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A ilusão tecnológica

por henrique pereira dos santos, em 10.01.22

Esta epidemia é como todas as outras epidemias: todas são diferentes, e todas são iguais.

Talvez seja a primeira epidemia com alguma dimensão que ocorre quando estão disponíveis dois instrumentos tecnológicos novos que alteram a forma como olhamos para ela.

O primeiro instrumento é a capacidade laboratorial.

Li no mural de uma das minhas irmãs que na poliomielite se estima que 95 a 99% das pessoas fossem assintomáticas (a wikipedia fala em 70%, mas a diferença é irrelevante para o argumento, tanto mais que fala em outros 25% com sintomas menores como dores de garganta e febre).

Como não havia capacidade laboratorial e tecnológica para testar como se testa com esta epidemia, naturalmente a gestão da doença fez-se com o foco nas pessoas doentes, e não nas pessoas que contactavam com o vírus.

Pode argumentar-se que se este instrumento tecnológico estivesse disponível, eventualmente poder-se-ia ter limitado muito a disseminação da doença, poupando milhares de vidas às sequelas da doença, ou diminuindo a mortalidade decorrente da doença.

A verdade é que não sabemos se assim seria, é uma hipótese teórica sólida, mas não sabemos se na prática a teoria é outra porque, como em qualquer epidemia, os factores sociais e ambientais não podem ser desligados das questões de saúde em sentido estrito.

O segundo factor tecnológico relevante é a capacidade computacional que nos permite hoje fazer modelações que eram impensáveis há alguns anos.

Com base nestes dois factores tecnológicos, a capacidade laboratorial e a capacidade computacional, há um conjunto de pessoas ligadas à epidemiologia que dizem que é possível quebrar as cadeias de contágio de uma doença e, consequentemente, controlar a evolução de uma epidemia, com base em medidas não farmacêuticas, em especial, com base no isolamento de pessoas saudáveis, embora infectadas.

Mais, com base nessa ideia, alterámos a visão moral que temos da disseminação de uma doença: deixámos de achar que uma pessoa era responsável por se defender do contágio - na medida do possível, evidentemente - e passámos a achar que cada pessoa é responsável pelos contágios que gera, mesmo que estejamos a falar de doenças altamente contagiosas e que se propagam por aerossóis, isto é, doenças em que é virtualmente impossível identificar a fonte de contágio, excepto em situações muito, muito restritas.

Deixámos de dizer que nos constipámos porque apanhámos frio - como é evidente, ninguém se constipa por apanhar frio, se não houver uma condição viral prévia que tire vantagem dessas condições ambientais - para passarmos a dizer que as crianças podem infectar os avós, criando um ónus moral monstruso sobre a normal relação social que antes considerávamos como bens morais a promover, como visitar os doentes, os que estão sozinhos, os presos, etc..

Dois anos depois parece claro que esta inovação conceptual na saúde pública é mais um dos muitos exemplos de ilusão tecnológica: os problemas sociais complexos podem ser minimizados com recurso a soluções tecnológicas - por exemplo, a descoberta da síntese da amónia tirou milhões de pessoas da pobreza diminuindo enormemente a fome endémica - mas é duvidoso que seja possível resolvê-los por esta via, ou sobretudo por esta via (mesmo os efeitos positivos da descoberta da síntese da amónia só se tornam reais com base num conjunto de soluções políticas e sociais que permitem o acesso à produção barata de alimentos).

Infelizmente, neste caso, a ilusão tecnológica deu origem a um problema bem mais grave, a ilusão social de que é possível moldar o funcionamento das sociedades de modo a potenciar os benefícios das soluções tecnológicas.

Historicamente esta ilusão social é responsável por grandes desastres sociais, e não é a gestão desta epidemia que se pode considerar como uma excepção a esse registo histórico.



14 comentários

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De balio a 10.01.2022 às 16:59


assimptomáticas


assintomáticas (= sem sintomas).
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De balio a 10.01.2022 às 17:06


a síntese da amónia tirou milhões de pessoas da pobreza diminuindo enormemente a fome endémica


Erro deveras grosseiro. Ao longo da história humana, a eliminação da fome em geral foi somente algo de temporário, que deu origem a uma maior multiplicação dos seres humanos e portanto ao regresso da fome. É o ciclo vicioso maltusiano. A eliminação da fome era temporária e a pobreza regressava sempre.


Não foi um avanço tecnológico - a síntese da amónia - que eliminou a pobreza, foi sim um avanço social, infelizmente bastante mais complexo de descrever.
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De henrique pereira dos santos a 10.01.2022 às 18:39

Não tens razão: o desenvolvimento tem diminuído a fome e a taxa de crescimento da população.
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De Anónimo a 11.01.2022 às 18:42

Em ciclos de fome, inexplicavelmente as mulheres, mesmo sub-nutridas, continuam férteis e há maior multiplicação de seres humanos. Talvez seja o Instinto de sobrevivência e de preservação da espécie ao sentir-se ameaçada. 
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De balio a 12.01.2022 às 09:50


Em ciclos de fome, inexplicavelmente as mulheres, mesmo sub-nutridas, continuam férteis


