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A estupidez pode ser uma fatalidade, mas a ignorância é uma escolha

por henrique pereira dos santos, em 09.08.18

chave incêndios.jpg

Gonçalo Elias resumiu bem a simplicidade que é usada na discussão sobre fogos e, na verdade, o modelo pode ser aplicado em muitas outras situações.

Vem isto a propósito de uma ideia que Miguel Sousa Tavares terá difundido e que muita gente, incluindo uma série de jornalistas, repetem frequentemente a propósito do fogo de Monchique: aquilo arde tudo porque 70% (nas versões aproximadas), 73% (nas versóes rigorosas), do concelho é eucalipto.

Não é preciso conhecer Monchique para saber que esta percentagem de ocupação por um tipo de povoamento florestal é, com certeza, fantasiosa.

Mas ainda assim, repete-se, repete-se, repete-se, como se fosse um facto.

O estranho disto tudo não é Miguel Sousa Tavares dizer isto, a sua relação aberta com os factos é do domínio público e traz bastante sal e pimenta para o seu comentário político, sempre muito saboroso.

O estranho é a quantidade de pessoas razoáveis e preocupadas em manter-se dentro dos limites da realidade nas discussões, bem como a quantidade de jornalistas e afins que repetem isto sem fazer o que me parece mais evidente: verificar os números.

Eu recorri o Nuno Gracinhas Guiomar (uma fonte inesgotável de informação fiável em matéria de ocupação do solo, fogos florestais e outras coisas mais) porque era mais fácil para mim, mas qualquer pessoa facilmente encontra dos dados da ocupação do solo do país, incluindo análises de transição que permitem saber como tem evoluído essa ocupação do solo, o que aumentou e diminuiu, e esses pormenores que permitem discussões um bocadinho mais rigorosas sobre o assunto, evitando a enorme surpresa que vejo frequentemente quando explico que o eucalipto ocupa menos de 10% da área de Portugal.

Para Monchique temos então, de acordo com o COS 2015, 44,47% de eucalipto, 17,36% de sobreiro, 1,55% de outras folhosas e castanheiros e 26,88% de matos, ou seja, uma ocupação mano a mano entre eucalipto e a famosa vegetação autóctone cuja suposta falta é responsável por estes fogos (a soma do sobreiro e matos é 44,28%).

É claro que não se pode pedir às pessoas que deixem os factos influenciar as suas ideias, mas ao menos aos profissionais da comunicação seria razoável exigir que confirmem os dados que os especialistas que escolhem ouvir vos querem impingir para sustentar as suas agendas políticas, sociais e económicas.

Mas reconheço que escolher a ignorância é uma escolha perfeitamente legítima.

Autoria e outros dados (tags, etc)



28 comentários

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De Anónimo a 09.08.2018 às 09:58

Porque será que na França, na Alemanha, e outros paises, não há incendios florestais ? Porque há visão de futuro e os projectos começam pelo principio. Continuação de um bom dia. 
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De Miguel Madeira a 09.08.2018 às 11:53

E em Omã não deve haver muita gente a ficar presa em tempestades de neve. E na Áustria não deve haver muita gente a se afogar no mar. E...?


[E a Córsega - França - costuma ter incêndios florestais - ou "matostais", se preferirmos - bastante violentos]
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De Anónimo a 09.08.2018 às 13:09

Pela mesma razão que há incêndios florestais na Califórnia ou no Oregon mas não os há no Illinois ou no Massachusetts.
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De Luís Lavoura a 09.08.2018 às 10:19

Os dados que o Henrique fornece podem ser verdadeiros, porém é verdade que o atual incêndio começou numa zona dominada por eucaliptais, a zona norte do concelho de Monchique. Essa vertente da serra, virada ao Alentejo, está toda coberta por eucaliptais contínuos.
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De Anónimo a 09.08.2018 às 12:00

Então porque o fogo de Leiria em Out 2017 começou num campo agricola, devemos banir a agricultura? é?
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De Carlos Gonçalves a 10.08.2018 às 12:06

Tem mesmo a certeza do que está a dizer? 
É que tanto quanto julgo saber, o fogo do "pinhal" de Leiria começou num eucaliptal da Burinhosa.
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De Miguel Madeira a 09.08.2018 às 11:53

Os 70% serão provavelmente apenas da área florestal.
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De Psicogata a 09.08.2018 às 12:42

