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A minha vida é sobretudo alegrias

por José Mendonça da Cruz, em 12.10.20

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Vivo no melhor dos mundos, orgulhoso de ser português, e, por isso, um de 10 milhões melhores do mundo, consoante disse o senhor presidente. Eu ainda não apurei – como as têvês estão sempre a dizer que fazem – por que razão ao certo sou o melhor, embora deva confessar que não tenho investigado muito por não me parecer lá muito importante, porque 9 milhões 217 mil e 043 portugueses também não devem saber ao certo, e estão orgulhosos e contentes como eu. Se bem entendo, devemos tudo ao governo – ainda outro dia um jornal que eu nunca li mas me dizem que é muito influente e vende para cima de mil exemplares todos os dias dizia que o vírus é que deu cabo de mais de meio milhão de empregos que nos deu Costa, que é o senhor primeiro ministro, eu peço desculpa de dizer assim, Costa, em vez de senhor António, mas estou só a citar o título… mas, como ia dizendo, devemos tudo ao senhor António, exceto tudo o que tenha resultado ou resulte de alguma crise financeira ou de alguma crise sanitária, para as quais ninguém em país nenhum do mundo pode estar preparado, nem os melhores como nós  – como confirmam até a acenar com a cabeça e com muitos gestos das mãos todos os locutores de todas as têvês e mais o jornal muito influente, e o outro dos sábados, que toda a gente diz que é muito referente.

Não quero que fiquem a pensar porque é que só 9 milhões 217 mil e 043 portugueses se acham melhores sem saberem exatamente porquê, e porque é que não são 10 milhões. Ora, eu explico. Nos 782 957 que se acham melhores, mas que, ao contrário do comum como nós, sabem muito bem porquê, eu conto os 70 senhores ministros e secretários de Estado do governo do senhor António, incluindo o próprio, e mais os 1166 funcionários dos vários gabinetes que tratam do país; com mais os 750 mil funcionários públicos que tratam dos nossos assuntos, e, muito merecidamente, não devem ser despedidos e avançam na carreira conforme os anos que nos dedicam, e não conforme o que fazem, faz 751 mil 166 portugueses contentes e que sabem porquê. Os restantes 31 791 são os amigos do senhor António, e mais os presidentes de Câmara e os amigos deles, e mais as pessoas contratadas por eles e pelo senhor António para fazer estudos e relatórios e obras e coisas para governo de todos.

Este quadro geral é que faz de nós os melhores do mundo, como garante todos os dias o presidente da república, o senhor Marcelo.

Mas a minha felicidade começa no meu bairro. O meu bairro é administrado pelo senhor José, o presidente da junta que é amigo do senhor Fernando da Câmara Municipal de Lisboa e socialista como ele. Todos os socialistas querem fazer um homem novo, mais conforme às nossas ideias. Eu não sei se o senhor Fernando e o senhor José também gostam de homens novos – eu dantes gostava de mulheres novas, apesar de nunca ter andado por aí a gritar que estava orgulhoso disso –, mas vejo com alegria que ele e o amigo dele da junta de freguesia protegem as minorias no meu bairro. Por exemplo, dantes os automóveis andavam livremente no meu bairro, eram às dezenas e às centenas por minuto em todas as ruas e avenidas, mas agora têm que andar a 30 km/h e com cuidado, por causa dos 2 ciclistas ou trotinetistas que passam a cada 90 minutos e vão pelos passeios, mas agora não precisavam de ir. E cada vez há menos lugares de estacionamento, que é para que esses tipos dos carros de alta cilindrada, como dizem os jornalistas, não julguem que isto é tudo deles, e que podem andar para cá e para lá a levar e trazer filhos da escola, e a carregar sacos de supermercado, e a fazer compras no comércio. Deviam era andar todos de bicicleta, para o senhor Fernando poder ver o homem novo dele da janela do Mercedes oficial.

Eu já andava contente mesmo antes disto dos dinheiros que o senhor António vai trazer da Europa, proveniente desta pantomia do vírus. É certo que eu tenho cá as minhas queixas, gostava de ter alguns apoios do Estado – mesmo agradecendo por agora não ter que pagar a renda nem ter que sair – mas compreendo que agora não pode ser; e até nem me cai bem quando lá na empresa entram gajos novos a ganhar praticamente o mesmo que me levou anos a ganhar, derivado ao tal salário mínimo. Mas a gente temos que ser uns para os outros, e compreender que se é para sermos todos iguais tem que ser assim, exceto os do governo do senhor António, derivado às grandes responsabilidades que têm.