Isto só é parcialmente verdade. A fertilidade das mulheres diminui ou é mesmo totalmente eliminada quando elas passam fome. Quando a quantidade de gordura no corpo de uma mulher diminui substancialmente, o ciclo ovulatório pode parar de todo. Isso já se verificou em certas atletas.
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De balio a 10.01.2022 às 17:07

Excelente post.
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De Carlos Sousa a 10.01.2022 às 18:42

Quando se sacrifica uma geração que está a começar a viver para salvar outra geração que está  a começar a morrer, penso que está tudo dito.
Mas já agora também estou curioso, depois da barbárie e depois do apuramento da raça já sem vírus, qual será o aspecto dos novos arianos? Será que vão ficar todos ; altos, loiros e de olhos azuis?
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De balio a 11.01.2022 às 10:22


Quando se sacrifica uma geração que está a começar a viver para salvar outra geração que está  a começar a morrer, penso que está tudo dito.



Exatamente. Está tudo dito.


Em vez de ser como no passado, em que se entendia que os pais se deviam sacrificar pela sobrevivência dos filhos, agora é o contrário: são os filhos que se devem sacrificar para que os pais e avós sobrevivam.


É a moralidade virada de cabeça para baixo. Agora as crianças e jovens são dispensáveis, porque o que importa é que os velhos possam sobreviver cada vez mais tempo.


É a ideologia gerontocrática levada ao seu limite.
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De Anónimo a 11.01.2022 às 01:06


Interesante texto. Além de esses dois ´"novos" factores, que bem menciona e cuja influência no desenrolar de esta epidemia é algo a merecer estudo, outro curioso ingrediente actua em todo este novo processo pandémico.
Robert Malone, o cientista inventor da tecnologia mRNA, reafirmou que esta nova poderosa tecnologia não foi inventada para criar vacinas. Fez ainda outras pouco suaves afirmações, mas adiante.

Poderá deduzir-se que todo o processo de saúde pública em curso terá sido o melhor?. Vacinar, vacinar.... "vacinar", com estas "vacinas"?.
Curioso empenho em "vacinar", tudo e todos n vezes, em detrimento do desenvolver tratamento para sintomáticos em primeiros sintomas.
Afinal constata-se que o grande e único trunfo de estas "vacinas" é o mitigar.
Não seria melhor, mais honesto, chamarem a estas vacinas "mitigantes"?.
A natureza, mais uma vez, teve a última, a definitiva palavra. 
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De balio a 11.01.2022 às 10:24

A vacina para a poliomielite, segundo li na wikipedia, também necessita de múltiplas tomas, e reforços, para ser eficaz. Não parece ser diferente da vacina para a covid-19 neste aspeto.
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De balio a 11.01.2022 às 10:25


Robert Malone, o cientista inventor da tecnologia mRNA, reafirmou que esta nova poderosa tecnologia não foi inventada para criar vacinas. Fez ainda outras pouco suaves afirmações



Não dá um linquezinho?
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De Anónimo 78 a 11.01.2022 às 12:21

Costumo gostar do que escreve mas este "post" é excepcional.
Atrevo-me a sugerir que a ilusão tecnológica, ou melhor, a ilusão da solução total pela tecnologia, com evidente prejuízo de conceitos sociais e morais apenas foi possível como consequência da desconstrução social pelas ideologias e do enfraquecimento dos princípios morais.
P.S. É por isso e apenas por isso que não adito á IL. Não responde ao que eu considero essencial.
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De anónimo a 11.01.2022 às 12:58

Basta googlar Robert Malone. Isto enquanto a Google não "cancelar" esses textos. Aparentemente, na opinião dele -o cientista premiado pela descoberta da técnica mRNA- estas "vacinas"...
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De anónimo a 11.01.2022 às 16:31


Uma entrevista a alguém independente do sistema e que dá que pensar.
Aguardamos os desmentidos das autoridades.
...


Here are some of the key points discussed with time codes:
  • 24:19: An estimated 500,000 COVID Deaths resulted from the suppression (https://childrenshealthdefense.org/defender/covid-deaths-could-have-been-prevented/) of Ivermectin and Hydroxychloroquine (HCQ).
  • 25:39: Former head of the U.S. Food and Drug Administration (FDA), Dr. Janet Woodcock, intentionally prevented doctors from using HCQ outside of the hospital setting (HCQ is one of the few antiviral medications safe in pregnancy (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33515791/) and is largely ineffective once a person has been hospitalized).
  • 31:10: Pharma (https://childrenshealthdefense.org/defender_category/big-pharma/) industry’s systematic efforts to discredit ivermectin (https://childrenshealthdefense.org/defender/ivermectin-big-pharma-rfk-jr-the-real-anthony-fauci/).
  • 32:40: COVID deaths in the Indian State of Uttar Pradesh plummeted soon after packets of medicines were distributed to their population. It is suspected these packets included Ivermectin but this was never formally disclosed. This puzzling policy went into effect soon after a meeting between President Biden and Prime Minister Modi.
  • 36:28: Increased risk of adverse events (https://childrenshealthdefense.org/defender/vaers-cdc-covid-vaccine-injuries-fda-pfizer-booster-kids/) from vaccinating after SARS-COV2 infection.



https://covid19up.org/joe-rogan-robert-malone-interview/

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