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A miragem do bem-estar

por João Távora, em 18.09.25

terror-robespierre.jpg

Muito se tem escrito e falado sobre a polarização política que ameaça a paz social nas democracias ocidentais, nomeadamente na Europa em geral e particularmente em Portugal.  A causa desta rebelião, repetidamente afirmada pelos comentadores e que eu me permito refutar nestas linhas, é a falta de expectativas pelo povo da melhoria das condições de vida que foi proporcionada às gerações anteriores (à minha e inclusive). Não sendo o meu caso particular um bom exemplo, não me escuso de o mencionar: a ascendência de que provenho, há vários séculos que vem perdendo influência social e poder económico. Esse facto não faz da minha família e parentescos gente particularmente dada à revolta e à irreverência, antes pelo contrário.

Não tenho dúvidas de que o custo da vida, no sentido de dificuldades de realização material, ainda é muito penalizador para demasiados portugueses, certamente por muitas razões que não vêm ao caso aqui elencar. O elevador social em Portugal é demasiadamente imperfeito e isso tem custos sociais relevantes: o grau de esforço necessário a um individuo para sair do circuito de pobreza ainda é muito grande a comparar com outras nações europeias. O problema é que os comentadores referem este fenómeno de falta de expectativas materiais também noutros países bem mais “evoluídos” social e economicamente que o nosso. Veja-se o grau de polarização no Reino Unido e em França só para dar dois exemplos mais mediáticos.

Ora, o que eu tenho para mim é que, atingido um determinado nível de bem-estar material, a certo ponto permite relevar-se no individuo outra classe de insatisfação. A “satisfação”, como cantam os Rolling Stones, é algo sempre inatingível para a natureza humana. Portanto, colocar a resolução dessa inquietação existencial em objectivos materiais seria sempre um erro. Como foi uma ingenuidade dos políticos acreditarem que seria possível uma economia eternamente em crescimento.

Acontece que algo me diz que a “felicidade” é uma meta muito mais longínqua sem uma educação espiritual. Sem a crença em algo maior que nós, sem um crescimento interior, com vista a aspirações mais ambiciosas, a causas maiores. Talvez a secularização da Europa explique em grande medida os fenómenos de radicalização e rebelião que nos ameaçam. São uma ameaça justamente no ponto do globo com mais bem-estar económico, regalias sociais, e pasme-se, liberdade individual. Quem diria que tudo isso junto se poderia tornar numa armadilha, o nosso pesadelo - a ausência de Deus.  

Gravura: execução de Robespierre


16 comentários

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De Pedro Oliveira a 18.09.2025 às 17:47

Caro João Távora,
Deus visto por esse prisma (recuso essa visão) é um empecilho para a acção.
Esse Deus teria os braços cruzados e estaria sempre a murmurar: "podeis ser uns desgraçados aqui mas ireis para o paraíso da vida eterna".
O Deus em que acredito é o que transforma a água em vinho e que grita irritado: "quem não tiver pecados que atire a primeira pedra".
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De João Távora a 18.09.2025 às 18:07

Acho que não entendeu nada do que eu escrevi. Certamente por falha minha.
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De Pedro Oliveira a 18.09.2025 às 18:16

"Talvez a secularização da Europa explique em grande medida os fenómenos de radicalização e rebelião que nos ameaçam. São uma ameaça justamente no ponto do globo com mais bem-estar económico, regalias sociais, e pasme-se, liberdade individual. Quem diria que tudo isso junto se poderia tornar numa armadilha, o nosso pesadelo - a ausência de Deus."
Ou não .
Provavelmente, eu é que percebi mal este último parágrafo.
Podia ser resumido num: "nunca chega!".
Têm bem-estar económico, regalias sociais e liberdade individual mas nunca estão satisfeitos, é pá, fiquem sossegados, dias ainda melhores virão.
Não foi isso que Jesus disse, nem fez, não prometeu um paraíso futuro, quando viu que não havia vinho, transformou a água.
Resolveu, não prometeu.
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De João Távora a 18.09.2025 às 18:26

Exactamente, "nunca chega", porque não é propriamente o bem estar que nos realiza como pessoas. E é só isso que procuramos. As igrejas estão vazias... 
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De jo a 18.09.2025 às 19:28

Não me parece que países muito ligados à religião sejam exemplos de contenção. Se assim fosse o Irão e a Arábia Saudita eram oásis de paz.
Mesmo os cristãos envagélicos nos EUA ou no Brasil não trouxeram grande elevação ao discurso político.
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De João Távora a 18.09.2025 às 19:35

Não são democracias nem liberais. A liberdade é nesses países limitada. A espiritualidade é uma procura individual
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De Anonimo a 19.09.2025 às 17:54

A espiritualidade é individual, mas a religião é colectiva. Qualquer colectivo choca com liberdades individuais. 
Os EUA têm neste momento um governo apoiado por grupos cristãos, e não é exactamente algo de agregador.
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De Nelson Goncalves a 18.09.2025 às 20:43


Não podia estar mais de acordo. Uma vida sem um norte, é uma vida por definição perdida.  E o liberalismo, que tem uma boa costela de ateísmo, levou-nos aqui. 