Têm as responsabilidades e têm que ouvir maldizentes todos os dias. Ainda agora atacaram o senhor António por mudar todos os chefes das repartições e organismos que fiscalizam como se gasta o dinheiro dos impostos, a dizerem que é para se abotoarem com ele. Más línguas. É tudo velhos do Restelo, como diz um camarada meu, que são aqueles gajos que vivem naquelas mansões. Pois se o senhor António não substituísse as chefias das instituições como é que elas iam funcionar? Às tantas estavam lá todos de rabo colado, a entravar tudo o que o senhor António e os seus ministros e amigos quisessem fazer em nosso bem. O senhor presidente disse bem, que as mudanças eram intencionais, e que um mandato chega muito bem e é o que vem na constituição. Um gajo lá da empresa, que deve ser do antigamente e só diz é mal de tudo, disse que isso de ser só um mandato não vinha na constituição, e que o senhor Marcelo é constitucionalista e sabe isso muito bem, e que, portanto, o discurso dele deve ter sido escrito pelo senhor António. E, então, mesmo que fosse assim, não é o melhor exemplo de cooperação das instituições? O que interessa é que assim temos instituições renovadas, prontas para deixar passar os dinheiros, que isto agora é que vai ser. O senhor António até tem um amigo que em dois dias lhe fez um plano para os gastar bem. Aquilo sim, é que é um amigo: quando descobriu que o senhor António pensava exatamente o mesmo que ele, que o Estado é que devia ficar com tudo, afinal não lhe levou nada pela encomenda.

Havia de ser o quê?!

Se entregassem o dinheiro à malta era tudo a gastar em viagens e carros, e depois não havia mais – mas não se queixem e agradeçam ao senhor António por aliviar a retenção no IRS. É algum dinheiro que fica. Óspois pode-se ter menos retorno ou afinal pagar mais, mas isso é óspois, e com o óspois pode a gente bem.

E se fosse a tirar impostos às empresas ou a facilitar o crédito aos empresários, era só casas de luxo e Ferraris e Porsches, e era só progresso para o capital – mas eles que não se queixem e agradeçam as regalias que o senhor António deu, conforme explicou o senhor Luís, aquele dos domingos na Sic, as da «isenção do agravamento» de umas taxas quaisquer. Eu sei que há uma gente daninha que pode pensar que «isenção de agravamento» é uma maneira fingida de dizer que fica tudo agravado como está. Mas não é assim: «Isenção de agravamento» é uma coisa muito boa, é como um gajo estar à espera de uma porrada, e depois afinal não a leva.

Não senhora, o Estado do senhor António é que sabe melhor que nós. A malta como nós não pensa e os capitalistas é só negociatas para se encherem, os socialistas do senhor António é que têm uma vida de serviço, em secções, concelhias, distritais, federações, comissões, conselhos, juntas, câmaras, assembleias, sem um único dia de trabalho na economia que lhes afunilasse a visão. O senhor António e os seus é que têm uma visão geral e sabem como gastar.

Isso que eu disse de saber como gastar – e mais por ter falado dos Porsches há pedaço – lembra-me agora outro de quem gosto muito no governo do senhor António, o senhor Pedro.

Primeiro, foi comprar por uma pechincha de um milhão uns comboios que os parvos dos espanhóis julgavam que era só sucata, e ficou com eles. Foi tão bom que ele até disse que podia explicar aos privados e aos outros países todos do mundo como é que se fazem bons negócios (estão a ver que somos os melhores, como diz o senhor Marcelo?). Depois, ficou com a Tap toda para ele, em vez de ficar nas mãos do privado, que andava nessa coisa das companhias aéreas há décadas, mas não percebia nada daquilo. E agora comprou para cima de cem comboios novos, para a gente usar.

Mas como é um rapaz novo e ativo, e até dizem que pode suceder ao senhor António, é logo tudo a malhar no homem.

Primeiro, a dizerem que os comboios eram mesmo sucata como os espanhóis achavam e, além disso tinham amaranto, ou lá o que é. Mas que mal é que faz? Foram baratos e têm arranjo. E há tempo, porque o senhor Pedro é das infraestruturas, mas ainda não as tem para lá pôr comboios em cima, nem sequer na linha de Sintra, onde não farão grande falta. Os comboios são para andar apinhados, e são seguros mesmo com pantomia, o senhor Pedro até apresentou um relatório a dizer que o vírus não entra lá. E vem para cima de cem comboios novos que o senhor António anunciou que o senhor Pedro comprou. Chegam daqui a seis anos, mas não pode ser tudo de arrepente.

Depois, a dizerem que ele não comprou a Tap, comprou foi um grande sarilho na pior altura, uma pipa de prejuízos, e a responsabilidade de despedir para cima de mil pessoas e rifar para cima de cem aviões. Pois falem, mas é como diz o senhor Pedro, quando a Tap tiver receita agora ela também é nossa. O meu patrão diz que receita não é a mesma coisa que lucro, mas isso é poque ele gosta de embirrar com tudo. O que interessa é a Tap ser nossa, e daqui a 20 anos a receita também, vamos ficar todos ricos.

Quem vai ficar com uma boa fatia dos dinheiros da Europa é o senhor João do hidrogénio, de quem também gosto muito, e que é para cima de 7 mil milhões. O hidrogénio é assim uma coisa que faz energia renovável, e é uma coisa nova, só para os melhores. Ainda não se sabe bem como se faz, nem como se ganha dinheiro com aquilo, mas é da modernidade, e vai dar muito dinheiro pelas contas do senhor João e de todos os amigos dele. Assim em dinheiro mais a sério, não é tão bom como as receitas do senhor Pedro, que, mais coisa menos coisa, vêm daqui a 20 anos, porque as do senhor João só vêm lá para 2050 ou por aí. Mas o progresso é assim.