Acho muito interessante esse número de 10%, especialmente quando viajo pelo país, basta uma pequena viagem pela A1 para ver que esses 10% foram logo calhar ao pé da auto-estrada.
Será que o levantamento está bem feito? Tenho sérias dúvidas. O que contabilizam áreas áridas sem vegetação, ou com vegetação rasteira, se falarmos efetivamente de floresta, árvores o que vemos são eucaliptos por todo lado.
Creio que os 70% vieram de uma notícia da Quercus:
Em Monchique, "o eucalipto é a árvore dominante, com 13.888 hectares (72,4%) da área florestal do concelho, seguido pelo medronheiro com 4.679 hectares e pelo do sobreiro com 2.210 hectares", acrescenta.
https://www.jn.pt/local/noticias/faro/monchique/interior/quercus-diz-que-perigosidade-do-fogo-de-monchique-deve-se-sobretudo-a-eucaliptos-9688606.html
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De Henrique Pereira Dos Santos a 09.08.2018 às 20:20

Posso sugerir que antes de ter opinião sobre fogos florestais e ocupação do solo saia um bocadinho da autoestrada?
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De Psicogata a 10.08.2018 às 09:20

Acha que vivo na auto-estrada?
Dei apenas um exemplo.
Se calhar antes de ter opinião sobre fogos florestais e ocupação do solo saia um um bocadinho do seu mundo, fale, conheça e veja outras realidades, vá ao terreno,
falar com os números dos outros é fácil.
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De João Lagarto a 10.08.2018 às 10:46

Esta resposta diz tudo da sua posição sobre a nossa floresta.


é verdade ou não, que o eucalipto é mais "combustível" que o sobreiro, a azinheira, o carvalho, etc? E que os seus troncos rebentam e projectam as chamas a dezenas largas de metros?


Só gostava que o Henrique respondesse a estas questões, em vez de utilizar a mesma demagogia dos politicos e defender-se com estatísticas (que quase parecem as sondagens televisivas.


E eu vivo no campo, não precisa de me mandar sair de nenhuma auto-estrada.
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De Henrique Pereira Dos Santos a 10.08.2018 às 13:53

 Não, não é verdade (pode confirmar com os dados do fogo de Monchique em que os três principais usos ardem na proporção em que estão presentes e a severidade é maior nos Matos, depois no sóbreiro e em terceiro no eucalipto, como seria de esperar). 
Os troncos nem sequer ardem, quanto mais explodir. 
Deve estar a confundir com as projecções, que são maiores com eucalipto, mas existem em todos e são pouco relevantes em fogos rápidos porque os focos secundários são absorvidos pelo avanço da frente de fogo
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De Anónimo a 10.08.2018 às 14:38

Isso são perguntas demasiado diretas para o Henrique. Se o Henrique responder (isto é, se não o considerar burro ou não lhe disser que não percebeu nada do que ele disse) vai começar por dizer qualquer coisa como “tudo arde”, inclusive o betão ;),  qualquer coisa assim, seguindo-se mais um solilóquio com muitos contextos, incluindo a gestão e mais uma série de coisas estratosféricas. (sou da freguesia de Pessegueiro, concelho da Pampilhosa da Serra, uma das “capitais” do eucalipto, e sei um pouquito sobre o comportamento do eucalipto no fogo.).

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De Henrique Pereira Dos Santos a 10.08.2018 às 20:23

Pensei que tinha respondido a isto, mas como foi do telefone, provavelmente não soube fazer.

Não, não é verdade.
Tem o exemplo do actual fogo de Monchique, que o mato ardeu mais que a disponibilidade (ou seja, a percentagem de mato na área ardida é maior que a percentagem de mato no concelho) e tanto o sobreiro como o eucalipto arderam na mesma proporção em que havia no concelho (tenciono fazer um post sobre isso), com a diferença de que a severidade é maior no sobreiro que no eucalipto, como seria de esperar.
Como já deve ter reparado, os troncos não ardem (ficam lá em pé), portanto muito menos explodem (o que arde na frente de fogo são combustíveis finos, de menos de  6mm de espessura, atrás ardem coisas mais grossas, mas raramente acima de 10 cm de diâmetro (repare num giestal queimado e verá lá os troncos todos, por exemplo, com diâmetros bem menores de 10 cm).
Calculo que esteja a confundir com as projecções, que existem em todos os fogos intensos e com vento e que, no caso do eucalipto, são projectadas mais longe, embora em fogos rápidos a sua relevância para o desenvolvimento do fogo seja pequena porque sendo projectadas para a frente, são, de maneira geral, rapidamente absorvidas pela frente de fogo. Ainda assim, levantam dificuldades no combate que devem ser tidas em atenção, o que o nosso dispositivo raramente faz (repare nas imagens de combate, vê os bombeiros numa estrada virados para o fogo, em vez de estarem de costas, a acudir às projecções que caem do outro lado da estrada porque são as projecções que permitem saltar ao fogo saltar por cima da estrada visto que ao nível do chão a estrada não arde).
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De Psicogata a 13.08.2018 às 09:28

