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(...) Em suma, D. Carlos não foi rei de um regime condenado, mas de um regime que, devido à história portuguesa no século XIX, dependia inteiramente da habilidade e da sorte do rei para levar a classe política a aceitar a disciplina e os compromissos necessários para tornar possível o governo constitucional. D. Carlos, que era realista e prudente, mostrou quase sempre habilidade, mas no fim faltou-lhe sorte. É muito provável que, não tivesse morrido em 1908, a monarquia tivesse durado, porque a sua queda se deve em parte à política da rainha viúva e de D. Manuel.

Finalmente, qual o significado da opção entre a monarquia e a república em 1910? Não era a opção entre monarquia e democracia. Nem a monarquia constitucional nem a república contaram com uma massa de cidadãos independentes, capazes de serem o árbitro da luta pelo poder. A diferença estava em que, na monarquia, havia um instrumento, que era o rei, para operar a alternância pacífica no governo entre os partidos, e que na república deixou de haver esse instrumento. Por isso, a Primeira República portuguesa, depois de 1910, foi um regime dominado por um partido – o Partido Democrático — que nunca saiu pacificamente do poder. Em 1913, aliás, para melhor controlar as eleições, o Partido Democrático restringiu o direito de voto da população, fazendo a percentagem de cidadãos com direito de voto descer de 75% para 30%.

Em Portugal, o fim da monarquia constitucional representou assim, no princípio do século XX, um enorme recuo da democracia, não só no que diz ao número de eleitores, mas na possibilidade de alternância de partidos no governo por meios pacíficos. Pode-se dizer que a morte de D. Carlos abriu o caminho para o autoritarismo em Portugal.

 

Rui Ramos  "D. Carlos e o Fim da Monarquia em Portugal" a ler na integra aqui

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6 comentários

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De Luís Lavoura a 02.02.2018 às 18:00

Não me parece que faça sentido dizer que o regicídio abriu o caminho para o autoritarismo, uma vez que o regime em que D. Carlos tinha o reino era a ditadura de João Franco - ou seja, já era um regime autoritário! O regime antes do regicídio já era ditatorial...
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De Luís Lavoura a 02.02.2018 às 18:04

Convem ter em conta que nesse tempo houve diversos regicídios ou tentativas deles. Alexandre II da Rússia foi assassinado em 1881 e em 1914 o príncipe-herdeiro do Império Habsburgo também foi assassindao; é possível que tenha havido outros regicídios, não sei. Seja como fôr, o regicídio não era incomum nessa época. O regicídio português não foi uma coisa do outro mundo.

(Já agora, quatro presidentes dos EUA também já foram assassinados.)
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De O SÁTIRO a 03.02.2018 às 00:04

LL
o assassínio de PRs EUA (mais de 4) foram atos isolados que não implicaram mudança de regime ou de constituição
nem o caso de Lincoln, aquele que poderia dividir o país ou alterar o regime...
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De Luís Lavoura a 05.02.2018 às 09:17

Precisamente, em qualquer país com um regime minimamente estável, o assassinato de um presidente (ou rei) não tem consequências de maior. Arranja-se outro, e prontos. De um assassinato não decorre um golpe de Estado.
E em Portugal também não decorreu. O rei foi assassinado em 1908, o golpe de Estado só foi em 1910. Não tem nada a ver uma coisa com a outra.
Aliás, não foi o único rei português que foi assassinado. Suspeita-se fortemente que D. João II também o tenha sido (envenenado). E daí não adveio mal nenhum para a monarquia - D. João II não tinha filhos, sucedeu-lhe um primo. Não houve nenhum golpe de Estado.
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De O SÁTIRO a 02.02.2018 às 23:59

O Partido Republicano tinha total liberdade na monarquia constitucional.
concorria a eleições, tinha jornais, propaganda etc.
aliás, presidia à Câmara de Lisboa..
o regicídio, bem como as perseguições durante a república (à igreja católica por ex..) só demonstra que os republicanos sofriam de tiques ditatoriais, violentos, com tendências para o assassínio......veja se a noite da charrette em que foram assassinados líderes republicanos moderados...
criaram várias policias politicas que corriam pelos cantos das cidades a grunhir viva a república  e ai de quem não gritasse.
roubaram a igreja católica á grande , em especial o afonso costa, jacobino tresloucado.
na minha aldeia o padre..sem nada de politico....foi escondido numa cave pelo dono da casa, que corria o risco de ser morto...........só assim o padre não
 morreu á fome no meio da rua.
muitos casos semelhantes aconteceram
por fim.. BANCARROTA


foi uma época do pior que há na história de portugal
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De JS a 03.02.2018 às 10:00

Rui Ramos, nesta excelente súmula, se bem percebi, aponta para a constante ferida na política portuguêsa . A partidocracia. A concentração do poder político em diferentes grupos, os partidos, com interesses próprios e a consequente luta pelo poder político entre eles ... e dentro deles. O País, relegado para segundo plano, aparece apenas como o relvado -pisado- e usado para essa, a outra, a mais importante peleja.

Antes do regicídio, com o Rei alternando equilíbrios entre os poderosos partidos.
Depois do regicídio:  "... Por isso, a Primeira República portuguesa, depois de 1910, foi um regime dominado por um partido – o Partido Democrático — que nunca saiu pacificamente do poder...".

Tal como hoje. A consequência de um sistema eleitoral que elege partidos -grupos de personagens que buscam o poder pelo poder- em vez de um sistema eleitoral em que os vencedores, numa lista de candidatos, obtêm (ou não) o poder político de representar cidadãos eleitores.
Hoje dir-se-ia que o alargar do número de beneficiários das migalhas reais, via socialista, garante uma aparente -porque artificial- estabilidade. Instável, porque via dívida soberana.
Um dia deste haverá mais um UEicídio.

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