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A esquerda, a direita e a igualdade

por Maria Teixeira Alves, em 03.10.15

Deparei-me com uma entrevista do Observador a Ricardo Araújo Pereira, em que este diz, para explicar às filhas a diferença entre esquerda e direita, o seguinte: dei-lhes a definição do politólogo italiano Norberto Bobbio: quem é de esquerda acha que as pessoas são mais iguais do que desiguais, e por isso a sociedade deve tender para reproduzir essa igualdade; quem é de direita acha que são mais desiguais do que iguais, e por isso acha normal, e até justo, que na sociedade se verifique essa desigualdade.

Esta perspectiva é no entanto a visão de uma pessoa de esquerda. A direita sabe que a igualdade como mandamento é em si mesma uma tirania. A esquerda tem na igualdade um mandamento, mas a verdade é que a igualdade como mandamento retira lugar ao mérito, porque o mérito implica alguém que se superiorizou. Ora a direita defende a igualdade só no ponto de partida, mas não no ponto de chegada. E isso faz toda a diferença. O mérito (a muitos níveis, até no gosto e na estética) é soberano na direita pois a igualdade encerra em si uma hipocrisia. A esquerda defende "a igualdade" social mas, no fim do dia, não gosta de "Belmiros de Azevedo" porque não gostam ainda mais de quem deixou de ser desfavorecido e entrou na alta roda, ignorando mesmo o valor do mérito. Estou tentada a dizer que ainda gostam menos desses porque os vêem como alguém que está indevidamente no topo e ali não devia estar.

Ao contrário, a direita gosta de sociedades que premeiam o mérito e por isso acham bem os privilégios e não subscrevem igualdades, que de tão teóricas, aniquilam os bons. 

Claro que há também aquela direita, que apesar de saber que o bem é olhar para os outros como iguais, até porque têm o exemplo de Cristo, consideram que no fundo o ser humano tem de ser perdoado por ter algumas vaidades e no fundo acreditam que a hierarquia social é exclusivamente determinada pelo nascimento (embora nalgum ponto lá atrás o mérito tenha sido o detonador de tudo). Mas dessa não falo, porque mais do que direita é uma certa forma monárquica (no sentido da fé na hereditariedade) de ver as sociedades e que procura perpetuar uma estrutura que lhes é favorável, e na verdade é uma coisa enraizada tanto na direita como na esquerda. Na verdade nas sociedades humanas, temos de admitir, e isso não é uma questão de esquerda ou direita, heredity rules. Pode talvez dizer-se, sem que haja um estudo sociológico empírico que sustente esta minha ideia, que as sociedades mais auto-suficientes economicamente (mais desenvolvidas) tendem a ser menos influenciadas por esta visão do determinismo da hereditariedade subjacente a essa visão da organização e hierarquia social.

Mas é preciso rebater a ideia que a esquerda é mais "boazinha" porque defende os fracos e oprimidos e  que todos "somos iguais". Até porque como a igualdade é uma teoria, a imposição de uma coisa anti-natura torna-se tirana. 

A defesa do mérito é uma forma mais justa de se ser "bonzinho", e essa é a base da direita. Premiar os bons é a antítese da igualdade e a direita defende uma sociedade que premeie a excelência. Deixando para o Estado essa função social, a famosa sentença de "o Estado para os pobrezinhos", por oposição à esquerda que defende o Estado para todos, porque somos todos iguais e todos temos os mesmos direitos. 

O Estado como entidade abstracta que tem a mão invisível sobre tudo, como entidade que está acima para que as sociedades humanas funcionem "em igualdade", é isto a esquerda.

 

 



17 comentários

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De Onde estás, moço de fretes a 03.10.2015 às 23:28

Luis Migueeeeeeeeeeeeeeeeeellllllllllllllllllllllll


Tens aqui mais um post para os teus apelos patriobatotas!
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De zazie a 03.10.2015 às 23:45

Hoje, no meu bairro, estavam dois traficantes (dos que vendem coisas roubadas a antiquário) a comentar as eleições. Dizia um deles, ainda não sei bem em quem vou votar. E o outro respondeu: pois eu acho que voto PS: os outros são melhores mas interessam mais a pessoas ricas; para nós é melhor o PS.
E o outro acrescentou: pois os subsídios.