É interessante que o autor mande sair das auto-estradas pessoas que vivem no campo, não se pode dar um exemplo que deduzem logo que só conhecemos um local.
No norte o eucalipto é dominante, tal como disse gostava muito de verificar a veracidade das estatísticas, pois creio existirem muitas áreas mal classificadas.
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De Carlos Gonçalves a 10.08.2018 às 12:23


Ir, por exemplo, à informação que é disponibilizada pelas própria industria da pasta de papel no que se refere à produção de pés de Ir, por exemplo, à informação que é disponibilizada pelas própria industria da pasta de papel no que se refere à produção em viveiro de pés de eucalipto e fazer umas continhas pelos dedos (foi em 2018 que vi, não sei se ainda lá está...). A menos que todos os anos aqueles malucos andem a atirar ao lixo a maior parte da produção, essas continhas do "COS 2015" são um pouco a dar para o esquisito.
Mas enfim, se são só 44,47% é perfeitamente aceitável. Acho até que devíamos até subsidiar mais qualquer coisinha.
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De Luís Lavoura a 10.08.2018 às 16:03

basta uma pequena viagem pela A1 para ver que esses 10% foram logo calhar ao pé da auto-estrada

Os eucaliptos estão sobremaneira no litoral do país, que é mais húmido, e é precisamente por lá que passa a A1.

Se em vez de percorrer a A1 percorrer a autoestrada para o Algarve ou a A23 ou a A25, verá muito menos eucaliptos.

Portanto, tem razão, esses 10% foram logo por azar calhar perto da A1...
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De Luís Lavoura a 10.08.2018 às 16:07

o eucalipto é a árvore dominante, com 13.888 hectares (72,4%) da área florestal do concelho

Não sei que rigor têm os números da Quercus, mas eles parecem referir-se exclusivamente à "área florestal do concelho". Ora, todos os concelhos têm, além da área florestal, uma área de matos, que nos concelhos algarvios é bastante extensa. E os matos (silvas, giestas, estevas, canas, etc) ardem bem mais depressa que as florestas.
Por exemplo, como a Psicogata gosta de percorrer as autoestradas, note que ao longo da autoestrada para o Algarve há, na serra algarvia, extensos campos de estevas mas quase nenhumas árvores. Não há floresta, há mato. E as estevas são altissimamente pirófitas!
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De Ricardo Miguel Sebastião a 09.08.2018 às 13:34

O meu sogro todos os anos manda cortar o mato à volta de uma casa perto de Ansião. Costuma-o fazer em Julho, este ano, mandou cortar mais cedo por causa da nova lei; resultado: em pleno Agosto, plena época de incêndios, o mato está já acima da cintura! 370€ para nada! 
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De JMS a 09.08.2018 às 22:12

Mas o sr. primeiro ministro disse, nessa altura, que se se cortasse nessa altura do ano, para o ano, em 2019, já tinha que cortar menos. Será possível o sr. primeiro ministro ter-se enganado? Duvido. Deve haver aí alguma confusão. 
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De Luís Lavoura a 10.08.2018 às 16:09

O seu sogro tem razão: o mato deve ser roçado em junho ou julho, que  quando já não cresce mais.
O mato em Portugal cresce a uma velocidade estonteante de março a maio. Nos outros meses do ano cresce lentamente.
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De Anónimo a 09.08.2018 às 17:56

O mal é ouvir o Sousa Tavares, coisa que já não faço porque mal ele aparece mudo logo de canal, por amor à minha saúde mental.
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De Anónimo a 09.08.2018 às 23:22

Na minha zona houve tivesse limpo os seus terrenos pelo menos duas vezes antes de Junho, mas agora ja precisam de mais limpeza... ha qualquer coisa de errado com estas ideias de quem acha que percebe de floresta, mato ou incendios.
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De pitosga a 10.08.2018 às 13:06

«... escolher a ignorância é uma escolha perfeitamente legítima».

Mas, para mim, será uma escolha perfeitamente estúpida.
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De Carlos Gonçalves a 10.08.2018 às 14:00

Também julgo ter números:
Portugal é o país com maior área per capita dedicada à produção de eucaliptos.
Portugal é o país com maior área ardida em toda a Europa.


Agora preciso dizer (assim a modos de quem pede perdão): EU SOU EUCALIPTÓFAGO!


(porque o eucaliptal é feio, muito feio. Ao longe tem a cor da matéria prima de uma etar. E ao contrário destas, é inodora. Sim, é mentira que o   petrol eucalyptus - o do bom para a pasta de papel - seja bem cheiroso. É praticamente inodoro.)
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De Laura Rocha a 10.08.2018 às 15:52

Consulte a Quercus e o relatório de uma entidade estatal para ver se os 70%sao mentira. O estado mente? 

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