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A menorização das pessoas e a escolha da pobreza

por Jose Miguel Roque Martins, em 22.11.20

Constantemente agredidos por medidas e opções ridículas, esquecemos muitas vezes as razões profundas da nossa mediocridade e insatisfações colectivas. Sem olharmos para os nossos vícios estruturais, não vamos mudar nada de importante.  E por isso importa, de quando em vez, lembrarmos alguns dos nossos grandes erros.

Um dos grandes vícios em Portugal é a criação e manutenção de postos de trabalho que não criam qualquer riqueza. Apenas a distribuem. Basicamente significam trabalhos dobrados, para o mesmo serviço. Quem perde com isso? A sociedade, que vê pessoas desperdiçadas em trabalhos que nada acrescentam, em vez de produzirem algo com valor. Quando essa pratica é muito visível, a desculpa é tão fácil como errada: que não faz mal, porque de outra forma essas pessoas estariam desempregadas. E assim faz-se de conta que estão a fazer alguma coisa de útil. Como se o desemprego fosse uma inevitabilidade  numa sociedade funcional.

No sector privado, a concorrência e pressão sobre os resultados, encarrega-se de ir eliminando o desperdício social do subemprego. Por exemplo, o movimento de consolidação que estamos a assistir na Banca ou no sector automóvel tem a ver com a eliminação de trabalhos dobrados. É o que acontece numa fusão, em que juntando duas estruturas, temos pessoas que passam a não ser necessárias para produzir exactamente o mesmo. Quem ganha? Os consumidores, ou seja todos,  que vão comprar as mesmas coisas mais barato, e a sociedade que liberta recursos valiosos ( pessoas)  que vão produzir outras coisas. Quem perde? Aqueles que foram despedidos até encontrar um novo meio de vida. Um custo necessário para o progresso geral. Numa economia de mercado, há uma socialização dos benefícios e uma concentração dos prejuízos, que normalmente são eliminados rapidamente.   

Já no Estado e em todas as actividades administrativamente protegidas, essas correcções não acontecem. Porque não são necessárias: ninguém vai à falência. E por isso, desperdiçam-se recursos com grande prejuízo para a sociedade. Esqueçamos, por hoje, o Estado, o ogre do desperdício. Olhemos para o que se passa no mundo do sector não lucrativo.

Vejamos o que se passa nos vários direitos autorais na Música: compositores, interpretes e editores. Não entrando no ( muito questionável) mérito e na forma como o dinheiro recolhido chega aos interessados,  que justificam a existência destes direitos.

Inicialmente, apenas os direitos de autor eram reconhecidos. E a sociedade de direitos de autor passou a ser responsável pela cobrança a quem, por lei, tinha que pagar essa taxa. Depois, também os direitos de edição e dos interpretes passou a ser reconhecido. Já que, na pratica, são exactamente as mesmas entidades que têm que pagar os três direitos que passaram a ser consagrados, faria sentido que apenas uma entidade cobrasse, para todos, os direitos. Ou seja, recebesse mais de cada entidade, o que não promoveria aumento de custos administrativos. Em vez de x, a cobrança seria de x+y.  O que aconteceu? Criou-se uma nova entidade, que cobra os novos direitos. Quem perde? Os músicos que se queriam proteger ( que pagam mais custos de cobrança) e a sociedade, que duplicou uma estrutura não necessária. Quem ganha? Apenas aqueles que passaram a ter um trabalho com mais regalias ou menos trabalho do que se não existisse esta nova estrutura.

Um posto de trabalho está muito longe de ser um sinónimo de criação de riqueza para a sociedade. Muitos deles são apenas veículos de distribuição de riqueza e de empobrecimento da sociedade.  

Em Portugal, justificamos o desperdício, admitindo que o desemprego seria inevitável se não houvesse tantos empregos não necessários. Erro puro, como se pode observar no que acontece em países mais ricos, como, entre outros, na Escandinávia. E esta é apenas uma das formas como produzimos desperdício. A forma como dificultamos o trabalho, outro drama em si mesmo, é mais graves que este tipo de fenómeno.

A nossa aproximação aos empregos dobrados, não é apenas errada. Menoriza quem tem empregos “por favor”, sem qualquer utilidade económica e social. E condena a sociedade a uma pobreza relativa, já que promove o desperdício do recurso mais precioso numa economia, o trabalho humano.



