos, com o comércio internacional.

A única lógica que poderá justificar uma atenção particular a esta questão, é a do cavaleiro do apocalipse que falta. Já temos Peste, Morte e Fome… pelo que só falta mesmo a Guerra. Um factor que se torna menos plausível e próximo exactamente por causa das interdependências que a globalização nos promove. Até lá, há sempre tempo para empobrecermos ainda mais e fabricarmos de forma mais cara o que outros fazem mais barato. Honestamente, espero que os que anseiam pela nova vaga industrial para substituir administrativamente a dependência do oriente fiquem desapontados. Já temos problemas suficientes para a eles somarmos o fim dos benefícios do comércio internacional.

José Miguel Roque Martins
Convidado Especial*

* As opiniões manifestadas pelos nossos convidados são da sua exclusiva responsabilidade. 



5 comentários

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De Luís Lavoura a 11.05.2020 às 16:03

O problema é mais grave do que simplesmente a Europa ou o EUA estarem contra a China. É pior que isso: os próprios países dos EUA e da Europa estão cada vez mais uns contra os outros. Vimos nesta crise a Alemanha a roubar máscaras a França, Israel a roubar ventiladores a Portugal, e coisas desse género. Vimos nesta crise os países todos descoordenados a introduzir restrições fronteiriças uns contra os outros, e a impôr lockdowns todos diferentes. É todo um nacionalismo que está de volta. A Comissão Europeia ficou despida de todo o seu poder, com cada país da Europa a tratar somente de si mesmo.
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De Anónimo a 11.05.2020 às 18:07

Concordo consigo Luis, o nacionalismo ( em geral) já ameaçava a globalização. 
Esta crise tem a capacidade de ser um catalisador que garanta uma enorme crise económica, financeira e sobretudo política! Quanto ao comercio livre, vai ser uma década muito difícil.....
ze miguel
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De Isabel a 12.05.2020 às 13:14

A propósito deste tema, escrevi há dias, noutro blog, o seguinte:
Isabel PERMALINK (https://blasfemias.net/2020/05/08/austeridade-pela-honra-e-em-nome-do-futuro/#comment-2169827)
9 Maio, 2020 17:48

A livre circulação de bens e serviços pode ser benéfica se, como em todos os negócios, todos os países ganharem com o acordo assinado. A livre circulação de pessoas e, sobretudo, de capitais, é que faz fugir a procura de trabalho de região para região em função das vantagens nos custos de produção e dos benefícios fiscais.
A austeridade, actualmente, é um flagelo que destrói as classes médias e não afecta as classes superiores que, sem qualquer restrição, vão trabalhar ou investir para países onde desfrutam sempre das melhores condições.
Por outro lado, a impossibilidade de controlar a política monetária em período de crise, impede a implementação de medidas de recuperação rápida ( vide os cerca ce ano e meio a dois anos necessarios para recuperar das crises de 1978 e de 1983, comparados com os anos necessários para recuperar da crise de 2008 ) que a arquitectura do euro não permite.
Finalmente, é incompreensível que um contrato de empréstimo que decorre da vontade de duas entidades, sendo certo que o emprestador está consciente do risco que corre traduzido no juro que exige ( ou, se não está, é incompetente ), seja resolvido com prejuízo único do devedor.
Governante que endivide um país nas actuais condições do sistema bancário europeu deveria ser julgado pelo futuro que compromete para as actuais e futuras gerações do país.


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De Vasco Silveira a 12.05.2020 às 19:10

Caro senhor


apesar de uns Estados Unidos desorientados e com muitas vozes e de uma Europa ( como diria Metternich da Itália, o que é isso para além de um conceito geográfico) de joelhos ( presentemente em relação à China) devemos estar todos gratos à , como agora se diz "Resiliência" de toda a fileira alimentar e de grande distribuição, na logística, distribuição, grande e pequeno retalho, por nada nos ter faltado até agora: bifes, ovos, papel higiénico ( não se teleproduzem) nunca faltaram, e isso deu uma grande tranquilidade nestes tempos estranhos de confinamento: todos LHES temos uma grande dívida de gratidão.
Mas , como referia o Economist desta semana, nada disso é garantido:se os imbecis dos nossos governantes começarem a pavonear-se sobre o acontecimento, com reservas estratégicas, margens de rentabililade máximas, e outros bonitos para títulos de jornal, podem conseguir dar cabo de um extraordinário feito até agora conseguido por esse sector. Aqui deixo a minha profunda gratidão: sem comidinha as coisas seriam muito difíceis para a totalidade da população.


Cumprimentos
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De pitó a 13.05.2020 às 20:41


Caro Senhor Convidado Especial,
Vexa perdeu-se no espaço e no tempo. Que texto mais maçudo!

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