Ora, agora, digam-me lá se com todo esse progresso à vista não havia necessidade de mudar as leis. Pois claro que havia! Foi por isso que o senhor António e os seus amigos fizeram uma lei nova para poderem contratar mais depressa quem faça as obras de modernização em que eles querem gastar. Ai as burocracias achavam que iam complicar a vinda deste dinheiro que tanta falta faz ao senhor António, e ao senhor Pedro, e aos outros todos, e porem-se a perguntar quanto custa, e a que fim se destina, e quem é que faz, e onde é que fica, e quando é que está pronto?! Ora tomem. Agora é que vai ser. Vai ser como dizia a outra senhora das escolas do tempo do senhor engenheiro José, «uma festa».

E eles também conseguiram que a Assembleia os autorizasse a fazer leis para expropriar propriedades mais depressa, assim um simplex da expropriação e um compliquex para o expropriado, que depois se verá se recebe algum, e quanto e quando.

Mas, então, digam-me lá se não se justifica. Por exemplo, o senhor Pedro que quer tanto um aeroporto para ter uma infraestrutura qualquer – e que agora é que é a altura boa para o construir derivado a não haver aviões – ia ter que ficar à espera só porque um tipo qualquer tinha um casebre nos terrenos? Ou o senhor Fernando de Lisboa havia de deixar de fazer uma ciclovia para as minorias ciclistas só porque lá no meio estava um prédio qualquer? Ou o senhor João havia de não poder dar-nos uma eólica só porque no cimo do morro estava uma exploração agrícola ou uma povoação cheia de gente avessa à modernidade? Não pode ser.

De maneira que é como vos digo. Pode ser verdade essa coisa que os fascistas andam sempre a dizer que a República Checa, a Estónia, a Hungria, a Letónia, a Lituânia, a Polónia, a Eslováquia, a Eslovénia, e Malta, e Chipre, que entraram na Europa em 2004, já ultrapassaram em riqueza o Portugal socialista. E se calhar é verdade mesmo, porque até o tal do Polígrafo da têvê diz que é verdade. Mas, vão ver, lá para 2087 vamos ser mais ricos do que eles todos são agora.

 



6 comentários

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De Anónimo a 13.10.2020 às 07:19

 O senhor António e os seus é que têm uma visão geral e sabem como  "dar a golpada fin...."  (perdão, enganei-me) "sabem como gastar". 
Derivado a isso, eu e o país também andamos assim, a modos que contentes, como os da foto, derivado ao sr.Antonio, o sr.Marcelo, o sr.Fernando, mai-los outros todos "socialistas do senhor António que têm uma vida de serviço, em secções, concelhias, distritais, federações, comissões, conselhos, juntas, câmaras, assembleias" e tudo em prol del...  (enganei-me de novo)...de nós. Só não vai ser tudo assim de arrepente. Que isto de "depressa e bem, há pouco quem". De modos que só daqui a uns anos é que se vai ver como trabalharam bem!
(que agora não há cá troikas a meter o bedelho em tudo e só a engonhar como o TdC! Era o que mais faltava a empatarem o pessoal do sr.António!)








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De Anónimo a 13.10.2020 às 08:40

De vitória em vitória até........ à derrota final. 
"Mas isso é óspois, e com o óspois pode a gente bem". 

Isso agora não interessa nada. A gente até se esquece sempre!!! Ora! Quem vier atrás que feche a porta!*


* a torneira!
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De Anónimo a 13.10.2020 às 09:19

 Não lhes chega também já de mandatos, a estes? Que gente! Então não podiam ser mais solidários com as outras Instituições, PGR ou TdC ou assim?   :-)))
Só pensam em trabalhar, trabalhar, trabalhar, num corre-corre, correndo com uns, correndo com outros, como se não houvesse amanhã.  Apre! são "workacólicos" ou quê?!
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De pitosga a 13.10.2020 às 12:12


José Mendonça da Cruz,
O Senhor excedeu-se. Costuma arrear muito bem em menos parágrafos.
Este escrito, excelente, ultrapassa as suas higiénicas e sintéticas contribuições.
Quanto a mim, o problema está nos muitos Srs. Vê-se que são uns senhores.
Não são:
pulhas, gatunos, trapaças, javardos, burgessos, bonifrates, palermas, matarruanos, penduricalhos, trafulhas, larilas, badamecos, cáfila, pagode.
São somente portugas...

O Senhor Deus do Universo que o abençoe.
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De Anónimo a 13.10.2020 às 13:13

Pitosga, eu diria antes "o diabo que os carregue!"
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De Anónimo a 13.10.2020 às 13:29

Os da foto são os socialistas contentes do sr. António? Daqui parecem-me...

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