A dúvida é se conseguiremos viver no respeito do outro, tendo esse outro uma vida espiritual diferente da nossa.
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De Anonimo a 18.09.2025 às 22:07

A polarização é o oposto, consequência das pessoas viverem cada vez pior. Houvesse segurança e barriga cheia no Ocidente, como nos anos 90, andava tudo bem disposto. Se calhar também a bonança desses anos aparvalhou-nos e com o tempo livre passámos a discutir pronomes e os efeitos nefastos do alumínio nas vacinas.
Quanto à religião, duvido, até porque profetas e padres não faltam por aí, cada um com o seu podcast a fazer homilias e criar os seus rebanhos. Falta é contacto humano.
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De gravidade a 19.09.2025 às 10:15

mercúrio nas vacinas
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De gravidade a 19.09.2025 às 10:14

deus? o moita? os islamitas têm deus a mais e também não se safam
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De Silva a 19.09.2025 às 11:58

"O elevador social em Portugal é demasiadamente imperfeito e isso tem custos sociais relevantes: o grau de esforço necessário a um individuo sair do circuito de pobreza ainda é muito grande a comparar com outras nações europeias."


Falso. O grau de esforço necessário para as pessoas saírem da pobreza actualmente é muito menor do que no passado.
Basicamente, hoje não existem analfabetos (embora haja muitos analfabetos funcionais), não existem grandes dificuldades para as pessoas terem acesso à alimentação, à saúde (ainda antes dos bebés nascerem têm acesso a cuidados pré-natais), à informação, ao conhecimento e à cultura, aos transportes, à tecnologia, ao trabalho, aos produtos e serviços, ao capital e ao próprio dinheiro propriamente dito.
"Basta" irmos ao banco que temos acesso a crédito bancário para investimentos, para casa, carro, etc.
É certo que a concorrência é maior, afinal a população mundial tem crescido a níveis elevados desde a Revolução Industrial, mas regra geral é hoje em dia muito mais fácil sobreviver, evoluir e ascender socialmente no que no passado.
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De Anonimo a 19.09.2025 às 15:44

Por outro lado há gente que nem ao fim do mês chega, tendo emprego estável.  Um ordenado sustentar um agregado de 3 ou 4 como nos 80/90 então é miragem
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De passante a 20.09.2025 às 12:25

Falso. O grau de esforço necessário


Por acaso gostava de ver um estudo sociológico sério acerca da elevação de elementos "dos de baixo" aos círculos do poder ao longo dos tempos - digamos começando nas cidades gregas e república romana, e olhando para otomanos, mongóis e chineses.



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De lucklucky a 19.09.2025 às 16:26

"Muito se tem escrito e falado sobre a polarização política que ameaça a paz social nas democracias ocidentais."


Ainda vai descobrir que o problema não é a polarização politica.


Qual o lado que não aceita as opiniões dos outros?  
Por exemplo de que área politica quem é que não pode falar numa Universidade estatal portuguesa devido a ameaças de violência.
Faço notar que essa pessoa é obrigada a pagar impostos para essa Universidade poder existir.
De que lado foi alguém assassinado recentemente nos EUA numa Universidade por razões politicas?


----------
Esta radicalização e rebelião são  causas maiores. O Neo-Marxismo que tomou as universidades e o sistema educativo quer mudar o mundo.



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De vasco Silveira a 22.09.2025 às 17:14

Uma vida sem um norte, é uma vida por definição perdida. "


Caro Senhor


Escreveu acima o Sr. Gonçalves, e que eu tomei a liberdade de copiar.


O Norte não é um local, é uma direção, tal como a Felicidade.
A felicidade é um caminho, ininterrupto, e não um destino final.
_ É saber que a procuro, agora; 
_que o irei continuar a fazer, sempre;
_ e que, não a atingindo nunca, aprecio a minha deslocação na sua direção.


Peço desculpa se parece muito académico/epistolar
Cumprimentos
 

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