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Conheço imensa gente qualificada, razoável, racional e informada que, quando chega a qualquer conversa sobre Gaza e Israel, desliza imediatamente para um nível de irracionalidade que eu nunca pensaria ser possível, como, por exemplo, acreditar que Israel inventou um sistema de distribuição de ajuda humanitária para atrair pessoas e fazer tiro ao alvo a crianças indefesas.

Esta suposta verificação da veracidade desta frase chegou-me por via de uma pessoa com manifesta boa cabeça, que conheço pessoalmente (embora fugazmente, fomos convidados ao mesmo tempo, pela mesma pessoa, para discutirmos questões académicas com alunos), professor universitário de prestígio imaculado, escreve opinião em jornais regularmente, enfim, uma pessoa que, pensaria eu, ao olhar para este boneco concluiria, como acho que conclui qualquer pessoa com dois neurónios, que era treta.
Posto perante o facto de provavelmente ser treta, primeiro negou que o fosse e, a custo, lá admitiu que o embaixador de Israel dizia muitas mentiras nesta entrevista, mas não tinha encontrado esta frase concreta.
De resto, nesta entrevista há um momento que define a forma como grande parte do jornalismo está preso num nevoeiro que o impede de ver o que quer que seja.
O embaixador está a associar a fome de Gaza a uma campanha do Hamas e fala na famosa fotografia do miúdo com um problema congénito, a que grande parte da imprensa mais qualificada se agarrou para dizer que há uma fome terrível em Gaza. Explica o contexto da fotografia, e diz que a própria CNN Portugal (onde está a dar a entrevista) é conivente nessa campanha porque mantém a fotografia no seu site como demonstração da fome em gaza, quando a CNN internacional já não reproduz essa fotografia e o New York Times pediu desculpa por a ter usado, confirmando que o miúdo tem uma deonça congénita.
Resposta, antológica, da jornalista: o facto do miúdo ter uma doença congénita não quer dizer que não tenha também fome (a entrevista está cheia destes momentos Hamas por parte dos jornalistas).
Este grau de dissonância cognitiva não aparece noutro tipo de conflitos, ou melhor, não com este grau de descolamento da realidade e da lógica, como se o nome de Israel tivesse um efeito hipnótico suficiente para que gente inteligente, culta e informada deixasse totalmente de ver a realidade e fosse transportada para um mundo paralelo em que seria possível um embaixador, fosse de que país fosse, dizer a barbaridade atribuída ao embaixador de Israel.
Eu acho que isto daria um doutoramento fantástico em Sociologia (era preciso esperar pela extinção da FCT, doutra forma um doutoramento com este tema jamais teria a sua aprovação, claro).
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