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A febre das plantações

por henrique pereira dos santos, em 12.01.19

João M. Soares, com razão, resolveu fazer uns comentários na sua página de Facebook em relação aos sobreiros plantados no pinhal de Leiria por António Costa.

O Público achou graça à história e foi verificar, confirmando o que realmente João M. Soares tinha já demonstrado: uma boa parte das árvores plantadas (para usar um eufemismo) estavam mortas.

Em si mesmo esta história faz parte do ridículo a que se submete este governo por um pouco mais de propaganda (agora inaugura, com a presença de vários ministros, o anúncio de abertura de concursos para financiar projectos, uma ideia genial, do ponto de vista da propaganda, uma parente próxima da outra ideia brilhante de que Alexandre Homem Cristo fala aqui).

A questão é que resulta e o problema vai muito para além do governo, radicando numa característica da sociedade portuguesa que a imprensa acentua em vez de combater: avaliar não é prioridade para ninguém.

Há anos que existem campanhas destas de plantar árvores, promovidas por membros do governo, quando se sentem mais apertados com os tristes resultados das opções de política florestal, mas também por marcas comerciais e organizações da sociedade civil, sendo frequentes as notícias sobre grandes iniciativas de plantação, às vezes com dezenas ou centenas de voluntários.

O problema é que os senhores jornalistas que assistem a estas iniciativas e que as noticiam, quando não as apoiam directamente, como foi o caso da Renascença que apoiou umas campanhas de plantação da QUERCUS financiada pelos CTT, esquecem-se de pôr um lembrete no telefone para daí a seis meses, um ano, dois anos, três anos, ir ver o que realmente resultou do esforço feito.

Eu sou presidente de uma associação de conservação da natureza que também planta árvores quando nos pagam para isso - de resto, preferimos gerir a regeneração natural e contar com o que vai aparecendo - mas ainda recentemente, numa primeira avaliação ainda preliminar, admitimos que 50% do que plantámos no ano passado poderá ter morrido, como é normal. A plantação é uma operação técnica sofisticada e para ter elevadas taxas de sobrevivência, como acontece na plantação comercial, é preciso garantir um conjunto de operações técnicas que custam dinheiro e exigem conhecimento. A nossa opção é uma opção de baixo custo e mais tempo, e por isso taxas de mortalidade de 50% podem acontecer (pensamos que não vai ser tanto quando fizermos uma avaliação mais rigorosa, mas se for, não será uma surpresa).

Nos acordos para a plantação de árvores que temos, 25% do que cobramos é para comprar as primeiras árvores, 75% é para assegurar a gestão nos cinco anos seguintes, incluindo, naturalmente, a substituição das árvores que entretanto morram. E, insisto, ainda assim, no que fazemos, plantar é uma actividade relativamente marginal face às actividades de melhoria do solo, da fertilidade, de condução da água, de correcção torrencial, de sementeira directa, de condução da regeneração natural, etc..

A larga maioria das plantações feitas fora do contexto comercial, são feitas às três pancadas, sem horizonte de gestão nenhum, sem criteriosa escolha de espécies e, acima de tudo, sem se integrarem num processo de gestão a cinco e dez anos que possam garantir que o esforço feito não é vão.

Política e mediaticamente isto funciona porque ninguém presta contas a ninguém, como no caso dos sobreiros do pinhal que, não fora a persistência de João M. Soares (e o seu peculiar sentido de humor) e ainda hoje estaria classificado como um caso de demonstração de empenho do governo na recuperação do potencial das áreas ardidas.

Pensando bem, é uma boa metáfora de grande parte do investimento público do país: faz-se porque o povo gosta da festa da inauguração e porque existem os recursos iniciais, e depois vamos todos pôr velinhas à Senhora de Fátima para pedir que tome conta do assunto, que nós temos outras prioridades para além de fazer o trabalho de dona de casa, que é um trabalho que não brilha, mesmo sendo verdadeiramente a base do resto.

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1 comentário

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De Luís Lavoura a 13.01.2019 às 21:01

O sobreiro é uma árvore filha da mãe que, se plantada, sistematicamente morre mas, se ninguém o plantar, facilmente aparece espontaneamente.
Digo isto da minha experiência, que já tentei plantar sobreiros em diferentes terrenos meus e sistematicamente falhei, mas em compensação já vi muitos sobreiros nascerem espontaneamente noutros tantos terrenos.

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