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"A mudança de regime em Vila Nova de Famalicão" (I)

por João-Afonso Machado, em 04.10.16

BOLETIM CULTURAL.JPG

No dia 5 de Outubro de 1910, precisamente, o semanário Notícias de Famalicão, sub-intitulado “Órgão do Partido Regenerador local”, vinha a público com um longo editorial em que prosseguia acesa polémica com o seu congénere Regenerador sobre a influência do Abade de S. Cosme do Vale na eleição da Mesa da Santa Casa da Misericórdia. A expulsão dos “frades da Aldeia da Ponte” dava o mote à entrevista ao Par do Reino Joaquim Teles de Vasconcelos, e assim ficava preenchida a primeira página desta edição do sobredito periódico.

V. N. de Famalicão, como o País, de norte a sul, ignorava o que, a esse tempo, agitava Lisboa e produziria o fim de um regime quase oito vezes secular – a Monarquia portuguesa.

Substituiu-o a República, como se sabe. E como esta foi recebida na nossa terra pode, decerto, ser apreendido através da leitura do número seguinte do Notícias de Famalicão, datado de 12 desse mês.

Passemos os olhos por ele.

A toda a largura da sua fachada principal, inscrevia-se: 

Após uma luta grandiosa em actos de valentia, travada nas rua da capital, acaba de triunfar a vontade popular – a implantação da República Portuguesa

Agora, portanto, todos podemos gritar livremente:

Viva a República!” 

Seguia-se um veemente apelo à dignidade da conduta dos cidadãos, a uma sua exemplar manifestação de civismo. Era de esperar, doravante, um “Regime de Ordem e Trabalho”, sem excessos quaisquer. Enfim, preconizava-se uma “Democracia honrada”, necessariamente “forte no dia de combate mas generosa no dia da vitória”.

O temor do Director do Notícias de Famalicão, Guilherme da Costa e Sá, e do seu Administrador, António Maria Pereira, era inocultável. Nessa edição de 12 de Outubro, o jornal deixara já pelo caminho o sub-título “Órgão do Partido Regenerador local”. A sua adesão à República foi pronta, apressadíssima, quase pedincha. Sem rebuço quanto à surpresa em que haviam caído, infantilmente formulando votos de um sol novo a aquecê-los também. Deste modo, ainda: 

PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

Está proclamada a República em Portugal, tendo este facto tão extraordinário como inesperado ecoado com verdadeiro assombro em todo o País, que recebeu o novo regime com benévola expectativa, confiado apenas nas promessas dos seus processos de administração”. 

O recado era para os fautores da revolução. E traduzia uma vontade de adesão, assim o novo Poder político esquecesse também o seu passado monárquico. Solicitamente transcrevem a composição do Governo Provisório, conforme o anúncio publicado na folha oficial. E esmeram-se na narrativa da entronização (termo meu…) da República, em cerimónia levada a cabo a 7 de Outubro: 

A proclamação em Famalicão

No sábado último, pelo meio-dia, nos paços do concelho e perante numerosa multidão, o sr. Joaquim José de Sousa Fernandes, presidente da Comissão Municipal Republicana, comunicou num eloquente e caloroso discurso a proclamação da República Portuguesa.

Explicando ao povo o motivo daquela grande reunião (…) terminou por declarar que, em nome do Governo provisório do novo regime, ali proclamava oficialmente essa República redentora da nossa Pátria”. 

O que havia sucedido? Aquilo que sempre acontece após qualquer revolução. Sousa Fernandes, um abastado proprietário famalicence, com currículo feito no Brasil, fundou (em 1895) a Comissão Municipal Republicana local, agregando os muito poucos partidários desta causa quase sem expressão política na vida do concelho. Consumada a queda da Monarquia, o mesmo Sousa Fernandes, ao que parece cumprindo instruções oriundas da sede distrital, convocou as gentes, deu a conhecer a consumação dos factos e… declarou a República o regime vigente. Para o que mais não terá sido necessário, ainda conforme o Notícias de Famalicão, senão um vibrante e sonoro “Viva a República!” por si largado e pelos presentes “acolhido com muito entusiasmo”.

Logo se aprestou a tomar posse da administração do concelho – nas revoluções o tempo urge e a consulta popular em regra é dispensada – em cerimónia a que assistiram “as pessoas mais gradas da vila e do concelho”. Efectivamente. E no número preciso de 174 “cidadãos” a assinar a acta lavrada então pelo secretário da Câmara Municipal. Nenhum dos aderentes ao novo regime é esquecido na reportagem efectuada pelo Notícias de Famalicão. Do rol sobressaem alguns dos mais conhecidos apelidos do comércio local. Mas somente seis eclesiásticos manifestam a sua anuência à República. E o Director e o Administrador do periódico, ainda regenerador a semana anterior, também eles aceitam a revolução e subscrevem o mencionado documento. Do mesmo modo procede Daniel Santos, até à data o Presidente da edilidade. A qual, de resto, foi logo tomada de assalto pelos “restantes membros da Comissão Municipal Republicana” e, em uníssono, prodigalizou elogios a Teófilo Braga, ao Governo Provisório, aos combatentes da Rotunda.

Enquanto tal, a vida prosseguia naturalmente, ruralmente, nas freguesias do concelho. No contínuo amanho da terra que a Política, todos sabiam, não fertilizava.

Corre uma semana. Ainda longe dos tempos mais turbulentos, o Notícias de Famalicão toma partido, no editorial de 19 de Outubro, na questão da nova bandeira. Quere-a azul e branca, sem coroa (como já não fazia sentido), e cita Guerra Junqueiro, o grande defensor desta solução de continuidade nacional. Eram as cores da Fundação… E sob o título “Com nariz de dois palmos” vira-se contra “certos tartufos”, convertidos tardios, hesitantes, presentes na referida sessão promovida por Sousa Fernandes, onde não tinham “tido a coragem e independência de carácter de assinar o auto de proclamação do novo regime”. Era já a troca de acusações de adesivagem. Justificava-se, por isso, o Notícias de Famalicão: “nunca militámos no partido republicano que conseguiu implantar no nosso país o regime da República: militámos sempre num partido que era monárquico e fomos aderir ao novo sistema, como foi e pelas mesmas razões a grande maioria da nação”.

Ainda nesta edição é notícia a conversão de mais 70 cidadãos e a nomeação dos novos regedores das freguesias, por iniciativa e mando de Sousa Fernandes, o Presidente da Comissão Municipal Republicana.

 

(in Boletim Cultural 2014/2015, IV série, nº 8/9, ed. Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, 2016)

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