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A indústria e a gestão florestal

por henrique pereira dos santos, em 28.06.17

Tenho ideia (estou a citar uma coisa de que me lembro e que foi há tempo suficiente para eu não ter certezas) de ter ouvido um responsável de uma das empresas de celulose dizer que por cada unidade de valor gerada pela empresa na produção florestal, eram geradas nove unidades de valor na produção de pasta e nove unidades de valor na produção de papel.

No fundo, a gestão florestal é, inevitavelmente, um parente pobre nas fileiras com integração vertical, como a do eucalipto, e um intruso nas fileiras que não fazem integração vertical, como as que assentam no pinheiro e no sobreiro.

Na resina, em que Portugal manteve uma posição mundial invejável na transformação industrial, praticamente não houve, durante anos, produção nacional de resina, o que a indústria resolveu importando a matéria prima.

Mesmo no eucalipto, em que há integração vertical, a percentagem de área florestal directamente gerida pela indústria é de menos de 20% da área de ocupada por povoamentos florestais de eucalipto.

Em rigor, a indústria pode prescindir da produção nacional de madeira, como acontece com a resina, a tanoaria ou grande parte da indústria dos móveis, importando a matéria prima e externalizando os riscos associados à produção e gestão florestal.

Há anos que defendo, no entanto, que as empresas têm uma responsabilidade social sobre a sua cadeia de abastecimento (aliás reconhecida pelos sistemas de certificação) e uma responsabilidade para com o país, e por isso vale a pena olhar para a forma como a indústria tem gerido essa responsabilidade no que diz respeito ao seu contributo para uma gestão sensata do fogo em Portugal.

A fileira da cortiça practicamente esquece o assunto, apenas se preocupando quando está em causa o abastecimento de matéria prima. Esta atitude é compreensível porque a reputação da produção de cortiça é muito positiva: gera sistemas ricos do ponto de vista de biodiversidade, com elevada qualidade paisagística e que permitem uma diversidade de usos apreciável. Por outro lado, ao contrário das outras fileiras, não tem alternativa ao abastecimento de matéria prima nacional.

Não seria a altura da fileira da cortiça devolver parte do valor que cria a partir da produção florestal assumindo responsabilidades, directas ou indirectas, na gestão do território que suporta essa indústria?

No que diz respeito ao pinheiro será talvez útil separar dois sectores que são inimigos ferozes porque competem pelo mesmo recurso (não entro aqui com a resina, que neste momento tem uma produção nacional residual): o mobiliário, que precisa de madeira de árvores grandes, e o aglomerado, pelettes e etc., para quem tamanho não é problema.

Para além de umas teorias de conspiração sobre fogos florestais, e umas queixas permanentes sobre a fileira do eucalipto (como se impedir administrativamente os produtores de optarem pelo eucalipto resultasse numa opção pelo pinheiro, e não pelo abandono), a verdade é que a indústria  baseada no pinho tem uma influência residual na qualidade da gestão florestal no país. Com uma área de ocupação de cerca de 700 mil hectares, depois de ter perdido, nos últimos anos, meio milhão de hectares, a indústria continua, na larga maioria, divorciada da produção florestal. Apoia, e bem, alguma investigação, apoia, e bem, alguns produtores, mas está longe de ter presença própria, gestão própria e, consequentemente, acção real sobre a gestão do território.

Não seria a altura da fileira do pinho devolver parte do valor que cria a partir da produção florestal assumindo responsabilidades, directas ou indirectas, na gestão do território que suporta essa indústria, contribuindo para a diminuição do principal risco que limita a disponibilidade dos proprietários investirem em pinho?

Por último, a fileira do eucalipto, sobre a qual escrevi nos últimos dias (o que me valeu os insultos e difamações do costume por parte dos Alucinados Anónimos para quem o euclaipto é a quinta besta do apocalipse), embora mais presente na gestão florestal, demorou demasiado tempo a integrar (e ainda o faz imperfeitamente, muito imperfeitamente) a responsabilidade que tem no apoio aos produtores que lhe produzem a matéria prima.

Tivessem estas fileiras uma atitude conjunta de responsabilidade social sobre a gestão do território, fizessem elas esforços conscientes para apoiar a gestão sensata do fogo e uma gestão tecnicamente sofisticada da produção florestal e, provavelmente, daríamos passos relevantes no  sentido de tornar o fogo num elemento natural gerido de forma socialmente positiva.

E isso reflectir-se-ia na diminuição do risco de fogo, isto é, no aumento da competitividade da produção florestal e, por essa via, num aumento de valor do sector de que a indústria também iria beneficiar.




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