13 comentários

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De Anónimo a 22.11.2020 às 09:40

« enquanto houver um tuga com um pão,
a revolução socialista continua »
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De Anónimo a 22.11.2020 às 11:45

"Dar esmola é atrasar a revolução". Por isso a dão.
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De voza0db a 22.11.2020 às 13:07

Por isso existe o "BANCO ALIMENTAR CONTRA A FOME"... mantém o Ciclo da Pobreza e os miseráveis e pobres calados e sossegados!
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De Anónimo a 22.11.2020 às 15:36




"Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado(...) porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber...   Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’.

O Banco Alimentar Contra a Fome dá desinteressadamente sem nada esperar em troca, auxiliados por imensas pessoas voluntárias. Haveria muito mais fome e miséria se não fosse a solidariedade que move essa organização sem nenhum fim lucrativo. 
Sabe, Vozaodb, há pessoas simplesmente assim.


Mas realmente há quem dê com "outros" propósitos, talvez mais próximos do que refere: 
1- "calados e sossegados" e com a proteção daqueles que controlam "a rua" 
2-  perpetuar o ciclo de pobreza e assim manter maior número de dependentes. Como V. não é ingénuo, sabe o quanto isso "rende", não sabe?


Pense por que razão somos tão pobres?





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De voza0db a 22.11.2020 às 18:01


O típico comentário... Ou andas sempre a nanar (o mais certo) ou não prestas atenção no que dizem os escravos boçais pobres e miseráveis quando os meios de merda social fazem reportagem a glorificar a Pobreza!


É raro o escravo tuga que não diga "Ajudo porque não me custa muito, e nunca sei quando vou precisar"!


É um desinteresse...


Poupa-me a essa lenga-lenga.
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De Anónimo a 23.11.2020 às 15:27

vdb, os pobres de espírito também têm lugar no céu, segundo está previsto.
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De voza0db a 23.11.2020 às 21:50

Então não te preocupes que tens lugar cativo.
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De Anónimo a 22.11.2020 às 16:09

vozaodb, se quiser leia: "Pobres que somos" escrito no DN pelo jornalista Sérgio Figueiredo.


https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/sergio-figueiredo/pobres-que-somos-5166100.html



O texto recorda o célebre episódio entre Otelo Saraiva de Carvalho e Olof Palm após a Revolução de Abril. Este perguntou a Otelo que pretendia com a revolução e que objetivos queria realizar.
Triunfantemente lhe responde: _ Queremos acabar com os ricos!
Olof Palm estupefacto disse: _ Nós, pelo contrário, queremos acabar com os pobres.
Eis a visão que se mantém neste país há 46 anos (com poucos interregnos).
Eis a razão do nosso ATRASO e da diferença abissal entre  Portugal e a Suécia!
Na cauda, no fim da fila, sempre pedintes e dependentes, cada vez mais sub-desenvolvidos.
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De voza0db a 22.11.2020 às 18:07


A Pobreza de um é FONTE de rendimento e emprego de muitos outros.
Para "cuidar" de um POBRE quantos são "precisos"?!



O que fariam todos aqueles em tachos tipo UN/UNICEF/WHO e tudo o que é ONG que parasita em torno dos Pobres?
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De Jose Miguel Roque Martins a 23.11.2020 às 09:13

Infelizmente tem razão! 
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De voza0db a 22.11.2020 às 13:05


Todas as medidas impostas até hoje FUNCIONAM que é um mimo...
https://voza0db.livejournal.com/11458.html (https://voza0db.livejournal.com/11458.html)
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De Anónimo a 22.11.2020 às 17:35

"No sector privado, a concorrência e pressão sobre os resultados, encarrega-se de ir eliminando o desperdício social do subemprego. Por exemplo, o movimento de consolidação que estamos a assistir na Banca ou no sector automóvel tem a ver com a eliminação de trabalhos dobrados"


Dizer isto numa sociedade em que o nepotismo nas empresas é a regra e o lugar de "amigo do patrão" existe em  praticamente todas elas, denota alguma lata, ou muita ignorância do país em que vive.


"Já no Estado e em todas as actividades administrativamente protegidas, essas correcções não acontecem"
De certeza que não tem visto qual a variação do número de funcionários públicos e qual a percentagem destes que estão a contrato ou como prestadores de serviços ao Estado.
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De Jose Miguel Roque Martins a 23.11.2020 às 09:13

quanto ao "amigo do patrão" é mais do mesmo. Caridade mal dirigida. 
quanto ao que se passa no publico, tenho visto sim, tenho visto sim. Só que não gosto! 

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