A ver se não sabem como a barriguita é que manda e quem a tem pela cenoura tem banco de votos.
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De Teófrasto Epistolário a 03.10.2015 às 23:55

muito bem visto e explicado. Congrats!
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De xico a 04.10.2015 às 01:10

Supondo que a Maria Teixeira Alves é de direita e que, por isso, defende que se deve premiar cada um pelo seu mérito e não fazendo caridade, premiar a excelência como diz, isso quer dizer que a Maria Teixeira Alves defende o fim do direito às heranças?! Defende portanto que ninguém deve ser privilegiado só porque nasceu em berço de ouro?!
Aceitando que não somos iguais, e nisso estou de acordo consigo, devemos então partir todos do zero para ver quem é que se destaca pelo mérito. Os filhos dos ricos e os filhos dos pobres. Certo? O fim dos privilégios e o fim da desgraça por nascimento!
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De Maria Teixeira Alves a 04.10.2015 às 01:56

Não defendo o fim das heranças, obviamente. Porque o mérito não tem nada a ver com heranças. Quantas pessoas ricas não têm mérito nenhum e quantas pobres têm um mérito enorme. O mérito não tem a ver com o ponto de partida, mas com o ponto de chegada. Na verdade todos nascemos bebés, não são os cueiros que determinam nada. 
Nem sequer devia ser tema. As pessoas, quando se fala em mérito, pensam em comparar com o ponto de partida e isso é desvirtuar o mérito. Imagine se um estrangeiro de que nada se sabe. Este não pode ser reconhecido pelo que é, ou seja pelo seu mérito? Claro que pode. Esqueçam as classes sociais, isso é uma mera convenção e serve de desculpas para tudo. As classes sociais são uma coisa datada, do tempo do Marx :)
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De xico a 04.10.2015 às 16:50

Explique-me como é que alguém que nasce coxo de pais, dinheiro, educação, pode, numa corrida, superar quem nasce com duas pernas e um infindável número de muletas. É para isto que serve o estado social: repor alguma justiça e igualdade de oportunidade. Só depois podemos discutir o mérito.
Há pessoas que, por falta de oportunidade, nunca leram Cícero nem Santo Agostinho mas entendem logo o que para si parece ser difícil. Mesmo assim não passam da cepa torta...
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De Maria Teixeira Alves a 04.10.2015 às 18:04

A sociedade portuguesa não é ainda meritocratica. Infelizmente. Há muita a cultura da cunha e padrinhos. Os Estados Unidos sim é uma sociedade meritocratica por exemplo. Acho que é um caminho a fazer, e a direita é melhor para traçar esse caminho.
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De João. a 04.10.2015 às 10:53

Pois é xico, como vê pela resposta a conversa do mérito é uma treta. Só se mede de facto o mérito se se partir em condições de igualdade mas isto, como se verifica, é muita areia para a camionete deles.
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De Maria Teixeira Alves a 04.10.2015 às 12:07

Não se mede o mérito pelas condições de igualdade de partida, mas sim pela qualidade à chegada. Esqueçam a partida. Tem de haver condições para quem não tem dinheiro poder estudar, de resto é a sociedade premiar os melhores e tudo se compõe.
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De Hajapachorra a 04.10.2015 às 08:39

A discussão sobre a difícil conjugação do mérito com a igualdade é mais velha do que a sé de Braga e nada tem a ver com esquerda e direita. Constitui, por exemplo, o tema de fundo da República de Cícero, um tratado de teoria política que trata de conciliar aequabilitas, a igualdade, com dignitas, o mérito.
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De Maria Teixeira Alves a 04.10.2015 às 09:10

E no entanto ela (a questão) está lá. Quem é que fez da igualdade um bastião da esquerda? Alguém posterior a Cícero.
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De Maria Teixeira Alves a 04.10.2015 às 09:15

Note-se ainda que Santo Agostinho define também a igualdade à partida e a desigualdade à chegada. 
Embora, quanto às leis e ao direito, Santo Agostinho tenha concordado com Cícero e com o pensamento estóico, confrontou-se com o problema de adaptar tais idéias à crença na existência de um Deus pessoal e criador; todos os homens são iguais porque todos são filhos de Deus - eis a justiça divina. Mas eles serão tratados desigualmente, de acordo com seu mérito, que consiste na observância da lei divina (lex aeterna), da lei natural (lex naturalis) e, depois, da lei dos homens (lex humana). 
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De EMS a 04.10.2015 às 16:58

Santo Agostinho estaria a considerar como "chegada" a vida no alem.
Julgo que não era bem este tipo de meritocracia que se fala no post.
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De Maria Teixeira Alves a 04.10.2015 às 18:06

Não é nesse aspecto que fala Santo Agostinho
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De EMS a 05.10.2015 às 01:47

Quer dizer que basta sermos uns virtuosos observantes das diversas leis para assegurarmos uma vida terrena confortável e despreocupada?
Não  imaginava o Santo Agostinho tão ingénuo.
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De gajas a 04.10.2015 às 21:27

Este menino pensa que é Homem.
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De João a 11.10.2015 às 21:22


  • Mérito?
  • A direita priveligia o mérito? Isto de escrever para um mundo utópico é muito bonito mas convêm ver o país para quem e onde se escreve. Neste momento o unico mérito dos politicoa de direita é ter caryão de partido e estomago para aguentar tantos anos desde as jotas até ao poleiro. Ou estarei enganado?

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