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A guerra na Ucrânia, a nova caixa de Pandora.

por Jose Miguel Roque Martins, em 31.03.22

Temos assistido a movimentos sísmicos nas bolsas de petróleo. Não porque vá haver menos petróleo do que antes da guerra, mas apenas por incerteza. Mesmo que a Europa deixe de consumir petróleo Russo, ele irá ser vendido a outro pais que, por sua vez, deixa de comprar a outro, que fica com oferta para a Europa. No meio desta confusão, os custos de transporte vão aumentar, os do petróleo, em si, estabilizarão em função da oferta estabelecida pela Opep.

Não há falta de petróleo no mundo nem vai haver. Apenas o eterno jogo dos interesses entre produtores ( organizados num cartel) e consumidores. Apenas no ajustamento das rotas entre produtores e consumidores, irão acontecer perturbações, muitos nervos e picos de aumento de preço, para além dos previstos. No fim, o petróleo vai ficar mais caro, apenas pelo efeito dos custos de transporte. A Rússia vai continuar a vender, provavelmente com desconto ( menos clientes possíveis, mais custos de transporte) e a Europa continuará a ter todo o petróleo de que precisa, mais caro, até à próxima crise de disciplina da Opep que faça as cotações cair de forma acentuada.

É por isso muito útil a libertação de reservas de Petróleo, que poderão estabilizar os preços do mercado, permitindo ao mercado reencontrar o seu equilíbrio.

Já o caso do gás é mais complicado. Não basta desviar um super-petroleiro de um porto para outro: não há infra-estruturas que permitam, nos próximos anos, substituir o gás Russo por outros fornecedores ( que existem) . É também um problema real para a Rússia, porque não conseguirá desviar a sua produção para outros consumidores, também por falta de infra-estruturas. O gás vai subir e provável e erradamente será racionado na Europa, enquanto a Rússia leva um rombo nas suas finanças durante uns anos. 

Li, com espanto, um ministro Alemão fazer uma proposta revolucionaria: baixar a temperatura das casas para 15 graus, entendido como o enorme sacrifício dos alemães para se poder dispensar o gás Russo. Serão alguns anos de adaptação e de maiores custos, mas tudo somado, com mais ou menos camisolas, o Ocidente vai sobreviver sem grande dificuldade. 

É inevitável, seremos mais pobres nos próximos anos, mas não muito. Mais preocupante é o fenómeno de inflação, que apesar de tudo será transitório. Grave mesmo são as já certas e prováveis amputações ao comercio mundial.

Só quando perdemos o que considerávamos garantido é que daremos o verdadeiro valor à globalização. A retirada da Rússia do comercio Internacional não é, por si, um maremoto. A vaga histérica geoestratégica que se adivinha, já desenhada nos tempos do Covid, vai fazer muitos estragos. Do 8 vamos passar ao 80. Tornando, também, a China,  menos dependente do seu comercio, o que poderá levar a outras e mais graves consequências. 

A guerra na Ucrânia , é a caixa de pandora do inicio deste século. 

 

 

 

 



12 comentários

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De Oscar Maximo a 31.03.2022 às 17:09

O primeiro parágrafo parte do principio que o consumo global de petróleo não vai aumentar. O que é completamente falso. E se não for petróleo, será carvão ou gás. Por cada ocidental que larga o carro, há dez chineses e indianos que passam a usá-lo. E a tomar banhos quase diários de água quente.
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De Anónimo a 31.03.2022 às 18:05

Só não vê quem não quer ver: 
Nestas aproximações  e juras de fidelidade "sine die" entre Rússia e China, às quais também se junta a Índia, podemos antecipar uma tendência: a grande fractura que desenhará um novo futuro geoestratégico.  Formar-se-á, seguramente, uma Nova Ordem constituída por Dois grandes blocos de interesses comuns diversos, com afinidades e compatibilidades de vária ordem, sendo que um dos "lados" com uma maior predisposição para integrar nele ditaduras e regimes afins que privilegiam governos "musculados", de pendor autocrático. E do outro lado, oposto, estará o mundo livre, o dos regimes democráticos: USA, Canadá, Japão, Coreia do Sul, Europa Ocidental, Austrália, e muitos mais. 



Haverá, obviamente, uns players hesitantes na escolha de como posicionar-se para obter a melhor vantagem, como qualquer jogador de xadrez.  Fica à imaginação de cada um identificá-los... Mas teremos de interiorizar esta realidade e habituarmo-nos a esta "nova" globalização bicéfala.
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De Anónimo a 31.03.2022 às 19:52

A caixa de Pandora!
Assumindo-me como arcaico e e ultrapassado convém dar valor à semiologia. Sintomas (subjectivos) e sinais (objectivos) permitem equacionar o problema. Os sensores humanos ou desenvolvidos pela tecnologia dão um novo patamar de acesso à realidade?
Para onde vamos?
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De Anónimo a 31.03.2022 às 20:00

« A retirada da Rússia do comercio Internacional ... »


O "comércio internacional" que conta limita-se aos USA e  capachos subordinados, brandidores de "sanções"? Há outros "stakeholders" que são, cada vez mais, "shareholders"...
Veja aqui algo mais do que está em jogo:


https://www.brasil247.com/blog/o-golpe-de-judo-da-russia-na-barriga-financeira-do-ocidente
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De balio a 01.04.2022 às 10:18


Não porque vá haver menos petróleo do que antes da guerra, mas apenas por incerteza.


