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A linha da frente e o Estado Maior

por henrique pereira dos santos, em 01.07.20

"Eu percebo os meus colegas. Mas eles não são de saúde pública e foram treinados para gerir doentes, não foram treinados para gerir epidemias. São coisas completamente diferentes, por mais que lhes custe ouvir isto. ... As pessoas que foram treinadas para gerir epidemias são de saúde pública e as que sabem de epidemiologia são principalmente da [especialidade] de saúde pública. Os outros são na sua maioria curiosos."

"Se se testar todas as pessoas, como sabemos que são assintomáticas na maioria dos casos, obviamente vamos apanhar mais, cinco ali, dez acolá, 20 ali, 30 acolá, 50 ali, chegamos aos 200 casos. Se não as testasse, estas pessoas eram todas assintomáticas e não surgiam nas estatísticas. Se testo notifico, aumento os números mas também aumento a probabilidade de quebrar cadeias de transmissão. Por exemplo, em Oeiras, onde neste momento está a ser efectuado um rastreio, os números vão obviamente aumentar. Isso já está a acontecer nos últimos dias. É um preço a pagar".

"a taxa de incidência tem a ver com o efeito dos surtos. Por exemplo, em São Domingos de Rana há agora um surto numa estrutura residencial [para idosos] e por isso Cascais vai aparecer com uma taxa de incidência enorme. No lar de São Domingos de Rana, em 46 pessoas, 41 estava infectadas. Mas se os surtos estiverem controlados as taxas de incidência querem dizer pouco. E as cadeias de transmissão? Aí é outra questão. Não será possível identificar tudo, como não é em ponto nenhum do país ... Os surtos são mais visíveis e alteram muito os números, mas os casos soltos são os que nos preocupam mais e obrigam a intervenções com mais recursos".

Estas citações são da entrevista de Rui Portugal hoje ao Público (declaração de desinteresses: nunca falei com Rui Portugal sobre este assunto, apesar de o conhecer, tanto mais que é meu primo) que espero que Filomena Martins e outros jornalistas leiam para ver se conseguem ter uma ideia de como devem ser interpretados os números.

Em parte são picardias normais e que sempre existiram entre os oficiais do Estado Maior e os operacionais no terreno. Os segundos são os que ganham as condecorações por actos de bravura, são os que se transformam em heróis e os que morrem, são os protagonistas principais dos principais filmes de guerra, os primeiros são os que ganham ou perdem a guerra.

Não é possível ganhar guerras sem bons desempenhos no campo de batalha, mas é na preparação desses desempenhos e na gestão anterior às batalhas que se ganham ou perdem as guerras, e essa é a função do Estado Maior.

É assim na guerra propriamente dita, é assim nos fogos, é assim nas epidemias e em muitas outras circunstâncias.

O que as epidemias novas têm de específico é que sabemos muito pouco sobre o "inimigo", embora saibamos que o "inimigo" não é o vírus, é a forma como impacta a sociedade.

É por isso que grande parte da informação de virologistas, intensivistas e outros operacionais da linha da frente não é muito útil para saber mais sobre a evolução da epidemia: estes operacionais estão concentrados no vírus, na doença, no doente que é preciso salvar, não estão concentrados em evitar que seja necessária a sua intervenção ou, no caso de ser necessária, na criação de condições para que seja feita nas melhores condições que seja possível criar.

É por isso que estou convencido de que Filipe Froes, e muitos outros, teriam mais a ganhar em ler, por estes dias, Sun Tzu que as revistas médicas em que todos os dias é produzida informação sobre o vírus, a doença, os tratamentos ou a epidemia.

Provavelmente já teriam concluído o que Rui Portugal aqui diz: "Não será possível identificar tudo, como não é em ponto nenhum do país" e, por isso, prosseguir uma estratégia - identificar todos os focos na fonte de forma a que seja possível quebrar todas as cadeias de contágio - cujo objectivo é impossível de atingir é um erro e um desperdício de recursos.

Infelizmente nem com os surtos a aparecerem em lares - tendo a sua origem nos funcionários, mas levando ao imediato cancelamento das visitas, uma medida sem efeito prático na gestão da doença e com muitos efeitos negativos - ou em hospitais, inviabilizando o discurso moral sobre o comportamento irresponsável das pessoas, parece abrandar a loucura dos que, habituados que estão aos laboratórios e às salas de cuidados intensivos, não compreendem que as sociedades e o mundo real em que todos vivemos é o que é, não sendo possível esterilizá-lo sem custos brutais e proveitos marginais.

Tal como os soldados no campo de batalha, ou os bombeiros no calor do combate ao fogo, também os profissionais da linha da frente na saúde estão convencidos de que com mais empenho, sabedoria e recursos, seria sempre possível fazer frente à natureza, baseando-se em frases de elevado valor intelectual como a imorredoira frase de penhor do valor dos bombeiros: "nunca nenhum incêndio ficou por apagar".

Só que na verdade o problema está na doutrina e não na linha da frente: "Portugal sem fogos" ou "vamos vencer o vírus" são a mesma mistura de arrogância e ignorância que nos caracteriza como espécie e nos faz pensar que tudo o que nos rodeia é controlado por nós.

"Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é."

Por alguma razão Álvaro de Campos é incomparavelmente mais popular que Alberto Caeiro.



2 comentários

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Bole posts meus parabéns. ;) RJ da Sorte ao vivo (https://www.noticiasdaweb.com.br/rj-da-sorte)
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De voza0db a 01.07.2020 às 20:52

Eu aguardo com elevada expectativa ( e já ando a treinar os abdominais, porque vai ser de partir a RIR) a chegada da próxima época de constipações seguida da época de gripes!

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