Não. Pode mesmo haver menos petróleo. Embora as capacidades de extrair o petróleo, e de o transportar para os consumidores, permaneçam inalteradas, a capacidade de o pagar atempadamente e em segurança estão afetadas. As sanções à Rússia e aos seus bancos afetam a capacidade financeira de pagar o petróleo, sem o que ele não pode ser fornecido.
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De balio a 01.04.2022 às 10:23


A guerra na Ucrânia , é a caixa de pandora do inicio deste século.


Não. A caixa de pandora não é, predominantemente, a guerra na Ucrânia, mas sim a reação de outros países a ela.


Tal como a caixa de pandora não foi o covid-19, mas sim a reação dos governos a essa epidemia.


E tal como a caixa de Pandora em 1914 não foi o assassinato do arquiduque e da sua mulher, mas sim as reações de diversos países a esse assassinato.

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De JPT a 01.04.2022 às 10:26

Discordo da frase "Só quando perdemos o que considerávamos garantido é que daremos o verdadeiro valor à globalização". Reportando-se a frase a "nós", portugueses e ocidentais, o termo devia ser "desvalor". Tornou-se evidente que Ocidente sacrificou a sua independência económica e política, em troca de quinquilharia barata e ócio pago para o "hoi polloi" e da apropriação, por uma reduzidíssimo elite, de uma colossal mais-valia financeira (curiosamente, métodos que utilizou durante a primeira fase da sua expansão, para explorar os povos mais atrasados). Em troca dessas vantagens, a supremacia conseguida por 500 anos de imperialismo europeu, face ao "multi-milenar" imperialismo chinês, desapareceu em 30 anos de "globalização". Falsa ou não, a frase atribuída a Lenin, "os capitalistas nos venderão a corda com que os enforcaremos" está a mostrar-se mais do que acertada. Isto não é um juízo de valor (não me é indiferente que centenas de milhões de pessoas, sobretudo na Ásia, tenham saído da pobreza e do atraso) é uma mera constatação de facto. 
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De balio a 01.04.2022 às 12:06


Mesmo que a Europa deixe de consumir petróleo Russo, ele irá ser vendido a outro pais


Repare o autor deste post que os EUA estão a pressionar ativamente a Índia no sentido de esta deixar de comprar petróleo russo. Da mesma forma, a União Europeia está a pressionar ativamente a China no sentido de esta não furar as sanções que a UE impôs à Rússia.


Ou seja, tanto os EUA como a Europa estão a pressionar os outros países no sentido de também eles deixarem de comprar petróleo russo.


Portanto, a frase citada está, no limite, errada: aquilo que os EUA e a UE querem é mesmo que ninguém consuma petróleo russo - e que, portanto, haja escassez de petróleo.
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De Elvimonte a 01.04.2022 às 18:22

Banho de realidade, daquela que muitos concluem estar errada por não se enquadrar nos seus pressupostos.

O gráfico de cotações mensais dos últimos 5 anos de "crude oil" (NY Mercantile) está à minha frente (https://finance.yahoo.com/quote/CL%3DF?p=CL%3DF). 
Desde 1/4/2020, quando se registou o mínimo absoluto visível no gráfico de 18,84 USD, que as cotações têm permanecido numa tendência ascendente, com máximos e mínimos relativos sucessivamente mais altos. O último mínimo relativo registou-se a 1/11/2021, com a cotação a situar-se em 66,18 USD, muito antes da guerra. A escalada não parou desde então.


A 1/2/2022 a cotação ascendia a 95,72 USD. Atribuir à guerra a alta de preços que se tem vindo a verificar não tem qualquer correspondência com a realidade. As causas serão outras. A queda abrupta da produção dos EUA a partir de Fevereiro de 2020 é uma delas (https://www.eia.gov/dnav/pet/hist/LeafHandler.ashx?n=PET&s=WCRFPUS2&f=W)


"But in Texas’ Permian Basin — the nation’s most productive oil region and the place that would have to lead any jump in U.S. production — people in the industry, energy analysts and local leaders say there’s no quick or easy way to make that happen."


"Cranking up production requires more workers, materials and money, and people in the industry say they’re facing the same labor shortages and supply chain issues that have plagued countless businesses throughout the COVID-19 pandemic."


"It’s hard to get pipe, sand, crews for drilling rigs, truck drivers,” said Mike Oestmann, CEO of Tall City Exploration, a company that drills oil wells in West Texas and has two active rigs that drill 32 wells per year combined. He said the scarcity of supplies, equipment and people “is unlike anything I’ve ever seen.”"


"On top of that, they say Wall Street investors have become more hesitant about pouring money into fossil fuels, and the Biden administration’s policies are hampering the oil and gas industry."


(https://www.texastribune.org/2022/03/25/texas-permian-basin-oil-russia-invasion/)
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De anónimo a 02.04.2022 às 19:45

Volta Trump, estás perdoado.
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De Toranja Mecânica a 02.04.2022 às 05:01

Vai Começar a Segunda Fase da Operação Militar Especial da Federação Russa na Ucrânia:

https://toranja-mecanica.blogspot.com/2022/04/vai-comecar-segunda-fase-da-operacao.html

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